23 de novembro, de 2017 | 16:54
O metamórfico rio da vida: da escuridão do espaço às luzes das passarelas
Beto Oliveira *
Heráclito de Éfeso bem traduziu o que é a vida ao dizer que ninguém pode se banhar em um mesmo rio duas vezes. Nem o banhista será o mesmo, nem as águas que por ali correm serão as que corriam no primeiro banho. Assim como o rio e o homem, para o filósofo grego, tudo o que existe está em mutação. E a própria vida é um rio em transformação e as águas que nos banham já não são as mesmas que nos banharam anos (ou mesmo minutos) atrás.Se é mesmo assim, então como saber quais águas nos banham na contemporaneidade? Como conhecer o contemporâneo em uma época em que as águas parecem correr em uma velocidade ainda maior? Como acompanhar o rio? É preciso acompanhá-lo? Giorgio Agamben nos dá boas contribuições a essas perguntas. O filósofo italiano não parece pensar que é necessário se adequar demais às novas águas, coisa para conformados; tampouco pensa ser produtivo chorar por águas passadas, coisa para nostálgicos. Para se ser, verdadeiramente, contemporâneo, o autor vislumbra um lugar entre a conformação e a nostalgia.
E para facilitar sua exposição ele utiliza duas metáforas. A primeira é o infinito céu que flutua sobre nossas cabeças durante a noite. Se o espaço conta com tantos corpos luminosos, próximos ou distantes de nós, porque então o vemos escuro quando o sol se vai? Uma hipótese da astrofísica é que a escuridão do universo se deve ao fato de que as luzes dos incontáveis corpos luminosos do espaço nunca alcançam nossa galáxia, já que suas galáxias se distanciam da nossa em uma velocidade superior a velocidade da luz. As galáxias se afastam de nós ao mesmo tempo em que suas luzes tendem a nos atingir; porém, o afastamento é mais veloz do que a luz. Ser contemporâneo, para Agamben, é perceber, no escuro de nossa época, as luzes que procura nos atingir, mas que se afastam antes de nos iluminar. Nas palavras do italiano, ser contemporâneo é ser pontual num compromisso ao qual se pode apenas faltar”.
Para ilustrar melhor o que é isso, o autor cita outra metáfora, na verdade, um exemplo: a moda. A moda introduz, no tempo, uma descontinuidade entre o que não mais é” e o que ainda não é”. A moda insere um intervalo entre o não mais” e o ainda não”. No entanto, a moda é inapreensível, não conseguimos alcançá-la, pois ela não está presente nem no desenho do estilista, nem no desfile da manequim, nem na roupa que circula pela cidade. A manequim nunca está na moda, pois a moda só é moda quando as pessoas comuns passam a utilizar as roupas. Antes disso, ela está no ainda não”. Mas o usuário comum também nunca está na moda, pois outras luzes estão na passarela tentando alcançá-lo. Ou seja, se a próxima moda já existe, então não se está mais na moda. Assim, a moda, como as luzes das galáxias, não nos atinge nunca.
A contemporaneidade, portanto, assim como a moda e as luzes das galáxias, está sempre no porvir. E se não podemos enxergar a luz que não nos alcança, podemos enxergar o escuro que elas estão prestes a iluminar. Mas isso não significa que ser contemporâneo é olhar somente o futuro. Agamben nos lembra de que, como a moda, o contemporâneo pode também reatualizar o passado. Pois, se é correto afirmar que o contemporâneo nunca nos alcança, também é correto dizer que o arcaico nunca nos abandona. Ser contemporâneo, portanto, é relacionar o seu tempo a outros, mas inclui acima de tudo saber-se pertencente à sua época, saber que dela não se pode fugir. Tudo isso, claro, sem cair na dupla armadilha que, por vezes, nos seduz: a nostalgia que nos fixa ao que foi e a conformidade que nos cega com as maravilhas da novidade. Eis o desafio para compreender as águas metamórficas do nosso tempo.
* Psicólogo. Mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Coordenador do CEPP (Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço). Autor do romance O dia em que conheci Sophia” e da peça teatral A família de Arthur”.
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