13 de setembro, de 2014 | 23:51
Os desafios para a reindustrialização
Presidente Executivo do IABr, Marco Polo de Mello Lopes, traça o cenário da siderurgia no Brasil
IPATINGA A siderurgia brasileira enfrenta grandes desafios e, no momento, passa por adequações para enfrentar um mercado instável. O Instituto Aço Brasil (IABr), entidade que representa as principais siderúrgicas do Brasil, como a Usiminas e a Aperam, teve a oportunidade de tratar do tema com os candidatos à presidência da república. Os dirigentes quiseram saber quais os planos dos políticos para um setor considerado determinante para o desenvolvimento da indústria nacional.
O presidente executivo do IABr, Marco Polo de Mello Lopes, explica que a entidade participou de debates com os presidenciáveis, em evento organizado pela Confederação Nacional da Indústria. Na ocasião, explica o executivo, foram apresentadas as preocupações com a perda de competitividade da indústria nacional devido a fatores sistêmicos, como a alta carga tributária, custo da energia, gargalos de infraestrutura e logística e o câmbio valorizado.
Em função desta perda de competitividade, houve expressivo aumento das importações diretas e indiretas de aço. As importações indiretas compreendem o aço contido em bens importados. Tais questões foram apresentadas aos candidatos, ressaltando-se a necessidade de medidas de curto e médio prazos para promover a reindustrialização e a retomada dos investimentos”, explica Marco Polo. Confira, abaixo, outras questões tratadas pelo dirigente em entrevista ao DIÁRIO DO AÇO, por email.
DIÁRIO DO AÇO - Diante do cenário de grande competitividade do mercado, o senhor acredita que o setor siderúrgico tem dado conta de se reinventar” para superar o quadro?
MARCO POLO: Do portão da usina pra dentro, todo investimento necessário em tecnologia e aumento da produtividade vem sendo realizado. O setor brasileiro de aço operou em média, no ano de 2013, com 71% de sua capacidade instalada de produção, bem abaixo da média histórica, de 85%, devido basicamente, à perda da competitividade sistêmica, que levou o setor a ter dificuldade na competição com os importados e nas exportações. A mudança desse cenário representa um grande desafio, devido ainda às questões conjunturais, como o fraco desempenho da economia do País e a existência de grande excedente de capacidade instalada de produção de aço no mundo, de cerca de 600 milhões de toneladas. Para o desenvolvimento do setor é imprescindível correção das assimetrias competitivas e a promoção de medidas que assegurem o crescimento sustentado do mercado interno. Além disso, o consumo interno de aço precisa crescer para assegurar a sustentabilidade do parque produtor do país.
DA Qual deve ser o papel do governo e como tem sido essa participação governamental no contexto?
MARCO POLO: Há medidas de curto prazo que podem contribuir para a retomada do crescimento do mercado de aço, com impactos positivos em outros segmentos da cadeia como: programa de renovação da frota de caminhões; redução do viés pro-importação dos regimes especiais e efetiva implementação das normas de conteúdo local; revisão de mecanismos que emperram as concessões.
DA - A venda de produtos de outros países abaixo do preço de custo de produção foi, ao longo dos anos anteriores, motivo de problema para o mercado siderúrgico nacional. Como está o andamento dos processos antidumping?
MARCO POLO: Muito embora tenha havido melhoria na implementação de medidas de investigação e de aplicação de medidas antidumping no País, continuam a ocorrer práticas de comércio desleal e predatório. Estudo de consultoria internacional demonstrou que empresas de alguns países, grande parte das quais estatais, operam com fluxo de caixa negativo, deprimindo os preços no mercado internacional. Outra questão importante é a baixa qualidade de alguns produtos siderúrgicos importados que impõem riscos à segurança e também ao desempenho do produto nas aplicações a que se destinam.
DA - Em relação ao PIB, caso permaneçam os atuais indicadores, qual o cenário traçado para 2015?
MARCO POLO: Ainda não temos previsão para 2015. O consumo aparente de aço no Brasil está estagnado desde 2010, com crescimento médio de 0,41% a.a. O reduzido nível de investimentos em infraestrutura vem sendo um dos principais responsáveis pelo baixo consumo de aço e de bens intensivos em aço no País. Nos últimos 20 anos, países em desenvolvimento têm investido, em média, 5,1% do PIB em infraestrutura, enquanto que no Brasil este índice foi de 2,2%.
DA - As comunidades onde as siderúrgicas estão instaladas têm a economia dependente dessa relação, em especial por causa dos salários pagos aos trabalhadores. Nesse processo de reinvenção do setor, as comunidades terão, cada vez menos, divisas oriundas dessa relação?
MARCO POLO: As empresas do setor buscam cada vez mais estreitar a relação com as comunidades locais: 77% dos colaboradores contratados pelas empresas associadas ao Instituto Aço Brasil são de comunidades próximas. A importância da indústria do aço na economia do país é reconhecida por todos, com grande efeito multiplicador na geração de renda e de empregos.
DA - Pode ser feita alguma relação entre resultados econômicos de 2014 e o ano eleitoral?
MARCO POLO: Os períodos eleitorais sempre têm alguma influência na economia, ante a perspectiva de possíveis mudanças nas políticas públicas. Em 2014, também houve influência da realização da Copa do Mundo, que acarretou paralisação de muitas atividades por alguns dias. No entanto, a economia brasileira e o PIB vêm demonstrando enfraquecimento desde o ano passado. A participação da indústria de transformação no PIB que já foi de 35%, situa-se atualmente em 13%.
DA Quais os desafios determinantes para a siderurgia na atualidade?
MARCO POLO: Fatores sistêmicos que impactam negativamente a competitividade - como a alta carga tributária e cumulatividade dos impostos, custo da energia elétrica e câmbio valorizado - vêm afetando não somente a indústria brasileira do aço como também seus principais setores consumidores. No cenário mundial, há ainda um excedente de capacidade da ordem de 600 milhões de toneladas. Em consequência, as exportações devem continuar abaixo da média histórica, as importações em níveis extremamente elevados fazendo com que a utilização da capacidade instalada de produção de aço no país permaneça abaixo de 70%.
A produção de aço bruto em 2014 está estimada em cerca de 33,3 milhões de toneladas, queda de 2,5% se comparada à de 2013. As vendas internas devem totalizar 21,7 milhões de toneladas, queda de 4,9% em relação ao ano passado. A previsão está baseada no desempenho dos setores consumidores de aço, que apresentaram queda entre janeiro e junho de 2014, segundo dados do IBGE.
O consumo aparente de aço deve ser de 25,3 milhões de toneladas, queda de 4,1% na comparação com 2013, com base na queda das vendas já observadas entre janeiro e julho de 2014. As exportações devem atingir 8,4 milhões de toneladas, alta de 3,9% em relação ao ano anterior, por conta do religamento do alto forno nº3 da ArcelorMittal Tubarão em julho passado. Já as importações devem atingir o patamar de 3,8 milhões de toneladas, o que significa dizer um aumento de 1,8% em comparação a 2013.
A perspectiva é a de que, enquanto perdurarem as assimetrias competitivas do País e o elevado excedente de oferta de aço no mundo, o aço brasileiro continuará tendo dificuldades tanto no mercado interno quanto no internacional. Como não se antevê a curto prazo revisão de tributos ou melhor equilíbrio cambial frente a outras moedas, o setor entende ser necessário medidas urgentes de defesa comercial, entre as quais se inclui a efetiva implementação das normas de conteúdo local.
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