18 de abril, de 2020 | 12:00

Verdades inconvenientes na pandemia

Marcelo Campos Neto *

“O que assusta é o brasileiro achar que pode retomar sua vida normal nesse momento, sem que isso traga consequências práticas”

“A verdade inconveniente é que o mundo terá que mudar a partir de agora, diante da ameaça de outros ataques biológicos”

Os estudiosos da comunicação decidiram conceituar como “pós-verdade” o fato de as pessoas nessa segunda década do século XXI procurarem se informar com versões de fatos narrados da forma de lhes convém. Mesmo que essa versão seja a mais deslavada mentira, forjada nos bastidores por grandes corporações, com interesses partidários ou meramente econômicos, levando-se em conta fatores emocionais e crenças pessoais de grupos de pessoas. E nunca esse conceito esteve tão em alta como agora, em plena pandemia de Covid-19. Pós-verdade também pode ser desinformação. E desinformação dá lucro para alguns, prejuízo para outros e para as pessoas, mais cedo ou mais tarde, pode levar à morte. A pós-verdade é uma antítese à máxima que diz: ”uma pessoa bem informada vive melhor e compreende melhor o mundo em que vive”.

E diante da epidemia atual, em que os governos parecem correr de lado para outro feito baratas atordoadas por algum inseticida, as informações distorcidas formam um cenário aterrador. Principalmente quando falsas informações são bombeadas, ou seja, difundidas dia e noite nas mídias sociais abastecidas pelo público-alvo da manipulação de big data. Já ouviu falar sobre essa manipulação? Se ainda não, dê uma espiada atenta no documentário “Privacidade Hackeada” - The Great Hack (título original), de 2019 sobre o escândalo de dados do Facebook – Cambridge Analytica, produzido e dirigido por Jehane Noujaim e Karim Amer. Veja com atenção porque é complexo mesmo.

Então, nesse contexto, não estranhe se aquele amigo for para sua página questionar coisas bastante óbvias nesse momento, do tipo: “Não tem casos de Covid na Rússia?”, “Ahhh, mas não tem casos na África do Sul” ou então: “Mas os hospitais estão vazios” ou ainda “Conhece alguém que tenha sido infectado?”.

Respondendo de trás para a frente, se chegar ao ponto em que todo cidadão conhece alguém infectado, então prepare-se para o pior. Quanto aos outros países, Rússia e África do Sul enfrentam sim, uma situação difícil com a pandemia. A Rússia fechou todas as suas fronteiras, em 28 de abril por causa do avanço de casos positivos naquele país.

Na África, como um todo, as 54 nações do continente têm casos atestados, que ultrapassam 2.500 pessoas. A pandemia avança lentamente no continente. E com agravantes. O problema da pandemia de Covid-19 junta-se a outros já enfrentados pelos países africanos, como a recuperação dos prejuízos sociais causados pelo surto de ebola, a quantidade de jovens vulneráveis pelo HIV – somente na África do Sul existem 2,5 milhões de pessoas não medicadas com antirretrovirais –, e o combate a quadros catastróficos de subnutrição em diversos lugares.

E quanto ao Brasil, muitos se mostram com dificuldade para entender o motivo do pico da curva de Covid-19 já ter mudado tantas vezes. É compreensível que matemática e lógica não sejam coisas fáceis de se entender. Principalmente por quem está acostumado às verdades convenientes, aos fatos que lhes agradem de acordo com suas emoções.

Quando a informação era de que o pico da doença seria em abril, isso lá em meados de março, a maioria sensata assustou-se com a situação e passou a tomar as medidas de prevenção. Com isso, a doença evoluiu, porém não na velocidade necessária para atingir o pico em abril. Essa maioria sensata entendeu a gravidade e manteve as medidas de prevenção e o pico da curva mudou para maio. Nesse momento, com todas as medidas adotadas, menos de circulação de meios de transporte, dos ônibus aos aviões, o Brasil finalmente registra menos infecções do que era esperado. Ufa!

E a cada vez que a curva é adiada, significa que estamos minimamente conseguindo evoluir na prevenção. O que reforça ainda mais a necessidade de se continuar com tudo o que é feito atualmente para empurrar ainda mais o pico pra frente. Para que todo esse esforço? Para dar mais tempo aos hospitais e quem já está acometido se recuperar, para abrir mais vagas nos leitos que já estão ocupados. É fato que além dos pacientes de Covid há pessoas internadas por várias outras complicações de saúde.

