30 de março, de 2014 | 00:00
A pressão da sociedade é fundamental”
Advogada torturada no período de repressão militar comenta os ecos da ditadura nos anos atuais
IPATINGA Em 1º de abril, é lembrado o cinquentenário do Golpe Militar de 1964. Dados do Dossiê da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, apontam que apenas nos primeiros meses após a tomada do governo por militares 50.000 pessoas foram presas e em torno de 30.000 torturadas. Pelo menos 426 pessoas foram mortas ou desapareceram nesse período, aponta o documento.
Para lembrar a data de um dos mais emblemáticos períodos da história do país, o Fórum Memória e Verdade do Vale do Aço trouxe à Ipatinga a advogada e conselheira da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Rita Sipahi. Graduada pela Faculdade de Direito do Recife (UFPE), Rita militou pelo Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) à época da ditadura. A advogada foi presa e torturada por 11 meses no Presídio Tiradentes, conhecido como Torre das Donzelas, em São Paulo.
Na tarde de sexta-feira, 28, Sipahi proferiu palestras a estudantes em escolas públicas e participou da audiência pública Mulheres e Resistência”, realizada à noite na Câmara Municipal de Ipatinga.
Em entrevista ao DIÁRIO DO AÇO, a ex-presa política falou dos reflexos da Ditadura Militar no país, da falta de conhecimento e alienação da população frente a uma política de autoritarismo implícito, e a necessidade de pressão popular pela transformação cultural brasileira. Confira a entrevista.
DIÁRIO DO AÇO Como a senhora vê o resgate das memórias da ditadura e a publicação de tudo o que ocorreu no período que sucedeu o Golpe Militar de 1964?
RITA SIPAHI No país há violência, mortes, corrupção, matanças, tragédias e impunidade. Muitos responsáveis lá atrás pelo sistema de repressão - muitos torturadores - estão presentes e com cargos dentro do Estado. São agentes públicos e esses agentes que desencadearam são os que informam (instruem), até hoje, a repressão. A Polícia Militar é uma herança da ditadura militar. Os órgãos repressivos continuam com uma orientação onde a tortura é legitimada. A tortura é um crime que lesa a humanidade. É um crime de destruição das pessoas, de desrespeito.
DA A tortura é um dos maiores vestígios do regime autoritário no país?
RITA SIPAHI A política da Segurança Nacional era fundamentada na ideia de que todo aquele que pensasse diferente era inimigo da pátria. Portanto, tinha que se combater esse inimigo. A tortura foi uma política de Estado. E essa relação do presente com o passado não é feita, não é somente imediata, mas tem efeitos. Ela é feita ao longo dos anos principalmente por uma política de negacionismo. Durante esses anos todos, o movimento não é de afirmar um aperfeiçoamento da democracia. Fala-se nisso, mas na prática a política ainda está mediada pelo autoritarismo.
DA Esse autoritarismo se reflete na onda de violência desmedida e, inclusive, legitimada pela população?
RITA SIPAHI - A sociedade brasileira é autoritária. E esse autoritarismo tem como origem o golpe civil-militar. A sociedade legitima a tortura porque não conhece essa realidade, porque não tem conhecimento ou informação do que é a tortura e do que vem sendo a tortura. É preocupante o atual cenário de violência. Ele está caracterizado por uma violência, mas a causa dessa violência não é identificada, não é questionada. Ninguém pergunta por que há tanta violência?. Alguns insistem que culturalmente o país é violento e autoritário, mas a cultura se transforma e porque ela não se transformou até hoje?
DA Quanto ao tema da audiência pública, Mulheres e Resistência”, um fator de destaque: o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que 58,5% da população acredita que é o comportamento feminino que motiva o estupro. Há ainda uma ditadura imposta à figura da mulher no país?
RITA SIPAHI - Os crimes contra a mulher, como é o caso do estupro tem um aspecto muito primitivo. Há um patriarcalismo muito grande na sociedade brasileira. A figura máxima sempre foi o homem. Isso foi se transformando ao longo da história e há conquistas no papel da mulher. Mas ainda há um preconceito e um estigma. Essa é uma forma de ditadura. A mulher que extrapola esse padrão, não merece respeito. O autoritarismo vem se aperfeiçoando e assumindo formas disfarçadas. O mercado que administra a economia, tanto o financeiro, como o de produto é um exemplo. Como ele vê a mulher? Ela é um objeto de consumo. As pessoas não estão voltadas para valores outros senão os imediatos.
DA Em junho de 2013, manifestações populares eclodiram por todo o território nacional e levaram milhares às ruas indignados com as mazelas políticas do país. Que leitura a senhora faz desse marco histórico contemporâneo da nação?
RITA SIPAHI - Quando eles (manifestantes que cobravam a redução do preço da passagem) foram para a rua, eles atraíram outras pessoas, também insatisfeitas, e que criou aquele movimento todo. Foi fundamental. Eles recuaram porque não conseguiram dar continuidade. Entraram outras pessoas (em tom de que denegriu o movimento). A rua é um espaço de ocupação. O modo de se fazer política hoje é também este. Não se pode ter repressão quanto a isso. Ou se irá inibir outra vez uma manifestação que é política. A política causa um mal estar nas pessoas e, há uma desqualificação da política, o que é ruim. Não fazer política, não dominar política, nos faz ficar sozinhos, isolados. Há um autor que diz que fazer política sozinho é suicídio, mas fazer política coletiva é autoajuda. A política somos nós, instrumentos de transformação.
DA Como é possível impulsionar uma transformação cultural no Brasil, e resgatar o sentimento de combate aos descompassos sociais que foram aquietados nas últimas décadas?
RITA SIPAHI - É preciso indignação. A coisa mais revolucionária que tem é o eu posso”. Eu posso questionar, e buscar entender. Por que isso é assim? Temos que entender o que está acontecendo. Se não entendemos, apenas reclamamos. Qual é a causa que a desatando eu posso resolver as outras? Democracia é construção, só vamos nos opor ao autoritarismo com outros valores. A pressão da sociedade civil é fundamental.
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