12 de agosto, de 2017 | 11:30
A falta que os filhos fazem
Luiz Carlos Amorim
Dia dos Pais de novo e a minha filharada está longe, longe, e não é fácil fazer a travessia com frequência. Mas é a vida, a saudade traz as pessoas queridas para mais perto da gente, e os corações dos pais está onde os filhos estão. No próximo ano eu vou lá. e mesmo que não seja dia dos pais, será como se fosse.As filhas se foram, a casa ficou enorme, cheia de saudade. Xuxu, a nossa cadela pinscher que quase completou 20 anos de idade, também se foi, e a casa ficou maior ainda, mas felizmente um barulho de criança permaneceu, por algum tempo, ainda, para preencher um pedacinho do dia, um pouco da nossa vida.
Falo de Gabriel, o sobrinho que agora tem 13 anos e já fica sozinho na casa dele, mas desde pequeno passou a tarde aqui conosco. A mãe dele trabalha o dia todo, então, depois da escola, ele vinha ficar conosco até que a mãe o apanhasse no fim da tarde, à noitinha.
Ele não é filho, mas é como se fosse. É ele que nos fazia companhia, que fazia com que nos sentíssemos pais postiços, uma relembrança do tempo em que nossas meninas eram pequenas, depois jovens, e preenchiam a casa e a nossa vida. É um filho meio que emprestado, que veio num tempo em que precisávamos muito de alguém assim.
O pai de Gabriel não é tão presente, então o cara chato que estava sempre no pé dele era o tio, e quem fazia tudo para ele, era a tia: fazia a comida, ajudava nos deveres, levava para a aula de inglês, de robótica, para a natação...
Mas apesar de chato, antiquado, de cobrar muito e de ficar martelando as coisas no ouvido dele, era este tio também que brincava, que fazia de conta que tinha a idade dele, que pagava mico para fazer companhia a ele como ele fazia companhia a nós, os tios que vão ficando velhos e meio solitários.
Então, neste dia dos pais, quero agradecer muito ao Gabriel por ter estado conosco. Sei que ele não escolheu, mas a vida faz acontecer algumas coisas na hora e no lugar certos. Meu tempo mais feliz, meu e da tia dele, foi aquele depois da chegada das filhas.
Não troco aquele tempo por nada. Mas elas cresceram e, adultas, foram viver a própria vida, como deve ser. E Gabriel veio para nos lembrarmos todos os dias de como foi bom o tempo com nossas crianças, ele trouxe de novo para dentro de nossa casa um pouquinho daquele tempo.
Ele faz aumentar a saudade? Faz sim, mas a saudade é o que mantém nossas filhas cada vez mais juntinho da gente, é a saudade que conserva a nossa filharada cada vez mais vivas dentro de nós, inquilinas vitalícias com espaço cada vez maior nos nossos corações.
Obrigado, Gabriel. Você está crescendo, a juventude está chegando e você também começa a seguir o seu caminho, mas este tempo que encheu a nossa casa e a nossa vida de infância vale tudo. Eu sempre disse que casa sem criança não é lar, mas vou ter que me acostumar com isso. E a casa vai ficando tão maior, tão maior...
* Escritor, editor e revisor Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, cadeira 19 na Academia Sul-Brasileira de Letras. http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br.
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