21 de janeiro, de 2014 | 00:00
Falta de defensores está entre as causas da superpopulação carcerária
Área de Execução Penal em Ipatinga tem apenas dois defensores para atender três municípios
IPATINGA Um relatório preliminar do Grupo de Trabalho sobre Detenção Arbitrária das Nações Unidas (GTDA/ONU) aponta que a escassez de defensores públicos no País prejudica o acompanhamento dos processos dos detentos, uma das principais causas da superlotação das prisões brasileiras.
A ampliação do número de defensores públicos está entre as mais frequentes recomendações feitas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) durante os mutirões carcerários. Em Ipatinga, a defensora pública da área de Execuções Penais, Nadja Maria de Valois Fernandes, explica que o quadro é deficitário, a exemplo de todo o país.
De acordo com o relatório, defensores públicos que oferecem assistência legal gratuita podem ter de lidar com até 800 processos de uma só vez. Conforme o documento, isso impacta negativamente no direito do detento à equidade e julgamento justo. Mesmo nos estados da federação onde há um sistema de defensoria pública, comumente as áreas rurais não possuem estes profissionais para defender os detentos.
A Defensoria Pública da comarca de Ipatinga, que atende Santana do Paraíso, Ipatinga e Ipaba, possui apenas dois defensores na área de Execução Penal. Comprovando os números do relatório do grupo da ONU, as unidades prisionais da região estão superlotadas. O presídio de Coronel Fabriciano, com capacidade para 194 pessoas, possui atualmente 218 presos. Já a Penitenciária Dênio Moreira de Carvalho, de Ipaba, registra ocupação de 588 pessoas, com capacidade para 384. No Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) de Ipatinga, a capacidade é de 183 detentos, enquanto o número de ocupação é de 587 presos. As informações são da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds).
A Secretaria acrescenta que o Ceresp tem a característica de porta de entrada para o sistema prisional e, apesar da lotação, possui alta rotatividade. A gestão de vagas do sistema prisional funciona em rede e a abertura de novas vagas no Estado reflete em todas as unidades administradas pela Suapi.
Nadja Fernandes explica que a Associação Nacional dos Defensores Públicos (Anadep) fez um estudo na qual é apontado o quadro reduzido de defensores e o fato de a Defensoria não estar devidamente equipada. O defensor trabalha só, não temos um assistente judiciário, nem servidores, e isso tudo dificulta a nossa atuação. Esforçamos para fazer o máximo possível, mas a Defensoria atua em todos os processos, independentemente de estar assistindo à pessoa privada de liberdade e isso aumentou nossa responsabilidade na execução penal”, observa.
Os inspetores da ONU apontam, no documento, que o deficiente acesso dos detentos à Justiça leva muitos deles, sobretudo os que não podem pagar por um advogado, a permanecer presos por tempo superior ao estipulado em sentença. Foram verificados casos de detenções provisórias que duravam meses, até anos, período em que o detento não sabia o que ocorria com o seu processo.
A nossa questão hoje é mais social e nosso perfil é esse, nós acreditamos no ser humano e é preciso uma instituição forte, que defenda, mas desde a Constituição de 1988 que o estado fortaleceu várias instituições como o Judiciário, o Ministério Público, que na verdade é o estado acusação. A Defensoria Pública nasceu constitucionalmente em 1988, mas para se ter uma ideia, alguns estados no Sul do país ainda não têm defensoria pública”, revelou Najda Fernandes.
O Grupo de Trabalho da ONU, ao citar as causas da superpopulação carcerária no Brasil, aponta também o excessivo uso da prisão, a lentidão na tramitação dos processos judiciais e a baixa aplicação, pelo Poder Judiciário, de medidas cautelares substitutivas à prisão e penas alternativas.
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