29 de novembro, de 2025 | 08:20

No Dia da Onça, Perd confirma 12 felinos vivendo no maior refúgio da Mata Atlântica em Minas

Evandro Rodney ? IEF
Presente no Vale do Aço, a onça-pintada, Panthera onca, é o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, atrás apenas do tigre e do leãoPresente no Vale do Aço, a onça-pintada, Panthera onca, é o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, atrás apenas do tigre e do leão

Por Matheus Valadares - Repórter Diário do Aço

Dentro dos 36 mil hectares de floresta do Parque Estadual do Rio Doce (Perd), no Vale do Aço, a onça-pintada, maior felino das Américas, mostra que a região não perdeu completamente o pulso da natureza. Em meio às grandes árvores, em trilhas que o visitante comum não costuma acessar, câmeras escondidas entre raízes, troncos e clareiras registram um dos últimos refúgios da espécie na Mata Atlântica, que tem seu Dia Internacional celebrado neste sábado (29).

Por meio de nota, a gestão do parque reforça a relevância ecológica da região para a conservação de grandes predadores. “Sem dúvidas, o Vale da Mata Atlântica - hoje Vale do Aço - tem vocação para a conservação da biodiversidade e destaca o papel das onças-pintadas como símbolo da integridade ambiental do Perd”.

Segundo informações repassadas pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) à reportagem do Diário do Aço, a atualização mais recente, referente a 2024, revelou que há 12 onças-pintadas adultas, sendo 7 fêmeas e 5 machos, deslocando-se pela imensidão verde do Perd.

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Os dados foram revelados pelo Projeto Carnívoros do Rio Doce, que desde meados de 2012 acompanha silenciosa e continuamente a vida destes felinos e outros mamíferos de médio porte, não só na unidade de conservação, como em seu entorno.

“Aqui se encontra a última grande população de onças-pintadas de Mata Atlântica de Minas Gerais. Um dos primeiros objetivos do projeto era saber se existia uma base de presas para onça-pintada que pudesse manter os animais dentro do parque. E a partir daí nós começamos a utilizar essas câmeras para fazer o acompanhamento do tamanho da população de onças e demais presas. Em 2016 e 17 existiam só três onças aqui na área do parque. Em 2020 já subiram para nove. Atualmente nós estamos entre 11 e 12, contando com os filhotes”, detalhou Fernando Azevedo, professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
Reprodução
Flagrante de uma onça-pintada adulta e dois filhotes pela mata do Parque Estadual do Rio DoceFlagrante de uma onça-pintada adulta e dois filhotes pela mata do Parque Estadual do Rio Doce


O trabalho registra a presença desses animais por meio de câmeras fotográficas e de vídeo, além da coleta de vestígios, dentre eles pegadas, fezes e carcaças, e de relatos técnicos provenientes da equipe de campo e de propriedades vizinhas.

“Com esse equipamento a gente consegue monitorar esses altos e baixos que vão surgindo com o tempo na população das onças. Uma área que tem onça-pintada é uma área que tem todos os animais dos quais ela necessita para sobreviver”, complementa o professor.

A iniciativa é conduzida pelo Instituto Prístino, em parceria com a UFSJ e com apoio da plataforma Semente e do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente do Ministério Público de Minas Gerais (Caoma/MPMG). O trabalho conta ainda com suporte logístico do IEF. É uma rede de esforços que tenta, na prática, manter vivo o que resta da Mata Atlântica profunda.

“O projeto teve início quando havia necessidade de se descobrir porque as onças de dentro do parque estavam saindo do parque para predar animais domésticos no entorno. O Parque Estadual do Rio Doce tem uma importância muito grande, por ser a maior porção de Mata Atlântica que nós temos em Minas Gerais ainda protegida. E não só por isso, pelo fato de ter 42 lagoas aqui dentro, tem um diferencial muito grande, isso atrai uma grande quantidade de fauna de fora. E também pelo fato de aqui nós encontramos vários animais que são extremamente importantes para a Mata Atlântica”, explica Fernando Azevedo.

Elas não estão sozinhas na mata

O levantamento também identificou 15 onças-pardas, registradas em monitoramento anterior (2016/2017). O Perd também é um refúgio para antas, tatus-canastras, catetos, jaguatiricas, veados, muriquis e capivaras.

“A presença de grandes predadores, especialmente felinos, na Mata Atlântica é um importante indicador da qualidade da conservação da biodiversidade. Apesar da fragmentação do habitat e do consequente ilhamento da espécie na região, sua presença e reprodução evidenciam que há caminhos para a sua conservação e permanência no Parque Estadual do Rio Doce”, afirma o IEF, por meio de nota.



O maior felino das Américas

A onça-pintada, Panthera onca, é o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, atrás apenas do tigre e do leão. Caçadora poderosa, musculosa, de mordida forte o suficiente para perfurar carapaças, sua dieta inclui capivaras, queixadas, catetos, veados, tatus, preguiças, jacarés e até rãs podem compor seu cardápio. Mas quando o ambiente é destruído e as presas naturais se tornam raras, a onça desce para o mundo humano, e preda cavalos, bezerros e criações domésticas.

“Em termos mais práticos, o projeto consegue acompanhar o tamanho da população de onças e todas as vezes que essa população cresce muito, nós alertamos as autoridades locais para possível aumento de casos de predação de gado. É um trabalho de duas mãos. A gente está o tempo inteiro divulgando as informações do projeto para que a comunidade também possa se preparar para eventuais casos de predação”, finaliza o professor.

Reprodução
Fernando Azevedo, professor da Universidade Federal de São João del-Rei, destaca importância do animal para a Mata AtlânticaFernando Azevedo, professor da Universidade Federal de São João del-Rei, destaca importância do animal para a Mata Atlântica

Como predadora de topo, a onça exige um ambiente inteiro, não fragmentado, para existir. Sua presença regula populações, impede desequilíbrios, estimula mecanismos naturais de renovação. É assim no Pantanal, onde a espécie encontra algumas das populações mais estáveis do planeta. Na Amazônia, a situação também é favorável. No Cerrado, a densidade diminui, mas ainda há fôlego. Já na Caatinga e na Mata Atlântica, o cenário é crítico. As populações são tão pequenas que, em alguns trechos, a extinção local já é considerada inevitável. Na classificação global da IUCN, a onça é tida como Quase Ameaçada. No Brasil, segundo o ICMBio, é vulnerável.

Características
A onça-pintada pertence ao gênero Panthera, o mesmo dos leões, tigres e leopardos. Sua pelagem dourada, marcada por rosetas com pintas internas, permite uma camuflagem perfeita entre sombras e folhagens. Nenhum padrão é igual ao outro. Cada onça carrega no próprio corpo uma “impressão digital”.

O tamanho varia conforme o bioma. No Pantanal, há registros de machos com mais de 148 kg. Na Mata Atlântica, onde a mata é fechada e o alimento mais escasso, são menores, mais esguias, adaptadas a caminhar entre raízes e espinhos.

Do focinho à cauda, podem chegar a 2,5 metros, com cerca de 85 cm de altura na cernelha. Como os outros felinos de seu gênero, têm o osso hióide parcialmente ossificado, o que permite emitir sons graves. O “rugido” da onça-pintada tem nome próprio: esturro, e ecoa como um aviso na mata, marcando território.
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