01 de março, de 2025 | 08:30
Política Ipatinguense
Marco Túlio Dias *
O prefeito prometeu que ia fazer o muro e não fez”. Essa emblemática frase marcou este escrevente neste início de ano na cidade de Ipatinga, quando a localidade se deparou devastada pela chuva da madrugada de 12 de janeiro. Desolado, sentado numa cadeira e com apoio de populares e familiares, o protagonista da fala observava e acompanhava o trabalho dos bombeiros, em busca de suas joias, alguns de seus familiares, mortos no deslizamento de terra na rua Turim. O Sr. Milton perdeu mãe, irmãs, sobrinha e cunhada na tragédia anunciada da rua Turim.Emancipada numa perspectiva de ser município modelo da ditadura militar, a cidade de Ipatinga nasce num contexto histórico de controle e higienismo social fomentado pela indústria siderúrgica que neste território se consolidou e efetivou suas atividades, arquitetando os bairros conforme as classes de seus funcionários, como executivos, engenheiros, operários. Logo, a cidade cresce desordenadamente num panorama de atração de olhares de trabalhadores de várias localidades que enxergavam em Ipatinga, um verdadeiro eldorado, uma fonte de prosperidade e melhora de vida, como bem explica a historiadora Dani Adestino em seu trabalho de conclusão de curso na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).
A situação política atual de Ipatinga reflete a continuidade de um projeto iniciado com a formação do município: uma cidade conservadora que valoriza os bons costumes, mas nega direitos aos mais vulneráveis, como pessoas negras, LGBTQIAPN+ (principalmente trans) e os pobres, especialmente os que vivem em áreas de risco, como a família do Sr. Milton, cuja emblemática frase inicia estas escritas. Assim, é importante destacar que todos os prejuízos causados pelo despreparo do município de Ipatinga diante das chuvas, não estão desvinculados da história da cidade; tudo está interconectado, afinal, a mesma chuva que atingiu o residencial Village Nobre também arrastou casas, famílias e sonhos no bairro Bethânia e em outros pontos da cidade, expondo a desigualdade que persiste em todo este território.
Nas redes sociais, o chefe do Executivo local aparecia em poses heroicas, vestindo coletes da defesa civil e pulando de caminhões, enquanto a população sofria com a falta de infraestrutura básica. Em coletiva de imprensa, ao lado do governador, ele afirmava que sua administração era recordista em obras de prevenção, no entanto, esse "recorde" ilusório não conseguiu evitar a morte de nove pessoas, incluindo duas crianças.
Como bem cantava Bezerra da Silva: Jantou no meu barracão e lá usou / Lata de goiabada como prato / Eu logo percebi é mais um candidato / Para a próxima eleição”. No legislativo, a situação não é diferente. A Câmara Municipal, composta majoritariamente por figuras que se alinham a discursos conservadores e excludentes, parece distante das reais necessidades da população.
A falta de representatividade e a ausência de políticas inclusivas perpetuam desigualdades históricas”
Vereadores que se elegeram com propostas superficiais e desumanas, como a internação involuntária de pessoas em situação de rua, demonstram uma falta de compreensão dos problemas sociais mais profundos. Outros, ligados a movimentos religiosos, usam a tribuna para defender pautas que negam direitos básicos, como a autonomia das mulheres sobre seus corpos. Há ainda aqueles que, em vez de trabalhar pelo bem comum, estão envolvidos em escândalos de improbidade administrativa, desviando recursos que poderiam ser usados para melhorar a vida da população, e tem até mesmo parlamentar que se tornou conhecido por ter colocado seus largos e brancos quadris na antiga fonte dágua que decorava o shopping da cidade. Uma lástima. Diante disso, essa nova, mas já envelhecida política de Ipatinga, reflete um projeto de cidade que prioriza os interesses de poucos em detrimento da maioria.
A falta de representatividade e a ausência de políticas inclusivas perpetuam desigualdades históricas, impugnando continuamente os direitos básicos daquelas pessoas que se encontram à margem da sociedade. Em conclusão, destaco que estas escritas têm o objetivo de provocar uma reflexão histórica, oferecendo um posicionamento documental sobre o que ocorre no presente. Traçar esses paralelos e olhar para o futuro da cidade nos leva a um cenário lamentável, mas também nos impulsiona à luta e à organização por um território onde as pessoas vivam com dignidade e sejam respeitadas em suas particularidades. Esse é o projeto que reflete os desejos de uma parcela da população que votou na única mulher presente entre os senhores brancos que compõem a Câmara Municipal de Ipatinga.
Enquanto escrevia este texto, não pude deixar de pensar várias vezes em Sófia Vitória, de apenas 7 aninhos, e Hiago Vitor, de 8 anos, que foram vítimas dos deslizamentos. Eles tinham a vida inteira pela frente. Poderiam ser cientistas, professores da UFMG, universidade pela qual às vezes transito, astronautas, médicos o que quisessem ser. O futuro estava aberto para eles. Minhas mais profundas condolências, em nome do Coletivo Negro, a toda a família e amigos.
Sobre os atores políticos citados, encerro estas reflexões parafraseando duas figuras essenciais para a nossa cultura, Adoniran Barbosa e Clara Nunes, porque, "pra mim, não há problema, em qualquer canto me arrumo, de qualquer jeito me ajeito. Depois, o que tenho é tão pouco, minha mudança é tão pequena que cabe no bolso de trás, mas essa gente aí, hein? Como é que faz? Porque não adianta estar no mais alto degrau da fama, se a moral deles tá toda enterrada na lama".
* Advogado, artista, cofundador do Coletivo Negro Vale do Aço e intelectual do Movimento Negro. Seus trabalhos podem ser acompanhados pelo instagram _negromar e @coletivonegrovda
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Analu
01 de março, 2025 | 09:40Excelente!”
Verdades
01 de março, 2025 | 08:55Até qyando ele fala da falta de investimento do poder público em ipatinga eu estava concordando...mas quando começou a se vitimizar ...aí complicou ...”