07 de setembro, de 2022 | 19:00
Premiado espetáculo ''Nastácia'' é atração gratuita e inédita em Ipatinga
O premiado espetáculo Nastácia”, montagem contemporânea do clássico O Idiota”, de Fiódor Dostoiévski, é atração neste próximo sábado (10), no teatro do Centro Cultural Usiminas, em Ipatinga, às 20h, com entrada gratuita mediante retirada de ingresso na bilheteria ou pelo Sympla (https://bileto.sympla.com.br/event/76310).Fotos: Guto Muniz
A montagem contemporânea de clássico de Dostoiévski retrata a violência e o abuso contra as mulheres
A montagem contemporânea de clássico de Dostoiévski retrata a violência e o abuso contra as mulheresAclamada pela crítica e pelo público, a peça retrata a violência e o abuso contra a mulher, ao encenar o episódio que constitui uma das páginas mais notáveis da literatura universal: a compra de Nastácia Filíppovna - a mais genuinamente trágica e encantadora de todas as heroínas de Dostoiévski. A montagem retoma a turnê após três anos longe dos palcos, em razão da pandemia e reúne artistas como Chico Pelúcio, Flávia Pyramo, Lenine Martins, Miwa Yanagizawa, Pedro Brício, Ronaldo Fraga e Cao Guimarães.
Montagem
A imagem de Nastácia Filíppovna é a representação da forma mais profunda, complexa e pungente da luta de uma mulher contra a afronta à sua dignidade. Órfã desde a infância, Nastácia foi criada por um oligarca que a transformara em concubina aos 12 anos de idade. Uma mulher forte e de beleza estonteante, se vinga da sociedade patriarcal que acredita que o poder e o dinheiro são absolvição para a prática de abusos, humilhações, violência física e moral contra as mulheres. Nastácia termina morta em uma cama, com uma facada debaixo do seio esquerdo. A atualidade do romance O Idiota”, publicado em 1869 por Fiódor Dostoiévski, deu origem a essa montagem inédita no teatro.
Com direção de Miwa Yanagizawa e dramaturgia de Pedro Brício, o espetáculo une teatro e videoarte para contar a história de uma das mais instigantes personagens femininas da literatura universal. Para Flávia Pyramo, idealizadora do projeto e intérprete de Nastácia, a personagem é um exemplo de mulher que transformou fragilidade em força, que lutou por sua dignidade com muita coragem, mesmo vivendo um turbilhão interno e uma violência terrível. Interpretar Nastácia é conviver com um coração disparado e olhos alagados. Toda vez que sou atravessada pelo pensamento de reencontrá-la, uma alegria extasiante vibra em todo canto do meu corpo, mas junto vem a dor de um estômago apertado, pois sei que contarei essa história olhando nos olhos de muitas protagonistas dessa tragédia real que é a violência contra a mulher”, afirma.
Premiações
Nastácia fez” estreia em agosto de 2019, em Belo Horizonte, e apresentações também no Rio de Janeiro, conquistando o Prêmio Shell (RJ) de Melhor Direção, o Prêmio APTR de Melhor Direção e o Prêmio APTR de Melhor Cenário, além de 34 indicações aos principais prêmios do país. Considerado pelo jornal O Globo um dos melhores espetáculos daquele ano, recebeu três indicações ao Prêmio Shell do Rio de Janeiro colocando a peça na liderança de indicações ao prêmio em 2019 ; seis indicações ao Prêmio APTR; cinco ao Prêmio Cesgranrio; oito ao Prêmio Botequim Cultural; seis ao Prêmio Copasa-Sinparc e seis ao Prêmio Cenym.
Após a temporada no Rio de Janeiro, a circulação do espetáculo precisou ser interrompida em virtude da pandemia. Com patrocínio da Cemig, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, o retorno aos palcos contempla a circulação por quatro cidades mineiras - São João del-Rei, Uberlândia, Ipatinga e Belo Horizonte -, motivo de entusiasmo e comemoração para o elenco.