Entenda que o objetivo das medidas preventivas, menos aglomeração de pessoas, higienização das mãos, menos deslocamento de pessoas de um lugar para outro tem exatamente essa meta: reduzir a infecção e a procura por leitos hospitalares por aqueles que tiverem complicações com os efeitos do vírus no organismo.

Então, quando virem as previsões anunciando mais para frente o pico da doença, não debochem com essa verdade inconveniente. Em vez disso, agradeça que estamos conseguindo evitar o pior. Agradeça porque seu avô, seu tio, seu pai ou irmão já idoso (ou não) terão mais chance para continuar vivo e a compartilhar a companhia da família.
Agora, com a mudança no Ministério da Saúde, há uma incógnita sobre a política a ser adotada pelo novo ministro. Caso se confirme a ideia do seu chefe, o presidente, haverá um afrouxamento na política de isolamento social, a reabertura plena do comércio e outras deliberações. Qual será o resultado disso? Uma verdade conveniente ou uma lágrima? A verdade inconveniente é que o mundo terá que mudar a partir de agora, diante da ameaça de outros ataques biológicos. Teremos uma humanidade mais vigiada pelo Estado. O que assusta é o brasileiro achar que pode retomar sua vida normal, reabrir o comércio, fazer o seu churrasco de fim de semana e ir para o futebol, sem que isso traga consequências práticas.

Por fim, em um texto que circula nas mídias sociais, há uma frase pronta, daquelas que a pós verdade adora. “Acreditem na Ciência, porque se você não teve saco para ficar em sala de aula, teve muita gente que fez isso por você e está tentando salvar a sua vida”.

* Professor aposentado
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]

Comentários

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

Tião Aranha

18 de abril, 2020 | 14:32

“Coitado do pobre que tem que vender o almoço pra comprar a janta. Depois do coronavírus tudo se transformará em mais uma questão de sobrevivência. Esse vírus veio pra ficar; logo, temos que acostumarmos-nos a viver com ele. Quer queira quer não. Quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, não queremos dizer que o homem é responsável pela sua estrita individualidade, mas que é responsável por todos os outros homens. Que, ao escolher a si próprio ele está escolhendo todos os homens, nem que seja subjetivamente. O homem é antes de mais nada um projeto que se vive subjetivamente. Sua dignidade é maior do que uma pedra sobre uma mesa, uma couve-flor, um creme ou qualquer outra coisa podre e não existe nada anterior a este projeto. Não compete aos nossos atos criar o homem que desejamos ser, somos incapazes sequer de criar o homem que desejamos ser no que tange á sua imagem do homem como desejamos ser. Palavras grandiloquentes como angústia, abandono e desespero sempre acompanharam o homem desde á construção das cidades da Grécia antiga. Todos conhecem a história: um anjo ordenou a Abraão que sacrificasse o filho. Mas, ninguém tem a certeza absoluta que se realmente tratava-se de um anjo.
Com efeito, já que a existência precede a essência, nunca será possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; logo não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Por exemplo, quando surgiu o o vírus da gripe "H1N1", culparam os EUA, agora, culpam a China, mas ninguém tem certeza de nada. Dostoievsky escreveu: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido". Nestas palavras se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, se Deus não existisse, ficaria o homem abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. (Então esse vírus do Corona é coisa do demônio). Não havendo desculpas escapatórias para o mesmo é que dentro desta visão teológica é que o homem é sempre uma possibilidade a mais de inventar coisas do seu imaginário. O fato é que deveria ter investigado sobre esse vírus há quinze anos atrás - quando essa doença surgiu. A humanidade vacilou e passou batida. Foi um erro que comprometeu a vida de todos. Voltemos ao passado, pra entender o presente. Quando Kierkegaard se referia á angústia de Abraão, com certeza ele estava se referindo à angústia do homem. (Somos a imagem de nossa época). Assim, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor-, porque ela envolve toda a humanidade.
Por exemplo, quando um trabalhador prefere aderir a um sindicato cristão e ser comunista, estou vendo até jornalista comunista culpa o mandatário pela existência dessa pandemia, /talvez por ser adesão que ocorre porque querer indicar que a resignação é no fundo a solução que convém ao homem; que, o reino do homem não é na terra, não abrange somente o seu eu: ele pretende ser o representante de todos/. Uma coisa é certa: um erro nunca justifica o outro, e várias cabeças pensam mais que uma. Foi essa a explicação dos ditadores terem caído no abandono.”

Envie seu Comentário