11 de fevereiro, de 2024 | 11:30

A dengue

Marcia Lage *



“O povo está desesperado. Os mosquitos não respeitam nem a roupa do corpo”

O Aedes aegyipt, ou pernilongo no sudeste, carapanã no norte/nordeste, está tocando o terror no Brasil. Inflacionou em 233% as ocorrências de dengue no mês de janeiro e levou quatro estados (MG em primeiro lugar) a declarar calamidade pública em função do descontrole da doença. É uma epidemia que pode matar ou incapacitar por meses, na variante chikungunya, que ataca as juntas. Na versão zica (Deus nos livre e guarde) leva o paciente à cadeira de rodas.

O povo está desesperado. Os mosquitos não respeitam nem a roupa do corpo. O preço dos repelentes disparou. E agora veio a Anvisa dizer que eles só podem ser usados no máximo três vezes ao dia. Como assim?
É que a indústria dos repelentes, que deve estar criando mosquitos para lucrar cada vez mais, introduziu novos ingredientes aod produtos: Icaridina, IR3535 e Deet. Qual a diferença? O preço e o tamanho da mentira. O primeiro promete 10 horas de proteção, o segundo, quatro, e o terceiro, duas.

Na prática, nenhum deles protege nem vinte minutos. Os mosquitos encontram logo o pedacinho de pele que não absorveu o produto e nhac! Esse negócio de usar roupa de manga comprida e calças tipo leg também não intimida os tais carapanãs. Picam por cima mesmo, com um ferrão que perfura até jeans.



Se seguirmos as orientações da Anvisa vamos morrer intoxicados e pobres. Ela sugere repelentes de tomadas à noite, sprays de longa duração três vezes ao dia e cremes para o rosto. Cada um custa em média 39 reais.
Estamos entre a forca e o fuzilamento. O que evitar primeiro? Rugas, câncer de pele ou dengue? Qual a ordem da melação diária? Primeiro o hidratante, depois o bloqueador solar e por último o repelente? Essa mistureba dá resultado? Ou um anula o outro? Só o mosquito é que sabe.

O corpo suado de calor, os produtos embaçando a vista, escorrendo pelas dobras, sujando a roupa. A indústria do lucro com a doença já sacou a demanda e criou o dois em um (hidratante e repelente ou repelente e bloqueador solar). São mais caros, óbvio. E não cumprem o que prometem.

Só posso dizer que estamos todos com cheiro de barata morta, melados e amedrontados. Só falta a máscara para completar a feiura e o desconforto. E é bom que voltemos a usá-la. A covid também está de volta. E haja braço pra tanta picada. De mosquitos e de vacinas.

A culpa é do El Niño, do aquecimento global e nossa, que deixamos os vasinhos sem areia nos pratos. Esse é o discurso prefeitos incompetentes que não investem em saneamento básico.

Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), 38,6% de todo esgoto produzido no Brasil corre a céu aberto (que nojo!), 18,8% são coletados mas lançados in natura nos rios e córregos dos municípios (que vergonha) e só 42,6% das 9 mil toneladas diárias de carga orgânica produzida pelos brasileiros é coletada e tratada como recomenda a Organização Mundial de Saúde.

Além disso, dos mais de cinco mil municípios brasileiros, apenas 719 possuem plano diretor de drenagem urbana, 370 investiram em parques lineares ao longo dos rios e 150 em reservatório para vazão de cheias e inundações. O resto você já sabe; é rua esburacada, agua empoçada, lixo pra todo lado, um banquete para carapanãs. E nós pagando a conta. Com a bolsa e a vida.

* Jornalista e escritora. Publica crônicas semanais no site 50emais e em sua página no Facebook: Marcia.Lage1
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