30 de dezembro, de 2015 | 16:35
Histórias de superação de quem deixou de morar” nas ruas
Rede de atenção à população em situação de rua garante assistência social
Para quem passou 20 anos da sua vida andando de cidade em cidade, na companhia de um circo e depois em situação de rua, poder ter um endereço e pronunciá-lo quando alguém lhe pergunta onde mora é motivo de orgulho. Dênis Augusto Lessa Firmiano, de 35 anos, passou nove anos viajando com uma trupe, até chegar a Ipatinga e passar outros 11 anos pelas ruas do município, dormindo em um quarto da Associação Projeto Videiras, entidade que presta o serviço de acolhimento institucional noturno, por meio de convênio com a Prefeitura.
Realizei um grande sonho. Conquistei, com muita articulação e perseverança, porque decidi sair das ruas. Aceitei Jesus em minha vida, larguei as drogas, comecei a estudar e as pessoas começaram a confiar em mim. Eu corri atrás do meu sustento, tenho emprego de carteira assinada e consegui meu cantinho”, relata Dênis, que também é militante do Movimento Nacional da População em Situação de Rua.
Mais do que ter um endereço para chamar de meu”, Dênis alcançou o que nem a própria família acreditou que ele pudesse ter um dia. Saí de casa ainda menino, em busca de novas oportunidades e porque não convivia bem com meus irmãos. Fora de casa, sofri preconceito deles por viver na rua, ter sido usuário de drogas e por me prostituir. Depois que meus pais morreram, não tivemos mais contato”, relembra.
Num apartamento alugado no bairro Parque das Águas, em Ipatinga, onde mora com outros dois colegas que também superaram a situação de rua, Dênis Firmiano projeta o seu futuro. Agora quero ter habilitação para dirigir, depois fazer uma faculdade e comprar minha casa própria. Quero me tornar um agente social para fortalecer a luta por dignidade e cidadania de quem está na rua e, principalmente, ajudá-los a superar a vivência de rua”, planeja.
Superação
De acordo com a Constituição Federal, todos devem ser reconhecidos e protegidos por lei, sem discriminação. Em Ipatinga, a Prefeitura segue essa diretriz constitucional dos direitos humanos e, desde 2013, vem estruturando uma rede de atenção à população em situação de rua no município. A Lei 3.206/2013, de autoria do Executivo e sancionada pela prefeita Cecília Ferramenta, institui a política municipal para a população em situação de rua e regulamenta o desenvolvimento e a execução de projetos voltados ao acolhimento dessas pessoas.
No Vale do Aço, o município Ipatinga conseguiu o apoio do governo federal e é pioneiro na implantação do Centro de Referência Especializado da Pessoa em Situação de Rua (Centro POP), cuja sede está localizada no Centro da cidade, e do programa Consultório na Rua. O objetivo é garantir o acesso do público alvo aos serviços e programas socioassistenciais, de saúde, educação, cultura, esporte, lazer, trabalho e renda.
A rede de atenção também é composta pelo serviço de acolhimento institucional Associação Projeto Videiras, que oferta acomodações para pernoite e duas refeições por dia jantar e café da manhã por meio de convênio com a Prefeitura.
Trabalhamos com o resgate da autonomia, da cidadania e até mesmo do vínculo familiar. Ainda que o desejo do usuário do serviço seja permanecer na rua com dignidade, trabalhamos com a vontade do indivíduo, sobre o caminho que ele deseja trilhar”, descreve a assistente social do Centro POP, Lúcia Santos Silva. Não podemos impor uma forma de vida para o sujeito, mas podemos mostrar as direções para encontrar um caminho conforme a demanda trazida por ele”, completa a técnica.
Município estrutura rede de atenção socioassistencial
A equipe multidisciplinar do Centro POP de Ipatinga atende os usuários a partir de um plano de acompanhamento, traçado pelos técnicos, para cada pessoa em situação de rua que acessa o serviço. Paralelamente ao atendimento na sede da unidade, uma equipe de abordagem circula pela cidade prestando atendimento à população que vive na rua, orientando sobre os serviços socioassistenciais ofertados pela Prefeitura.
