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24 de maio, de 2015 | 00:00

Casos de estupro assustam no Vale do Aço

Psicanalista avalia transformação cultural e fatores de estímulo à violência sexual


IPATINGA – Do mês de janeiro deste ano até o fim da semana que passou, foram registradas na área do 14º Batalhão da Polícia Militar, com sede em Ipatinga, 24 ocorrências de estupro. Já no 58º BPM, em Fabriciano, foram oito crimes do tipo notificados à polícia, no mesmo período. Na totalidade dos casos de violência sexual, a maioria das vítimas é mulher. Outro dado chama a atenção: dos 32 boletins de ocorrência que relatam crimes de estupro este ano, 13 episódios configuram estupro de vulnerável, isto é, violência sexual praticada contra menores de 14 anos de idade.

O psicólogo, psicanalista, especialista em Saúde Mental e mestre em estudos psicanalíticos, Ricardo Megre, que atua no Vale do Aço, avalia o cenário assustador e aponta os reflexos de uma “crise de ideais” da sociedade contemporânea. Distante de casos meramente patológicos, Megre pontuou questões como “desordem social”, “transformação de valores”, “perversão” e “falta de referência”. 

Episódios de agressão sexual são sabidamente traumáticos para as vítimas, com impactos na personalidade e relacionamentos sexuais da pessoa agredida. Mulheres estão no cerne do problema. O mês de março, por exemplo, foi o período com maior número de casos de estupro nos primeiros cinco meses de 2015 no Vale do Aço: 15 casos.

Ataques frequentes a mulheres, inclusive, tiveram grande repercussão na imprensa local. Nas investigações, três homens foram presos e reconhecidos por algumas das vítimas. Só um deles, foi responsabilizado por quatro casos, dois consumados e dois tentados. Para o psicólogo, entre os possíveis e muitos fatores envolvidos está a ‘sexualização’ da mulher como objeto. “Ainda existe, mesmo que não dito, uma visão patriarcal, machista, que toma a mulher como objeto no mal sentido da palavra”, resume.

Faltam "referências"

Wôlmer Ezequiel


Ricardo Megre
Pornografia; exposição excessiva em redes sociais; a banalização do sexo; letras de música que gritam o sexo explícito – inclusive cantadas por artistas infantis e famosos do funk brasileiro – estão entre tantos elementos que Megre ilustra na transformação cultural que ocorre nas últimas décadas. “Não nascemos humanos, nós nos tornamos humanos na convivência de outros humanos. Dependendo dos ideais que determinada cultura têm, nós vamos formar determinados sujeitos”, diz.

Psicanalista, Megre lembra conceitos do “pai” dessa área de estudo, Sigmund Freud, e diz que “o erótico e o agressivo são partes do humano”. “Temos um corpo com exigências, com pulsões”, diz. Um impasse é quando há estímulo à manifestação desses desejos combinada com a falta de limitações. “Mistura-se algo cultural com algo que trazemos, que é inato”.

Nos anos anteriores houve o endurecimento das penas para crimes de estupro. A repressão mais severa não tem funcionado, avalia Ricardo Megre, devido à crise que também é social. “É o caos. Pode-se tudo, mostra-se tudo. O homem contemporâneo está sem norte. No século XX, se reclamávamos da falta de liberdade, no século XXI temos toda a liberdade e não sabemos o que fazer com ela”, pontua o psicólogo.

O especialista cita ainda a desestrutura familiar, a extinção do papel educador dos pais, “um turbilhão de mudanças na formação de novas gerações”. Essas mudanças, diz, formam “sujeitos com dificuldades de lidar com a lei, de respeitar o outro”. Isso além da falta de referência e “espelho” pessoal diante da “corrupção da relações humanas” e “cultura do consumo”.  “Hoje temos como referência celebridades e não sujeitos moralmente corretos”.

O psicólogo não ignora a culpa individual de cada agressor e à sua responsabilização. Mas as penas severas e a repressão “padronizada”, simplesmente “enjaulando” agressores sexuais não é solução, diz. “Cada caso é um caso”. Ricardo reprovou a imposição aos agressores sexuais de penas como a polêmica castração química, que reduz a libido do indivíduo. Ao falar de violência como um todo, e avaliar um “caminhar para um colapso social”, ele diz que a esperança é que a partir disso surjam mudanças. “O humano reage. Não existe mudança social no mundo que tenha sido feita sem violência. Por curioso que seja”, conclui.

SOBRE O ASSUNTO:

Duas vítimas reconhecem autor de estupro - 24/04/2015

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