06 de outubro, de 2022 | 06:00
Artista mineira expõe obras inspiradas em cidades submersas do rio São Francisco
O Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, inaugura nesta quinta-feira (6), às 16h, a exposição Territórios, rupturas e suas memórias” reunindo mais de 20 obras inéditas da artista mineira Jeane Terra. O trabalho é resultado de sua vivência, no final de 2021, nas cidades baianas de Sobradinho, Remanso, Casa Nova, Pilão Arcado e Sento Sé, durante a seca do rio São Francisco. Essas cidades foram inundadas para a construção da barragem Sobradinho e da Usina Luiz Gonzaga, na década de 1970.Como alertou na época a música de Sá e Guarabira [Sobradinho], aquela região do sertão virou mar”, conta a artista. Pelo menos 100 mil pessoas tiveram que deixar sua terra natal e se deslocaram para as novas demarcações urbanas, levando apenas seus pertences e em alguns casos partes das construções de suas casas”.
Querendo dar continuidade ao seu trabalho sobre o Pontal de Atafona, no norte fluminense, que está sendo tragado pelo mar, Jeane Terra buscou as cidades submersas de Sobradinho, que na época de seca ficam visíveis. Assim, igrejas, hospitais, casarios, barcos e uma grande caixa dágua foram exaustivamente registrados pela artista, e originaram pinturas em sua técnica singular, já patenteada, esculturas em vários materiais e videoinstalações.
Cápsulas de memórias
Neste trabalho atual, Jeane Terra aborda a desterritorialização. Ela colheu depoimentos dos habitantes, e desenvolveu obras em vários suportes, para transportar aquele ambiente para o espaço da exposição. Da vivência nas cidades da represa de Sobradinho, a artista criou em seu ateliê, no Rio, vários novos trabalhos, como a série Cápsulas de Memórias”, em que são aplicadas no vidro monotipias criadas a partir de fotografias feitas pela artista com imagens de um sertão que grita e clama por seu não esquecimento”, comenta.
Outra série derivada desta pesquisa são as esculturas em vidro soprado e manualmente acomodadas sobre uma reprodução feita pela artista de escombros retirados das cidades de Remanso e Sento Sé. Algumas delas contêm água do rio São Francisco, cuidadosamente trazida pela artista até o ateliê.
Percorrendo a imensidão daquele sertão lindo e castigado”, Jeane Terra se deparou com uma paisagem deslumbrante e se sentiu fortemente afetada, em especial, pelas casas construídas em pau-a-pique. Imediatamente, se conectou à memória das construções que via no interior de Minas desde a sua infância. A memória afetiva atrelada a essa técnica construtiva antiga, muito utilizada no período colonial, principalmente nas zonas rurais, e a mais utilizada, principalmente por dispensar materiais industrializados e ser de baixo custo, impulsionou o desejo de transformá-la em suporte para seu trabalho.
A artista recolheu, então, galhos e cipós da região visitada na Bahia, e foi buscar em Minas um mestre de pau-a-pique, que trançou várias estruturas para ela. Jeane Terra criou uma mistura de barro, argamassa e cimento, e aplicou sobre a estrutura de pau-a-pique coberta por uma fina tela de metal, criando assim um chassis” para receber uma monotipia de paisagens das cidades geralmente submersas.
Cores do sertão
Em 2017, Jeane Terra desenvolveu uma técnica, hoje patenteada, que chama de pele de tinta” ou pintura seca”, um composto feito de pigmentos de tinta e aglutinante, e desde então essa pesquisa está em constante expansão. A mais conhecida série desses trabalhos é a batizada pelo historiador de arte Paulo Herkenhoff de pixel analógico”.
Quadriculando a tela como uma receita” de bordado em ponto-cruz, técnica aprendida com sua avó, Jeane projeta a imagem de uma fotografia que fez e demarca as cores que vai usar. Em seguida, aplica minúsculos quadrados de 1 cm da pela de tinta”, obtendo um efeito surpreendente. As cores usadas são da paleta do sertão”: tons terrosos, como ocre, adobe, vermelho, areia, barro, e as tonalidades de verde e azul, para a água e o céu.
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