20 de janeiro, de 2026 | 06:00

De recordações pungentes e uma história...

Nena de Castro *

Diaa. Nessa semana, eu, fazendo almoço, fui surpreendida por Celine Dion cantando “Hino ao Amor” da Edite Piaf. Paralisada de emoção, fui transportada para uma boate que funcionava na rua Belo Horizonte, ali no centro da cidade, salvo engano onde hoje é um cartório. Um conjunto de fora fazia a parte musical e a certo momento, a moça cantou essa música. O mundo parou. Havia outros pares na pequena pista, mas eu só enxergava o homem que dançava comigo; recém-casados, nossos olhares falavam de amor. Jamais esqueci aquela noite; a música trouxe a linda recordação de volta e eu desabei na cadeira em meio à doces lembranças. É, realmente não se esquece uma vida de 51 anos juntos, interrompida por sua partida. Ces’t la vie, digo sempre, mas é bem difícil continuar a jornada... Mudando de assunto, vendo tantos desamor, palavras de baixo calão invasões e “otras cositas mas” nessas brigas políticas pelo mundo, me veio á cabeça a História recolhida por Câmara Cascudo, no Rio Grande do Norte intitulada “Por que o Cachorro é inimigo do Gato... e o Gato do Rato”.

Antigamente, todos os bichos eram amigos e o leão governava a todos. Cachorro, gato, rato, ovelha, onça, raposa, timbu, pinto, tudo vivia junto e sem briga. Uma feita, Nosso Senhor mandou o leão libertar os bichos, passando carta de alforria a todos. Havia muita “contenteza” e o leão chamou os bichos mais ligeiros e entregou as cartas de liberdade para que levassem aos outros animais. Chamou o gato e deu a ele a carta de alforria do cachorro. O gato saiu numa carreira danada e no caminho encontrou o rato que estava entretido bebendo mel de abelhas.

- Dom Gato! Para onde vai nesse desadoro?
– Vou entregar essa carta a dom Cachorro!
– Ora, deixe de vexame! Descanse e beba esse melzinho gostoso. O gato foi lamber o mel e tanto lambeu e gostou, que, enfarado, dormiu. O rato, de curioso, foi cascavalhar a bruaca que o gato trazia a tiracolo e encontrou uns papéis. Meteu o dente roendo, roendo, roendo e deixou tudo um bagaço. Vendo que fizera uma desgraça, fez um bolo do papel, colocou dentro da bruaca e ganhou a mata.

O Gato, acordando, largou numa carreira até encontrar o cachorro, a quem entregou o papel. Este, ao tentar ler, viu que tudo estava esbagaçado e roído. Não podia provar ao homem que era bicho-livre e ficou zangado de ferro e fogo com o gato, dando uma carreira atrás dele para matá-lo. O gato, por sua vez, sabendo que aquilo era trabalho do rato, não procurou coisa senão passar-lhe o dente para vingar-se. E até hoje, cachorro, gato e rato são inimigos até debaixo d’água. Sei lá, essa história me lembrou os políticos do país: distribuem mel entre si, saem no braço, xingam-se e enquanto isso o povo geme. E o Pinto Calçudo faz planos para invadir “Oropa, França e Bahia”, como diziam os antigos, numa sandice total! Opa, para o mundo que eu quero descer!

*Escritora e Encantadora de Histórias.

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