Débora Anício
O primeiro contato com o jogo tem intuito de passatempo e/ou ofertas de recompensas rápidas
Por Isabelly Quintão - Repórter Diário do AçoA ludomania é um transtorno que se caracteriza pela obsessão e desejo incontrolável de jogar, fazendo com que não haja controle dos impulsos, mesmo já havendo consequências negativas nos jogos. Em entrevista à reportagem do Diário do Aço, uma timoteense de 30 anos de idade, que não quis se identificar, contou como é ter vício no Fortune Tiger, popularmente conhecido como “jogo do tigrinho”.
Ela afirmou que pensa ter controle, quando, na verdade, não tem. “Eu chamo de entretenimento e dissociação, e minha psicóloga chama de compulsão. Na minha cabeça eu tenho controle, mas está claro que não. E para ‘ajudar’, estou perdendo dinheiro que eu nem tenho. Minto para as pessoas ao meu redor sobre, porque querem me ajudar a parar. Teve um dia que acordei às 7h da manhã e comecei a jogar, e desde então não dormi mais, fiquei até tarde, e tive que trabalhar até meia-noite. Nesse dia, perdi R$ 120”, relatou.
“É muito mais que um jogo, tem toda a adrenalina da aposta, que é ‘ótima’. É um tempo que eu não penso em nada, eu literalmente paro a minha cabeça e foco nisso... Acho que essa é a pior parte, porque tudo que alguém com saúde mental afetada precisa é desligar. Meu cérebro desliga, e é mágico. Eu sou neurada com serviço, dou minha vida, gosto das coisas certas, cumpro regras, sou um exemplo, mas esses dias joguei no serviço, e para mim foi o cúmulo”, acrescentou ao jornal.
A mulher também detalhou a dificuldade de deixar o vício. “Eu já prometi várias vezes que ia parar, que era o último... Mas aí penso: ‘não quero parar’. Eu consigo ver que é ruim, principalmente perder dinheiro, mas eu não quero parar. Porque não quero parar de ter esse tempo, esse momento ‘desligada’. É tipo uma droga. Uma vez, não consegui dormir e fui jogar, joguei por umas duas horas e perdi R$ 10, cheguei a ganhar R$ 300, mas não tirei e joguei até perder tudo”.
A timoteense começou a jogar o “jogo do tigrinho” em meados de março deste ano, e afirma que, até se tornar um vício, o processo foi gradativo. “Já perdi na casa dos mil, também ganhei, mas fico nessa de perder tudo de novo. Eu tinha mais controle, comecei jogando pouco, e à medida que ia ganhando, ia jogando mais. Já cheguei a sacar mil reais, paguei contas, mas depois só fui jogando. Tento fazer contas, colocar limites, mas no final a conta está negativa para mim. Não sei dizer quando se tornou nocivo. Já joguei uns R$ 10 mil fácil desde que comecei, na minha cabeça eu ganhei quase isso também, ou mais, mas devo estar no prejuízo de pelo menos uns R$ 2 mil, que é o que estou no cheque especial”, complementou.
Tratamento A psicóloga clínica Poliana da Silva, que atende em Ipatinga e Ipaba, pontuou ao Diário do Aço que o primeiro contato com o jogo pode ser com objetivo de passatempo e/ou ofertas de recompensas rápidas. “A partir daí, a pessoa começa a jogar para passar o tempo, se distrair, esquece de algo que pode estar a incomodando, desafia a si mesma ou a outra pessoa e por vezes chega a ter algum benefício financeiro, o que estimula a continuar porque no momento do jogo é tudo muito satisfatório, prazeroso”, apontou.
“No momento do jogo, um misto de sentimentos envolve o jogador, indo desde a empolgação, expectativa, e quando se ganha a alegria e euforia podem tomar conta, fazendo a pessoa repetir a ação de jogar buscando o mesmo benefício positivo ou buscando se superar. Os prejuízos para quem tem o vício em jogos de azar podem afetar sua vida como um todo, referindo a si mesmo pode ocasionar problemas emocionais como crises ansiosas, depressão e outros problemas psicológicos, podendo refletir também em suas relações interpessoais”, afirmou Poliana.
Luta contra o vício A terapeuta Poliana da Silva também relata que, para sair do vício, é necessário aceitar que o problema e lutar contra ele. “Precisa se tratar e aceitar ajuda, e buscar profissionais que possam ajudar. Indica-se terapia cognitivo comportamental, com objetivo de identificar e modificar pensamentos e comportamentos que estão envolvidos no impulso para o jogo. O tempo de recuperação depende de cada caso e de como o paciente irá se engajar no processo terapêutico. E o tratamento com psiquiatra vai depender do quadro do paciente. Se ele estiver sofrendo impactos na sua qualidade de vida e consequências, pode sim ser indicado um acompanhamento psiquiátrico para avaliar a necessidade de associar a terapia a algum tratamento medicamentoso”, concluiu.