06 de julho, de 2017 | 11:10
Do músculo à tecla: Kkkk, hehehe, rsrsrs
Beto Oliveira
Os aparelhos tecnológicos cada vez mais fazem parte da nossa vida cotidiana. Algo que fez o filósofo italiano Giorgio Agamben dizer que vivemos em uma época do triunfo do dispositivo. Inspirado no ensinamento de Foucault, ele nos lembra que a humanidade sempre se valeu de dispositivos para organizar não apenas a vida em sociedade, como a nossa próxima existência.Dispositivo aqui é entendido como tudo o que regula nossa vida afetiva, social, laboral, criativa etc. Há os dispositivos clássicos denunciados por Foucault, como a Prisão, o Exército, o Convento e os Hospitais Psiquiátricos, espaços em que os indivíduos alienam suas singularidades, desejos e comportamentos a um poder totalizante.
Mas estendendo o significado do termo, Agamben nos mostra que a vida humana, dentro ou fora desses espaços, sempre esteve rodeada de dispositivos que a regulam. Mesmo a linguagem, para muitos a principal característica que difere o ser humano de outros animais, pode ser considerada como um dispositivo. Ela regula e organiza nossos desejos, sentimentos, vidas e relações sociais.
Logicamente há dispositivos mais alienantes e outros mais subjetivantes. Ou seja, há dispositivos que tendem a apagar nossa subjetividade e outros que servem de ferramenta para que nossa subjetividade emerja. Para Agamben, os aparelhos tecnológicos são também dispositivos que regulam nossa existência e podem ser tanto alienantes como subjetivantes.
Sem entrar muito em um debate sobre os lados bons e ruins da tecnologia, a constatação que o filósofo italiano nos mostra é que os dispositivos tecnológicos apontam para um triunfo sobre a experiência humana. Isso é, a vida humana tende cada vez mais a ser vivida nos dispositivos com força tão grande quanto no corpo a corpo. Um ótimo exemplo para esse paradoxo é a frase de um outdoor em São Paulo que ironizava: Kkkkkk e não mexeu um músculo da face”.
O dispositivo eletrônico ri para nós. Nossos músculos ficam relaxados, os dedos teclam o dispositivo e Kkkk, hehehe, rsrsrs aparecem. Isso funciona mais ou menos bem. O outro entende a mensagem. Por vezes, supõe mais risada do que houve ou, por vezes, nós mesmos tentamos dar essa impressão.
As cartas talvez já fossem dispositivos onde a risada, o músculo, a taquicardia e o suor ganhassem versões gráficas fora do nosso corpo. A diferença é a presença maçante dos dispositivos eletrônicos a todo o momento do nosso cotidiano somado a padrões mais ou menos previsíveis que os dispositivos tecnológicos oferecem ainda que eles nos ofertem muitos emojis”.
A proposta indicada pelo filósofo italiano não é destruirmos os dispositivos eletrônicos e voltarmos à expressão através de cartas ou máquinas de escrever. Para Agamben, uma alternativa seria o que ele chama de profanação do dispositivo. Se a presença constante do dispositivo tende a aumentar a distância entre o ser e sua expressão, o desafio é fazer do dispositivo meio para aproximar essas instâncias.
Da mesma forma que profanação é o contrário da sacralização, sendo sacralização o processo que afasta um objeto do seu uso cotidiano e a profanação o que aproxima o sagrado do mundano, Agamben defende que façamos uma operação que conecte o kkkkk, mas também os emojis, os memes, os protestos virtuais, ao músculo, ao sentimento, à política, às ruas e às relações.
Como cada um pode fazer isso não sabemos, a filosofia é menos dada a conselhos do que a reflexão. Como diria Freud em relação à felicidade, cada um há, também nessa esfera, que se salvar sozinho.
* Psicólogo. Mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço. Autor do romance O dia em que conheci Sophia” e da peça teatral A família de Arthur”.
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