19 de janeiro, de 2023 | 18:00
E-book gratuito traz roteiro original do clássico Cabra marcado para morrer”
Guillermo Giansanti/Divulgação
O diretor Eduardo Coutinho (1933-2014): mestre do documentário nacional
Um dos principais filmes do diretor Eduardo Coutinho (1933-2014), Cabra marcado para morrer” tornou-se um clássico do cinema brasileiro. O público pode acessar, gratuitamente, o roteiro do projeto original do filme feito em 1964 que está disponível, em formato e-book, no site do Instituto Moreira Salles (IMS). Organizada e comentada pelo crítico e pesquisador Carlos Alberto Mattos, a publicação foi digitalizada a partir de uma fotocópia do datiloscrito original que sobreviveu à passagem do tempo entre os guardados de Coutinho.
O diretor Eduardo Coutinho (1933-2014): mestre do documentário nacionalO roteiro original do filme integra o acervo de Coutinho que, desde 2019, está sob a guarda do IMS. São mais de 1.200 itens, entre cadernos com anotações, decupagens de filmes, roteiros de projetos que nunca saíram do papel, objetos, correspondências e fotografias que ajudam a entender como o diretor concebeu e construiu sua obra ao longo de sua carreira.
Junto ao roteiro original, a publicação lançada em versão digital traz imagens históricas das filmagens e de seus protagonistas, além de um breve histórico do projeto. Na parte do roteiro original, junto ao texto datilografado à máquina, o público encontra anotações feitas à mão por Coutinho, com sua letra tão característica e quase indecifrável.
Ideia original
Cabra marcado para morrer” começou a ser rodado por Coutinho em 1964. A ideia original era realizar uma reconstituição ficcional da ação política que levou ao assassinato do líder camponês paraibano João Pedro Teixeira. No filme, os camponeses interpretavam suas próprias vidas, num recurso similar ao utilizado pelo neorrealismo italiano. Tratava-se de um projeto do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), com verba do Ministério da Educação e apoio logístico do Movimento de Cultura Popular de Pernambuco (MCP), criado em 1960, na primeira gestão de Miguel Arraes na prefeitura do Recife.
No entanto, com o golpe civil-militar de 31 de março, as forças militares cercaram a locação no engenho Galileia, em Pernambuco, e paralisaram as filmagens. Dezessete anos depois, em 1981, Coutinho retomou o projeto e procurou Elizabeth Teixeira, viúva de João Pedro, e outros participantes do filme interrompido. O tema central passou a ser a história de cada um deles e suas experiências. Lançado em 1984, o filme se tornou um clássico do documentário brasileiro, unindo as memórias de momentos distintos da história do país.
O e-book disponível no site do IMS apresenta o roteiro do que seria o filme se concluído na década de 1960. Calcula-se que cerca de 40% do texto chegou a ser filmado. O material passou anos guardado na garagem do pai do cineasta David Neves, um general do Exército. Mais tarde, os copiões foram depositados na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro sob o título-disfarce de Rosa do Campo”. Em 1981, foram retomados para as filmagens definitivas de Cabra marcado para morrer”.
A publicação do roteiro original permite analisar as diferenças entre o projeto inicial e o resultado final do filme. Segundo Carlos Alberto Mattos, o acesso ao material possibilita um exame mais detido das intenções esboçadas e do modelo narrativo adotado no filme interrompido pelo golpe civil-militar”. Mattos ressalta, também, a singularidade do filme e sua importância para a história do cinema brasileiro. O maior clássico do documentário brasileiro se organiza como um cotejamento constante entre duas épocas. Se o Cabra/64 era fruto da vontade de um grupo (o CPC) de expressar a vivência popular, o Cabra/84 era o desejo de um homem (Coutinho) de se abrir para essa vivência propriamente dita”, conclui.
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