14 de janeiro, de 2026 | 07:00
Ouro, petróleo e poder
Mauro Falcão *
Você já se perguntou por que o dólar exerce tamanho domínio sobre a economia global? Ou por que um país que possui a maior reserva de petróleo do mundo, como a Venezuela, em vez de prosperar, parece sempre em crise? Para compreender a economia contemporânea e até conflitos recentes, como a invasão americana na Venezuela é preciso voltar no tempo e observar três engrenagens fundamentais: ouro, petróleo e poder.Durante décadas, o dinheiro tinha lastro. Cada nota emitida correspondia, ao menos em teoria, a uma quantidade de ouro guardada em cofres estatais. Esse sistema, conhecido como Padrão Ouro, impunha limites claros à emissão de moeda. Governos não podiam simplesmente imprimir dinheiro sem respaldo físico. Contudo, em 1971, os Estados Unidos romperam essa lógica. O dólar deixou de ser conversível em ouro e passou a existir sustentado apenas pela confiança.
Essa mudança criou um problema estratégico: como manter a centralidade global do dólar sem lastro metálico? A resposta veio poucos anos depois, em uma jogada silenciosa e extremamente eficaz: o Petrodólar. Os Estados Unidos firmaram acordos bélicos de proteção com grandes produtores de petróleo para que a principal fonte de energia do planeta fosse negociada majoritariamente em dólares. A consequência foi direta e profunda.
Os países, para manterem suas economias aquecidas, passaram a precisar primeiro comprar dólares. Criou-se, assim, uma demanda permanente e global pela moeda americana.
Por Que o Mundo Girou e
a Venezuela Parou?
É nesse ponto que ocorre uma transformação essencial. Após o fim do padrão ouro e a consolidação do petrodólar, o dólar deixou de ser apenas uma moeda fiduciária e passou a operar, na prática, como uma commodity estratégica global, cuja demanda é sustentada por energia, poder e geopolítica. No funcionamento do sistema internacional, passou a se comportar como um insumo indispensável tão estratégico quanto o próprio petróleo.
É nesse tabuleiro que entra a Venezuela. O país não é apenas uma nação em crise política e social; ele abriga a maior reserva de petróleo do planeta. Quando um governo como o de Nicolás Maduro tenta vender petróleo fora do circuito do dólar utilizando outras moedas ou instrumentos alternativos não está apenas tomando uma decisão econômica interna. Está desafiando um dos pilares centrais da ordem financeira global.
A recente invasão americana, apresentada sob o discurso de ajuda humanitária e defesa da democracia, carrega uma dimensão econômica inescapável. O controle sobre o destino do petróleo venezuelano garante dois objetivos estratégicos: segurança energética e proteção do sistema que sustenta o dólar há mais de meio século.
No fim, a economia global não se resume a gráficos ou teorias abstratas. Ela é feita de energia, armas, recursos e poder. Quando entendemos que o dinheiro no nosso bolso está conectado ao petróleo que sai do solo de outros países, fica claro que a política externa é, muitas vezes, a luta pela preservação de um padrão de vida. E, até hoje, a estabilidade do dólar ainda depende de quem controla as torneiras de óleo do planeta.
*Mauro Falcão, pesquisador e escritor brasileiro - [email protected] - WhatsApp: (55) 51 99548-3374
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]














