Contratação de mão de obra qualificada e de bons funcionários tem se tornado um desafio

29/01/2023 às 10:00
Arquivo DA
Após a pandemia de covid-19, a busca por empregos formais diminuiu no mercado

É bastante comum ouvir relatos de pessoas com dificuldades em conseguir um emprego formal, com carteira assinada. No entanto, outro cenário também tem se tornado frequente nesses últimos anos no Vale do Aço: a dificuldade de as empresas conseguirem completar seu quadro de funcionários. Anúncios para as mesmas vagas de emprego precisam ser divulgados repetidas vezes por não serem preenchidas, em um verdadeiro “apagão” de mão de obra.  

Na Convaço, empresa de prestação de serviços em engenharia de montagem e manutenção industrial, a situação não é diferente. O diretor-executivo, Jorge Zacarias, relatou ao Diário do Aço que essa dificuldade em contratar funcionários ficou mais intensa após a pandemia de covid-19, que teve início no país em março de 2020 e que passou a ser controlada com a vacinação. “Após a pandemia, com a retomada do crescimento, no Brasil, assim como na Europa e nos Estados Unidos, está havendo uma grande dificuldade de contratação de mão de obra qualificada”, afirmou.  

Conforme o diretor-executivo, a qualificação foi interrompida durante os dois anos da pandemia e as empresas da região também enfrentam dificuldade para encontrar mão de obra qualificada. “No Vale do Aço, esse cenário não é diferente, ainda mais agora com os investimentos na Cenibra, Aperam e principalmente na Usiminas, que irá reformar seu alto-forno 3, sendo necessário a contratação de 8 mil trabalhadores. Além disso, a cidade de Ipatinga está atraindo novas empresas e negócios, o que eleva ainda mais a demanda por mão de obra”, destacou.
 
Recebimento de currículos
Devido à necessidade de contratar um alto número de trabalhadores para a reforma do alto-forno 3 em Ipatinga, a Usiminas Mecânica decidiu realizar um evento no Parque Ipanema para receber currículos de candidatos interessados na oportunidade. Essa ação estava agendada para ocorrer sábado (28) e domingo (29), mas precisou ser adiada pela previsão de forte chuva para esses dias. Em breve, uma nova data será divulgada pela empresa. Esse tipo de evento em áreas públicas tem sido realizado com mais frequência pelas empresas ultimamente.  
  
Normalização
Para Jorge Zacarias, essa situação de falta de mão de obra qualificada tende a normalizar no segundo semestre de 2023. “No caso da Convaço, focamos sempre a mão de obra local. Para isso, estamos com alguns projetos pioneiros no Vale do Aço que envolvem a qualificação e contratação de jovens; deslocamento de nossa equipe de RH aos bairros da cidade para recrutamento, seleção e contratação; e capacitação de empregados de destaques para cargos de liderança e gestão na empresa”, pontuou.
 
Setor de recrutamento
Thaís Campos, psicóloga e gestora da Incorpore, uma empresa de recrutamento em Ipatinga, relata que houve uma mudança no cenário de contratação de funcionários após a pandemia entre 2020 e 2021. “Trabalhamos com recrutamento desde 2015 e nós observamos que esse ramo mudou de forma drástica depois da pandemia. Só para ter uma ideia, para uma vaga de recepcionista, que não exige muita experiência, antes recebíamos em torno de 500 currículos e conseguíamos encontrar bons perfis. Atualmente, nós recebemos entre 100 e 150 currículos para esse mesmo tipo de vaga, tendo muita dificuldade para conseguir um candidato bacana”, informou.
 
Informalidade
Na avaliação de Thaís Campos, muitas pessoas optaram pela informalidade durante a pandemia, buscando abrir seu próprio negócio e tentando empreender. “Após a pandemia, muitas pessoas não quiseram retornar ao mercado de trabalho. Preferem vender algo e tirar R$ 1 mil ou R$ 1,5 mil por mês, do que sair para trabalhar com carteira assinada, e ter que lidar com custo de transporte e com alimentação na rua, além de precisar deixar os filhos com alguém, por exemplo. Então quem aprendeu a trabalhar de forma remota, com comodidade de estar dentro de casa, muitas vezes não quer voltar a trabalhar de modo presencial. Isso é o que eu observo”, afirmou.

Outros fatores
Além da informalidade, a gestora de empresa de recrutamento apontou outros fatores que contribuem para o cenário atual. “Muitas pessoas também buscaram ir para outros países e outras regiões do Brasil. E as empresas que têm uma equipe boa estão valorizando mais seus funcionários, com aumento de salário e outros benefícios, porque sabem que não está fácil encontrar bons trabalhadores. Portanto, estamos tendo muita dificuldade em recrutar candidatos. Esse deve ser um dos momentos mais difíceis que já enfrentei na área de Recursos Humanos”, ressaltou.  


Montador preferiu trabalhar como motofretista


Em conversa com a reportagem do Diário do Aço, um montador que preferiu não ser identificado explicou o caminho que vários outros trabalhadores preferiram seguir recentemente, se afastando do trabalho com carteira assinada nas empresas. Ele tem uma motocicleta Honda Titan 160 e atua como motofretista durante o dia e às vezes trabalha à noite. “Eu faço o meu horário, se me esforçar muito, tiro o dobro do que receberia em uma empresa na área da usina. Normalmente trabalho duas horas pela manhã e três à tarde, às vezes duas horas à noite. Esse mês consegui em torno de R$ 3 mil livres. Mas tenho amigo que trabalha com carro, fazendo frete e passageiros e consegue muito mais, sem patrão, sem gerente ou chefe de equipe na cabeça. Hoje prefiro mexer com o povo”, explica.


Aumento da demanda por profissionais de nível técnico


Há expectativa de crescimento do emprego industrial neste ano e profissionais de nível técnico estão entre os que vão ter maior aumento na demanda por formação. O Brasil vai precisar capacitar mais de 77 mil técnicos em 2023 para atuar nas oportunidades de base industrial. Assim, as vagas nesse nível de formação vão chegar, ao todo, a 2,2 milhões de postos de trabalho, o que representa cerca de 18,4% do total do emprego industrial no país. A análise foi feita pelo Observatório Nacional da Indústria, banco de dados do Sistema Indústria, com base no Mapa de Trabalho Industrial 2022-2025. 

Em 2023, as áreas com maior abertura de novas vagas e demanda por técnicos são: Logística e transporte, Metalomecânica, Transversais (engloba profissionais que atuam em pesquisas, segurança do trabalho e desenhistas técnicos, por exemplo), Eletroeletrônica, Tecnologia da Informação e Construção. 

O gerente-executivo do Observatório, Márcio Guerra, explica que a projeção do emprego setorial considera o contexto econômico, político e tecnológico. Um dos diferenciais é a projeção da demanda por formação a partir do emprego estimado para os próximos anos. Além da conjuntura, são levadas em conta as estimativas das taxas de difusão das novas tecnologias nas empresas e das mudanças organizacionais nas cadeias produtivas.
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