23 de janeiro, de 2026 | 08:00

''Cai-pi-ri-nha'' - O silêncio entre a palavra e o sentido

Abner Benevenuto Araújo Paixão *


A chegada de uma pessoa ao bar costuma parecer um pequeno rito cotidiano. Ela se acomoda, respira, observa as luzes refletidas nos copos, percebe o ambiente vivo, a música que se mistura às conversas e aquela sensação de pausa que só um bar consegue oferecer. É um espaço em que as pessoas esperam encontrar leveza, descanso, ou pelo menos um fragmento de pausa entre as exigências do dia.

Antes de entrar por completo nesse território de calma, porém, ela encara o brilho do celular. Um bombardeio de mensagens, vídeos, luzes piscantes, estímulos que desaparecem tão rápido quanto surgem. A leitura ali se resume a passar o dedo pela tela. Nada finca raiz. Nada exige reflexão. Clarice Lispector escreveu que “há um silêncio que me lê”, mas hoje esse silêncio foi soterrado pelo barulho permanente da pressa.

Quando finalmente levanta os olhos para o cardápio, o que deveria ser simples se torna um problema. A palavra caipirinha está escrita com clareza. A descrição é objetiva. Nada ali exige conhecimento técnico ou vocabulário especializado. Mesmo assim, a compreensão não acontece. Ela lê, mas não entende. Encara o texto, mas o texto não se transforma em sentido. Faz perguntas básicas sobre algo que está explicitamente diante dela. É o retrato de uma desconexão crescente entre palavra e entendimento.

O bartender, do outro lado do balcão, percebe essa cena todos os dias. Respira fundo e explica o que já está escrito. Não por falta de paciência, mas porque interpretar um cardápio se tornou, de forma inesperada, parte do trabalho. Érico Veríssimo dizia que a vida exige uma alma capaz de compreender o que os olhos veem. E, no bar, essa compreensão parece cada vez mais distante.

Essa dificuldade não é um episódio isolado. É um reflexo da cultura brasileira, marcada por décadas de distância entre o cidadão e o hábito da leitura. A sociedade brasileira se acostumou a sobreviver sem interpretação. É uma cultura que consome informação sem absorver, que lê sem compreender, que opina sem conhecer. Uma cultura que prefere a sensação imediata à reflexão. Essa superficialidade, repetida diariamente, mina a capacidade coletiva de compreender até o mais básico.

“Clarice Lispector escreveu que ‘há um silêncio que me lê’, mas hoje esse silêncio foi soterrado pelo barulho permanente da pressa”


O cardápio torna visível um problema que permanece invisível no restante da vida pública. A pessoa que não interpreta uma frase simples é a mesma que não interpreta um contrato, uma notícia, uma regra, uma consequência. O país se acostumou a passar pelos textos sem permitir que eles o transformem. E essa preguiça intelectual se reflete diretamente na forma como se vive, decide e reage.

Trata-se de um problema cultural profundo. A leitura não desapareceu por falta de acesso, mas por falta de vínculo. Nossa cultura foi se afastando da palavra como espaço de pensamento. Preferimos atalhos, resumos, opiniões prontas, vídeos de quinze segundos que dispensam qualquer camada de profundidade. O país não desaprendeu a ler. Ele desaprendeu a querer compreender.

No bar, isso aparece com brutal simplicidade. Uma palavra familiar se torna indecifrável. A compreensão se afoga no excesso de estímulos. A leitura se reduz a um gesto mecânico. A palavra não consegue atravessar a pessoa. É uma crise silenciosa, porém devastadora, porque destrói a capacidade de pensar antes de agir.

A cena que começa com luzes e música termina revelando algo mais duro. O Brasil vive cercado de palavras, mas vazio de sentido. E enquanto o bartender tenta costurar o entendimento de um cardápio, ele testemunha uma verdade desconfortável sobre o país: a cultura brasileira perdeu o hábito de interpretar o mundo que a cerca.

Essa não é apenas uma falha educacional. É uma falha cultural. E uma cultura que não interpreta, não evolui. Apenas repete.
O bar é apenas o palco onde isso se torna visível. O problema pertence a todos nós. Até que a leitura volte a ser encontro e não obstáculo, continuaremos sendo uma sociedade que lê frases, mas não lê a si mesma.

* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos.

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