18 de abril, de 2020 | 10:00

O planeta das pessoas sem rosto

Marli Gonçalves *

Nas ruas, grande parte das pessoas que vejo – seja de minha janela, ou nas pequenas e essenciais escapadas – não tem mais rosto, mas ainda consigo ver em seus olhos o medo, a insegurança, essa incerteza geral de todos nós do que é que, de forma geral, vai sair disso tudo. As máscaras encobrem os lábios que já não podem beijar, os narizes que temem respirar aquela bolinha cheia de coroas que nos inferniza, presas nas orelhas que escutam os acordes de mortes anunciadas, as falas e atos cheios de ignorâncias, mas apenas um pouco de protestos vindos desse povo cordato e resistente.

Astronautas da Estação Espacial Internacional voltam à Terra em plena pandemia e encontram outro planeta... O planeta das pessoas sem rosto.

A ideia espalhada da produção doméstica das máscaras de pano, de retalhos, feitas artesanalmente, trouxe ao menos alguma alegria visual nesse momento tão sério. Estampadas, de bolinhas, com bichinhos, coloridas, trazem um pouco de cor a esse momento cinza chumbo. Com slogans, as “Fora Bolsonaro!” agora já tem até na versão de apps para que se aplique e use nas imagens digitais.

Ainda a grande maioria – e sinceramente não sei onde as compram - é daquela descartável, branca, impessoal; tem quem use a profissional, que aliás deveriam estar disponíveis abertamente aos profissionais da saúde que reclamam sua falta na luta que travam, assim como luvas, aventais e tudo mais, além de respiradores. Para que se decrete o uso obrigatório de máscaras, que tal fornecê-las? Quando são encontradas à venda é um verdadeiro assalto à mão armada, custavam centavos, vinham em caixas; agora custam, quando aparecem, cada uma, muitos reais. E atentem, dessas, simples, que deveriam ser usadas apenas duas horas. Quem pode pagar? Claro que estão sendo usadas, as mesmas, por dias ... As de pano, agora, pelo menos parecem bem mais democráticas.

Aliás, assaltos à mão armada tornaram-se bem comuns e é como vemos os preços subindo que nem malucos nos mercados, o valor abusivo dos frascos de álcool em gel que juram estar sendo vendidos a preços de custo; nos exames de laboratórios em busca de saber se o vírus está presente, se esteve; nas taxas de entrega dos indispensáveis pedidos a domicílio; nos preços dos remédios que agora fizeram a “gentileza” de informar como congelados. Obrigada, Senhor, mas cadê fiscalização?

O poço das diferenças sociais está aberto e é muito fundo. Dentro dele está o resultado de décadas de descaso com a infraestrutura, com saneamento, com investimentos na saúde e equipamentos. A burocracia chega à tampa, como vemos no desespero das filas em busca da esmolenta ajuda emergencial, e onde a palavra emergencial parece apenas decorativa. Amanhã chega, depois, talvez, no fim do mês, contas digitais para quem, em um país ainda com grande índice de analfabetos, nem ao menos tem ou sabe lidar com esse mundo tecnológico e caro, muito caro.

Computadores, celulares, internet? Se nem água há em muitas das localidades! Utopias que desfilam diante de nossos olhos, que logo serão cobertos por escudos.

Tudo isso só não nos têm livrado de estarmos todos num mesmo barco, e o rádio da embarcação nos informa que estamos à deriva, porque o capitão está alucinado. Jogou ao mar os marinheiros que conduziam o timão, e dá – sem parar - sinais desencontrados à uma população apavorada.

Temos de, acima de tudo, viver para ver qual planeta verdadeiro sairá disso tudo, desse tempo sombrio, e a cada dia, infelizmente, esmorecem as teses de que sairemos melhor como pessoas, como terráqueos que somos esperando que os astronautas tenham nos trazido alternativas lá de onde vieram, desse infinito Universo desconhecido.

* Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom para mulheres. E para homens também. [email protected] / [email protected]
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Comentários

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Tião Aranha

18 de abril, 2020 | 11:19

“Não importa se o mandatário for da Direita ou da Esquerda. Depois da crise do coronavírus, a situação haverá de piorar. Dum crescente desemprego ultrapassando os 12% da população ativa da nação, nosso país estará à mercê dos sinceros debates políticos, das melhorias na Saúde, na Educação, na Cultura, além dos crimes de homicídios, das drogas, dos roubos que devem aumentar, do aumento de marginais, das doenças, e todo tipo de violência que assolará a nação. O mundo se move de maneira mecanicista. A visão mecanicista newtoniana do século XVII, com suas relações de causa e efeito conduziram todos, ao modelo da máquina. Qualquer bom gestor público (de vereador à presidente) tem que se preocupar laboriosamente com a Saúde, com a Educação, e com a Segurança de seu povo. E pra alçar voo tem que rever os paradigmas no que tange aos seus limites de profissionalismo no trabalho que está sendo feito em necessidades mais próximas ao cidadão comum dos recursos básicos que dispõem de uma maneira revigorada e nova na questão da coisa pública para encontrar a solução padrão apropriada. São situações de deficiências, criadas a partir de algo original em experiências já vividas, e que joga nosso país em atraso pra milhões de anos luz. Antes da pandemia atual, nossos problemas já existiam...”

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