Mais de 100 pessoas em situação de rua recebem atendimento semanal no Centro POP de Ipatinga. Eles participam de oficinas de artesanato e socioeducativas, recebem acompanhamento especializado, individual e em grupo, e podem solicitar o serviço de guarda pertences e fornecimento de passagens rodoviárias para o atendimento ao migrante.
Já a equipe do Consultório na Rua, também envolvendo profissionais especializados em diversas áreas, oferece os cuidados básicos no próprio espaço da rua e faz encaminhamentos para os serviços das redes municipais de saúde e de assistência social. O programa funciona de segunda a sexta-feira, em horário adequado às necessidade e situações do público-alvo. Atualmente, cerca de 190 pacientes estão vinculados ao serviço e recebem acompanhamento periódico.
Programas resgatam autoestima, saúde e cidadania
Segundo pesquisa da Polícia Militar de Minas Gerais, cerca de 300 pessoas estavam em situação de rua no município de Ipatinga em 2012, ano de publicação do levantamento. Em contrapartida, de lá para cá, o Centro POP registrou até dezembro deste ano 28 casos de pessoas que deixaram de morar” embaixo de pontes e nas vias públicas, depois de acessarem os serviços da rede municipal de atenção sociassistencial implantados desde 2013.
Uma dessas histórias bem sucedidas é do casal Brenda Andrade Caetano, de 20 anos, e Ademilton Gonçalves, de 36 anos, que vão passar o final de ano alegres em poder dizer que já têm endereço próprio. Ela morou” nas ruas por quase quatro anos e ele, durante oito anos. Nesse tempo em comum, eles se conheceram e começaram a namorar.
O acompanhamento dos técnicos da Associação Projeto Videiras, do Consultório na Rua e do Centro POP de Ipatinga deram força para que o casal deixasse as drogas. Em pouco tempo, Brenda passou a trabalhar como manicure, enquanto Ademilton se preparou para voltar ao mercado de trabalho. Juntos, alugaram uma casa no bairro Canaãzinho e iniciaram uma nova vida.
Na manhã de sábado, no último dia 12 de dezembro, no Cartório Civil do Centro da cidade, Brenda e Ademilton disseram sim” ao casamento e à decisão de recomeçar. Antes eu vegetava, e agora posso viver minha vida ao lado da minha esposa”, declara Ademilton, lembrando a cerimônia. Foi o dia mais feliz da minha vida. Estamos começando tudo de novo, como uma família”, descreve Brenda.
Recomeço
Desde que pisou em Ipatinga, Tatiana Batista, de 38 anos, tinha o objetivo de abandonar as drogas. Veio de Betim (MG), onde deixou a mãe, irmãos e dois filhos para recomeçar ao lado do seu companheiro. Lá eu não conseguiria construir uma nova vida. Consegui largar o tráfico, e do vício mesmo, me libertei há pouco tempo”, conta.
Agora, ela trabalha como vendedora autônoma e está há um mês morando debaixo do próprio teto. Estamos construindo um lar, mobiliando a nossa casa com ajuda que recebemos. Não tem explicação a paz que sinto e o sossego que vivo. Ter liberdade para fazer o que eu quiser, a qualquer hora, é muito bom”, reflete Tatiana.
Para o ano de 2016, a vendedora já traça novos planos. Pretende voltar a estudar em fevereiro, numa turma da Educação de Jovens e Adultos (EJA) mantido pela Prefeitura e que funciona na Escola Municipal Márcio Andrade Guerra, no Veneza II. Estudar e a realização de um desejo. Mas meu maior sonho é poder trazer meus filhos para morar comigo. Nunca pude cuidar deles como eles merecem, mas ainda vamos viver como uma família”, afirma.
Acompanhamento
Os técnicos do Centro POP de Ipatinga e do Consultório da Rua acompanham as pessoas que conseguiram superar a situação de rua durante um prazo de até seis meses. Esses usuários têm acesso ao benefício eventual de alimentação para receber uma cesta básica. Nesse período, também, são atendidos pelos técnicos sociais até poderem se estabilizar. Depois desse tempo, o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e a Unidade Básica de Saúde mais próximos de onde moram passam a acompanhá-los”, detalha a assistente social do Centro POP, Lúcia Santos Silva.
SERVIÇO
Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua - Centro POP
Rua Sabará, nº 280 Centro
Atendimento: segunda à sexta-feira, de 7h às 18h
Contato: (31) 3829-8738
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