28 de fevereiro, de 2025 | 07:00

A fé que aliena

Wanderson R. Monteiro *

Vivemos tempos de incerteza, onde é comum vermos muitas pessoas depositando suas esperanças em uma mudança repentina da realidade, como num simples estalar de dedos. Mas é preciso diferenciar a fé genuína da chamada “fé metastática”, aquela que se baseia na ilusão de uma transformação imediata e completa do mundo no qual vivemos. O filósofo político Eric Voegelin já alertava sobre os perigos dessa crença, que substitui a ação concreta pela espera passiva de um milagre social, provenientes de ideologias modernas que substituem a ordem transcendente por promessas de salvação terrena. Em vez disso, precisamos de uma fé enraizada na realidade, que nos impulsione a agir e não apenas a esperar.

Acreditar na transformação total de nossa sociedade como um ato mágico, seja por meio de ideologias ou pela tecnologia, é um erro recorrente. A história nos mostra que toda mudança verdadeira se dá através de um processo, e não em um instante. O desejo de ver um "paraíso na Terra" frequentemente se converte em frustração e desordem, pois ignora toda a complexidade dos problemas humanos.

Muitos líderes políticos e religiosos alimentam essa expectativa irreal, prometendo soluções rápidas para questões estruturais e extremamente complexas. Mas a fé que realmente nos fortalece não é aquela que aguarda o impossível, e sim a que nos ensina a resistir em meio às dificuldades. A fé que nos sustenta não é aquela que nos tira da tempestade, mas a que nos faz atravessá-la.
“Acreditar na transformação total de nossa sociedade como um ato mágico, seja por meio de ideologias ou pela tecnologia, é um erro recorrente”


Uma sociedade que se apoia em promessas vazias corre o risco de perpetuar seus próprios problemas. A verdadeira esperança não reside na espera passiva, mas na ação consciente e determinada. O mundo não muda porque desejamos que mude, mas porque construímos essa mudança com esforço e responsabilidade, e isso não ocorre instantaneamente.

Ao invés de depositarmos nossa fé em salvadores terrenos ou sistemas infalíveis, devemos cultivá-la como um instrumento de discernimento e força. Fé não é uma fuga da realidade, mas um compromisso com ela. Quem entende isso se torna agente de transformação, e não apenas um espectador de ilusões vazias e impossíveis.

* Autor dos livros “Cosmovisão em Crise: A Importância do Conhecimento Teológico e Filosófico Para o Líder Cristão na Pós-Modernidade”, “Crônicas de Uma Sociedade em Crise”, “Atormentai os Meus Filhos”, e da série “Meditações de Um Lavrador”, composta por 7 livros.
(São Sebastião do Anta – MG)

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