17 de agosto, de 2017 | 08:11

Do divã de Freud aos protestos em Charlottesville

Beto Oliveira

Divulgação
Há não muito tempo li a biografia de Sidonie Csillag (1900-2000), pseudônimo da paciente de Freud que ficou famosa através do texto “A psicogênese de um caso de homossexualidade feminina”, escrito por ele mesmo em 1920. Ao ler sua biografia percebi que deitar no divã de Freud está longe de ser um dos momentos mais marcantes da vida dessa mulher.

Ainda jovem ela vivenciou duas Guerras Mundiais, estando bem próxima de alguns conflitos; foi homossexual em uma época ainda mais preconceituosa e machista que os dias atuais; atentou três vezes contra a própria vida; foi perseguida pelos nazistas; passou de madame de uma família burguesa a criada de patrões americanos; viu de perto o movimento cubano que iria destituir Fulgencio Batista; chegou a residir no Brasil em pleno vigor da Ditadura Militar. Enfim, atravessou todo o século XX com intensidade e, até o fim da vida, lucidez.

Uma história encantadora que me fez enxergar na personagem uma espécie de heroína aos moldes de Forrest Gump. Mas, por outro lado, algo em sua biografia me provocou alguma inquietação ou descontentamento. Sidonie esteve deitada no divã de Freud sem ter a mínima noção de que estava diante de um homem que transformaria o pensamento ocidental. Judia, esteve também no centro da ascensão de Hitler sem perceber o rumo que a crueldade do Partido Nazista tomava.

Por vezes, chegou a apoiar o antissemitismo acreditando que, sendo convertida ao catolicismo ainda na infância, nada tinha a ver com o povo perseguido. Depois, convertida ou não, teve que fugir de Viena para os EUA, e de lá para Cuba, e viu crescer ali na ilha o movimento que colocaria Fidel Castro no poder. Esteve perto de cada um desses acontecimentos, recebeu indícios de cada um desses fenômenos que impactaram significativamente a sua vida e, mesmo assim, parecia de alguma forma alheia a eles.

No fundo, isso parece dizer menos dela do que de como a história acontece. De fato, Sidonie apresenta certo alheamento às questões do mundo. Não se interessava pelas notícias que chegavam nem procurava participar ativamente da história. Inicialmente esse alheamento parece estar relacionado com sua vida pequena burguesa, onde era mais importante uma mulher decidir sobre seu casamento do que pensar em uma possível Guerra Mundial.

Depois o alheamento parece se dever justamente à perda dessa vida. Tendo afastado de sua condição burguesa e precisando lutar pela sobrevivência e superação de seus próprios conflitos, não parecia ter energia para se ocupar dessas notícias. Mas nem por isso a história deixava de acontecer. Freud se tornava cada vez mais conhecido. Hitler ocupou o poder na Alemanha e isso a obrigou a abandonar sua terra.

Fidel chegava ao poder de Cuba e a ilha sofreria um embargo econômico que só muito recentemente começou a ser desmontado. Muitas coisas ocorreram bem próximas de Sidonie, que lia algo no jornal, ou escutava outra coisa no rádio, mas diante dos acontecimentos, ainda seguia sua rotina até que essa mesma rotina fosse drasticamente alterada pela história.

Infelizmente, o protesto neonazista em Charlottesville remeteu-me à paciente de Freud. E é claro, também à famosa frase do diário de Kafka: “2 de agosto: a Alemanha declarou guerra à Rússia. Natação à tarde”.

Recebemos um dia a notícia de que a extrema direita está em ascensão nos EUA, em outro nos assustamos com uma mensagem racista, assistimos então espantados a eleição de Trump, e por fim, indignamo-nos com o protesto neonazista e seguimos, como provoca Kafka, para nossa natação à tarde. É como se estivéssemos todos no divã de Freud, mas sempre com a impressão de que é apenas uma consulta corriqueira com um médico qualquer de Viena. Mas como saber?

* Psicólogo, mestre em Estudos Psicanalíticos, coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço. Autor do romance “O dia em que conheci Sophia” e da peça teatral “A família de Arthur”.
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