Voltar para o teatro depois de tudo o que vivemos coletivamente com a pandemia, sofrendo ainda a desvalorização da cultura e a descredibilização dos artistas no Brasil, é uma oportunidade de corroborar a relevância da função artística, além de avolumar o grito contra toda forma de opressão que a peça traz e que o momento exige”, diz Flávia Pyramo. Para Chico Pelúcio, retornar com Nastácia é a sensação de preservar, de resiliência, de termos passado pelo isolamento, sobrevivido à pandemia. É estarmos dizendo para o público que estamos vivos, com esperança e poesia.”
Nastácia” retorna à cena com novas espacialidades. A festa não acontecerá na sala da casa de Nastácia, mas em um teatro armado por ela, no estilo Hamlet (spoiler)”, brinca Flávia Pyramo, que finaliza com um alerta: Mas a pior novidade existe há séculos e foi divulgada pelo Ministério Público de Minas: diagnóstico revela que 90% das vítimas de feminicídio em Minas Gerais entre 2019 e 2021 não possuíam medida protetiva.”
Passado e presente
Concebido entre 1867 e 1869, O Idiota” está longe de ser anacrônico. Segundo o Datafolha, uma em cada quatro mulheres acima de 16 anos afirma ter sofrido algum tipo de violência no Brasil, durante a pandemia da covid-19. Isso significa que cerca de 17 milhões de mulheres (24,4%) sofreram violência física, psicológica ou sexual no último ano.
Para a diretora do espetáculo, Miwa Yanagizawa, a arte é um espaço em que o artista pode, como mediador, reumanizar estatísticas devastadoras como essas. Às vezes, os números são terríveis, eles nos espantam sem tocar. São séculos de opressão e crueldade contra as mulheres e, muitas vezes, acho que não nos vemos responsáveis pela manutenção de tais tragédias humanas. Tomamos distância como se elas pertencessem a outro universo, como coisas que acontecem somente fora de nossas casas. Então, lemos os números e seguimos nossas vidas repetindo gestos que alimentam a irracionalidade e a negligência com os outros, mas, sem perceber, estamos colaborando com o crescente e alarmante número da violência contra a mulher, por exemplo”, analisa.
A história de Nastácia, como tudo em Dostoiévski, é de uma espantosa atualidade”, sublinha Paulo Bezerra. Primeiro, ela é vítima de um grão-senhor e gentleman pedófilo, que se vale do repentino estado de miséria dela e do muito dinheiro que possui e a transforma em concubina aos 12 anos de idade, sem sofrer qualquer censura da sociedade: é o poder do dinheiro falando mais alto. Depois, já adulta, é vítima de um amante paranoico, que, por não conseguir conquistar seu amor, simplesmente a mata. Portanto, duas formas de crime contra a mulher: o crime alicerçado no dinheiro e o crime derivado da impossibilidade de conquistar o coração e a mente da mulher. Ou seja, o crime motivado pelo sentimento de posse, pela tentativa de coisificação da mulher”, argumenta.
Bezerra destaca que hoje, no Brasil, a mulher é vítima de várias formas de violências, uma delas, a mais frequente, deriva do tratamento da mulher como posse, como objeto, como coisa. Assim, a principal característica de um clássico é a de transcender os valores do seu espaço e do seu tempo e ser lido de maneira nova e atual em outras épocas e outras culturas à luz dos valores dos novos tempos. O papel da arte, sobretudo da arte teatral, é o de trazer as questões levantadas pelos clássicos para a atualidade e recriá-las à luz da realidade e da cultura locais, permitindo ao espectador, no caso o brasileiro, associar o destino de Nastácia ao de muitas mulheres brasileiras tão vítimas da violência como ela”, justifica.
Leia os jornais, por favor, porque a conexão visível entre todos os assuntos, gerais e particulares, está ficando cada vez mais forte e mais óbvia”. Flávia Pyramo relata que foi assim que escreveu Dostoiévski sobre o caso (que estampou os jornais da Rússia no séc XIX) da adolescente Olga Umiétskaia que viveu sob tirania e desumanidade familiar, e acabou inspirando a criação de Nastácia Filíppovna. São os conteúdos jornalísticos de hoje, de Minas Gerais, do Brasil, do mundo, que denunciam a trágica realidade em que ainda vivemos”, ressalta a atriz.
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