11 de novembro, de 2014 | 00:00

“Fiquei sem as pernas, mas com paz”

De volta a Ipatinga, vítima de acidente com trem em Portugal faz planos para retomar a rotina enquanto aguarda decisão na Justiça


IPATINGA – “Nasci de novo, dia 4 de dezembro completo um ano de vida”. É assim que Alcenira Claudiana de Oliveira, 52 anos, resume o triste acidente em que perdeu as duas pernas na estação de trem Sete Rios, em Lisboa (Portugal). Em 4 de dezembro do ano passado, quando desembarcava na plataforma e retirava a última bolsa, o trem arrancou fazendo Alcenira cair na linha e, em questão de segundos, o vagão arrancou as suas pernas bruscamente. A empresa responsável pelo trem, CP, nega culpa pelo acidente e o caso tramita na Justiça portuguesa, ainda sem uma decisão.

Depois de um longo tratamento em Portugal, custeado com apoio do Consulado Brasileiro e do Instituto Nacional de Seguro Social, Alcenira de Oliveira, voltou para Ipatinga no dia 7 de novembro. Morando temporariamente na casa dos sogros da filha, no bairro Bom Jardim, Alcenira de Oliveira recebeu a reportagem do DIÁRIO DO AÇO na tarde desta segunda-feira. Na cadeira de rodas, e com sorriso no rosto, ela relata se maneira serena o acidente e seu tratamento.

Alcenira de Oliveira passava férias em Portugal, onde possui amigos. No fatídico dia 4 de dezembro, o acidente a fez ficar no país por muito mais tempo. Ao relatar o sinistro, ela aponta que a falta do revisor para sinalizar ao maquinista a liberação para arrancar foi o maior erro. “Estava com três malas. Quando ainda estava no degrau do trem uma mochila agarrou entre o degrau e a plataforma. Não tive tempo de nada. Eu estava no degrau para sair. Era questão de segundos. Se tivesse um revisor ele teria me visto”, conta Alcenira.

Quando caiu nos trilhos, a ipatinguense pensou que iria morrer. “O trem cortou as pernas, numa, a canela toda se separou, cheguei a ver meu pé. Na outra, o corte foi mais em cima. Vi tudo, senti muita dor, queimava, o sangue jorrava, gritei muito, mas não desmaiei. Chegou um estágio em que a dor parou e começou a subir um frio do resto que sobrou, aí percebi que estava morrendo, comecei a pedir perdão a Deus, senti que era o fim”, afirma. Foi então que uma mulher apareceu e segurou as mãos de Alcenira dizendo que ela não iria morrer, enquanto esperava o socorro.

Tratamento

Wôlmer Ezequiel


alcenira de Oliveira
Alcenira de Oliveira ficou internada no Hospital Santa Maria e em fevereiro foi encaminhada para um centro de reabilitação. Ela reclama da negligência da empresa. “Com os novos amigos que apareciam no hospital para me ver consegui um advogado para cuidar do processo. Ele notificou a empresa por três vezes, só na terceira apareceu um representante que prometeu que assumiria o tratamento e a reabilitação, até decidir quem era culpado”, disse.

Na segunda etapa do tratamento, a empresa suspendeu a ajuda. “A CP mandou um email afirmando que não se responsabilizaria pelo tratamento. Foi a única vez que desabei. Mas o Consulado me deu um apoio imenso e consegui o benefício pelo INSS”, contou. O apoio dos amigos e do Brasil no momento de dificuldade foram fundamentais para a sua recuperação. “Meu país me honrou muito lá fora. Recebi todo o tratamento”, comentou. A Previdência Social custeou as próteses que custam em média 5 mil euros, a cadeira de rodas, o andador ortopédico, e a muletas.

Superação

Sempre com alto astral, Alcenira de Oliveira fez surf, nadou, e assistiu a shows com apoio da equipe médica quando estava na reabilitação. “Com as pernas acho que não teria coragem de surfar. Achei que nunca mais ia nadar, mas nadei”, brinca. Com as próteses feitas de borracha, Alcenira consegue se movimentar com ajuda das muletas. “Como é bom ficar de pé”, diz enquanto mostra o uso da prótese. Agora Alcenira precisa pagar os medicamentos para dor e antidepressivo que custam R$ 500 em média, além de necessitar de fisioterapia. “Tomo os remédios para evitar a dor fantasma que sinto na perna que não tenho mais”, explica. Apesar de tudo, Alcenira alega que não sente raiva. “Não tenho revolta, tristeza, raiva, nem no início quando sentia dores e estava ligada a uma máquina de morfina. Estou muito bem”, falou.

Processo
Wôlmer Ezequiel


alcenira de Oliveira
Duas ações judiciais tramitam na Justiça de Portugal relativas ao caso de Alcenira de Oliveira. Uma cível, busca a responsabilização da empresa pelo acidente e outra, de natureza criminal, é movida contra o revisor. A estação possui câmera de segurança, porém na época do acidente a CP alegou que os equipamentos estavam desligados para manutenção. “Sumiram com as imagens, como em uma capital como Lisboa as câmeras não vão filmar a estação?”, questionou.

A auxiliar de serviços gerais nega as informações veiculadas na imprensa na época, segundo as quais ela pedia 500 mil euros como indenização. “Essa é uma informação que a seguradora da CP disse a um jornalista, como se minhas pernas tivessem preço. Não existe valor estipulado na ação”, esclarece. A parte boa da projeção da mídia veio logo depois. “Reencontrei a mulher que segurou minha mão na hora do acidente. Ela foi ao hospital, olhei nos olhos dela e nos abraçamos. Foi emocionante. Além disso, várias pessoas que viram o acidente apareceram querendo testemunhar em meu favor”, lembra.

Antes de vir para o Brasil, Alcenira prestou depoimento e a advogada de defesa da CP presente na audiência decidiu abandonar o caso. “Quando dei meu depoimento a promotora ficou comovida e a advogada de defesa da CP chorou e disse que abanaria o caso. Me cumprimentou e desejou boa sorte”, revela.

Planos
Alcenira está na casa da família porque a sua residência, localizada no bairro Veneza II, não permite entrada de cadeira de rodas. “Ontem (domingo) meu genro me levou lá em casa, no colo para eu sentir que voltei de verdade. Foi uma sensação ótima”, pontuou. O carro que possui, Alcenira também não pode mais dirigir. Para recompor sua vida, ela vai entrar com pedido de aposentadoria por invalidez e tentar alugar a sua casa para morar em outro lugar. “Quero ter minha casa, netos, trabalhar, ser feliz. Depois de morrer e viver de novo, quero aproveitar da melhor maneira possível a vida”, salientou.

Depois de terminar a reabilitação, Alcenira teve que ficar mais um mês em Portugal para prestar depoimento ao juiz, antes de voltar ao Brasil. Enquanto isso, ela tratou de fazer um curso de estética. Com muita força de vontade ela estudava todos os dias de 10h às 18h. “Uma amiga levava e outro me buscava. Minha família e as amizades em Portugal e no Brasil foram tudo para mim. Da tragédia veio amigos. Fiquei sem minhas pernas, mas com muita paz no coração, graças a Deus”, frisou.

Alcenira de Oliveira espera que seja feita Justiça. “Preciso ter uma vida decente, preciso ser indenizada. Tinha carro não posso mais dirigir, não posso mais entrar na minha casa, preciso de uma adaptada. Que seja feita Justiça para um ter uma vida decente”, reforçou.

 

 

 

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