22 de outubro, de 2018 | 15:47

Salve o “Rei”

Fernando Rocha

Divulgação
Era novembro de 1969, quando ganhei do meu pai o melhor presente que um garoto aos 10 anos de idade poderia sonhar: viajar para conhecer a capital mineira, Belo Horizonte. O Sr. Zé Fernandes, meu pai, era Oficial de Justiça em Tarumirim, onde nasci e morávamos, e precisava fazer alguns exames médicos que naquela época só eram possíveis na capital, até porque, pelo tamanho do seu salário, só era mesmo possível através do IPSEMG, o Instituto de Previdência dos Servidores Públicos do estado.

Após uma noite inteira sofrendo dentro de um ônibus pela já famigerada BR-381 chegamos à Rodoviária de Beagá, onde já nos esperava o tio Adenil, gente boa demais da conta, morador do bairro Pirajá, bem distante do centro, o que nos obrigaria a tomar dois ônibus e andar um bom pedaço de chão a pé até chegar à sua casa simples, onde todos nos receberam de braços abertos.

No trajeto, tio Adenil nos deu uma notícia que me deixaria ansioso a ponto de nem conseguir dormir direito naquela noite: - “Amanhã, vou levar vocês para conhecerem o Mineirão, e o Pelé vai jogar pelo Santos contra o Galo”, disse tio Adenil, um atleticano roxo.

A frustração
Almoçamos cedo e saímos em direção ao Mineirão. Com o coração acelerado, segurei firme na mão do meu pai, com medo de atravessar a rua, de me perder no meio de tanta gente, enfim, num ambiente totalmente estranho para um menino acostumado à vida tranquila numa cidadezinha do interior.

Ver Pelé jogar, ainda mais no recém-inaugurado Mineirão, era um sonho quase impossível. Afinal de contas, o “Rei do Futebol” estava no auge, havia feito pouco antes o milésimo gol da carreira, que dedicou “às crianças pobres do Brasil”, fato que gerou uma enorme repercussão pelo fato de chamar a atenção para um problema vivido até hoje pelo país, mas que, na época, por conta da ditadura militar, era coisa proibida de ser debatida pela sociedade.

Pegamos dois ônibus até o centro de Beagá, e isso nos tomou mais umas duas horas, depois foi outra luta para embarcar rumo ao Mineirão, espremido e com gente pendurada nas portas e janelas de outro coletivo lotado.
Houve também muita desorganização e tumulto na hora de entrar no estádio, uma demora impressionante para comprar os ingressos, e quando conseguimos chegar às arquibancadas e avistar o gramado veio a pior notícia, que me causaria uma enorme frustração: Pelé, o “Rei” do futebol, já não estava mais em campo, havia sido expulso por volta dos 20 minutos do 1º tempo pelo árbitro Amílcar Ferreira, após uma dividida de bola mais dura com o goleiro atleticano Careca.

FIM DE PAPO
• Meu mundo caiu ali naquela hora e comecei a chorar nos ombros do meu pai, sendo consolado por tio Adenil, que, a exemplo da maioria dos torcedores do Galo, ficou indignado com a expulsão de Pelé, considerada um “abuso de autoridade” do assoprador de apito. Incrível é que os “súditos” de Pelé passaram a gritar palavras de ordem contra o árbitro, pedindo a sua volta ao gramado, o que acabou não acontecendo.

• Anos depois, em 1974, assisti na casa de minha irmã, em Caratinga, numa TV em preto e branco marca “Colorado RQ”, puro luxo na época, a despedida de Pelé do futebol, em um jogo contra a Ponte Preta, pelo Campeonato Paulista. Depois, já na TV em cores, pude ver o “Rei” com a camisa do Cosmos, de Nova York, fazendo gols de bicicleta e de tudo quanto é jeito, dando passes espetaculares, enfim, um grande e apoteótico fim de carreira.

• Como cronista esportivo, só um 1994 eu pude vê-lo de perto, na cabine da Globo, no Maracanã, durante um amistoso da Seleção Brasileira, antes do embarque para a Copa do Mundo nos Estados Unidos. Confesso-lhes que foi uma emoção indescritível e lágrimas rolaram pelo meu rosto, pois o “Rei” emite luz, uma aura iluminada que contagia quem estiver à sua volta.

• Como ele mesmo diz, o Pelé é um, e o Edson é outra pessoa. Pelé foi o maior jogador de futebol de todos os tempos, o atleta do século XX, enquanto Edson Arantes do Nascimento é um cidadão, uma pessoa diferente, que pode ser criticado por um monte de atitudes que tomou ao longo da vida, de brilho infinitamente menor do que seu personagem. Mas o que nunca poderá existir é falta de respeito, seja com essa mítica figura sem igual, um gênio inigualável na arte de jogar futebol que se chama Pelé, ou com o cidadão chamado Édson.

• Por isso dedico a Pelé essa história humilde contada na coluna de hoje. Ele completa 78 anos de idade neste dia 23 de outubro. Parabéns Pelé! Saúde e paz. Feliz aniversário! “Se Pelé não fosse homem, seria bola”. Armando Nogueira. (Fecha o pano!)
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