USIMINAS 7 BILHOES 728X90

24 de janeiro, de 2026 | 07:00

Solo encharcado faz aumentar alerta de risco em áreas de encostas

Matheus Valadares
Chuva de 12/1/2025 causou diversos estragos na rua Valência, no bairro Bethânia em Ipatinga, como deslizamento de terra e desabamento de casasChuva de 12/1/2025 causou diversos estragos na rua Valência, no bairro Bethânia em Ipatinga, como deslizamento de terra e desabamento de casas
Por Matheus Valadares - Repórter Diário do Aço
O período chuvoso faz acender um alerta para moradores de áreas de encostas e regiões com relevo acidentado no Vale do Aço. A saturação do solo provocada por chuva contínua reduz a capacidade de absorção da terra, comprometendo sua estabilidade e elevando o risco de deslizamentos, quedas de barreiras e escorregamentos.

De acordo com a engenheira civil especialista em Perícias e Geotecnia, Estela Novaes, quando o solo atinge um alto nível de umidade, a água passa a ocupar os espaços entre as partículas, diminuindo a coesão do terreno. Esse processo pode provocar movimentações repentinas, especialmente em locais onde há cortes irregulares, ausência de drenagem adequada e construções em áreas de risco.

Estela afirma que, de modo geral, a chuva contínua é mais perigosa que a pancada de chuva. “A chuva prolongada faz com que haja maior infiltração no solo, que aumenta o nível do lençol freático. Com isso, o solo vai ficar mais saturado e vai perder resistência. Em solos com uma baixa permeabilidade, a água infiltra mais devagar, demora mais tempo a drenar e vai causando o aumento da pressão no maciço, que pode causar as rupturas translacionais, que podem ser superficiais ou profundas”, explicou em entrevista ao Diário do Aço.

A engenheira acrescenta que a água tem interferência na estabilidade do solo porque modifica a estrutura das tensões e o cisalhamento do maciço. “Solos com pouca permeabilidade ficam mais suscetíveis, e sofrem mais compressão. Taludes, aterros, desaterros malfeitos, que foram mal compactados, a água aumenta a tensão e diminui a resistência. O solo vai ficando mais pesado, que dá início às erosões. São os principais fatores do deslizamento provocados pela chuva”, complementa

Matheus Valadares
Previsão de chuva permanece neste sábado e cuidados devem ser tomados mediante sinais de riscoPrevisão de chuva permanece neste sábado e cuidados devem ser tomados mediante sinais de risco
Chuva contínua

A Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) que atua sobre Minas Gerais ainda deixará o fim de semana com previsão de chuva no Vale do Aço.

Nesta sexta-feira (23), o Corpo de Bombeiros de Ipatinga divulgou que militares dos setores administrativos das unidades da região intensificaram o apoio ao serviço operacional, atuando conjuntamente com as equipes das Defesas Civis em visitas e orientações à comunidade, sobretudo, nas áreas de risco. Chove de forma perene na região desde a noite do último domingo (18).

Estela Novaes alerta para os sinais de ruptura do solo, que geralmente ocorre por aumento da pressão dos poros e perda da resistência

“Começa a surgir trincas, fissuras no solo em formato de meia-lua ou paralelas às encostas, o afundamento do solo, o surgimento de água, lama, água barrenta escorrendo nas encostas. Você começa a verificar que há mais árvores tombadas, as raízes ficam aparentes, árvores inclinadas. As estruturas do imóvel começam a sentir a deformação do solo, entre outras situações”, acrescentou.

Atenção
Por meio de nota, os bombeiros também informaram que o momento ainda requer atenção da população e reforçam as orientações à população para os riscos de deslizamento de encostas, de inundações e enchentes.

“Nas situações de enchentes ou inundações, nunca atravesse locais atingidos pela água, pois a força da água pode arrastá-lo; se estiver no trânsito, evite trafegar por locais que alagam durante fortes chuvas e jamais tente atravessar as áreas inundadas; não se arrisque entrando nas águas para realizar salvamentos; observe se a água da chuva está barrenta e com plantas e troncos, o que pode ser um sinal de inundação; observe a elevação do nível dos cursos d’água como córregos e ribeirões; sempre busque abrigo em um local alto e seguro e espere o nível de água baixar”, orienta os bombeiros.

Ocorrências no Vale do Aço



Os municípios da região têm regiões previamente mapeadas pela Defesa Civil como suscetíveis a ocorrências desse tipo. Em períodos de chuva persistente, o monitoramento é intensificado, e a população é orientada a ficar atenta a sinais de instabilidade.

Conforme o Corpo de Bombeiros, neste início de ano “não foram registrados eventos de grande magnitude, sendo registradas ocorrências somente de vistorias em risco de quedas de árvores e de risco de escorregamento de encosta”.

Deslizamento em Coronel Fabriciano
A Defesa Civil de Coronel Fabriciano foi formalmente acionada para atender a uma ocorrência de deslizamento de massa que atingiu o muro de uma residência no bairro São Domingos, na quarta-feira (21).

Conforme o governo local, imediatamente após a solicitação, uma equipe da Defesa Civil junto à Secretaria de Obras deslocou-se ao local para vistoria pericial, para avaliar a estabilidade geológica do terreno e a integridade estrutural da edificação, além de instruir os moradores acerca das condições de habitabilidade e segurança do imóvel.

“Paralelamente à intervenção, a administração municipal viabilizou o acompanhamento intersetorial da família afetada por meio da Secretaria de Assistência Social. Este suporte visa garantir o amparo necessário aos cidadãos e a manutenção do monitoramento contínuo da situação em conjunto com os demais órgãos competentes. A Defesa Civil reitera que manterá a vigilância sobre o caso, realizando novas avaliações de campo sempre que as condições climáticas ou geológicas assim exigirem, priorizando a salvaguarda da vida”, informou o governo em nota enviada à imprensa.

Lições da tragédia de 2025



Em janeiro do ano passado, 11 pessoas morreram (10 em Ipatinga e 1 em Santana do Paraíso), após deslizamentos ocasionados por uma chuva torrencial que atingiu a região na madrugada do dia 12. A engenheira civil Estela Novaes lembrou do ocorrido e destacou a necessidade de população e órgãos públicos ficarem vigilantes.

“O período de chuva é de muita atenção. Em janeiro de 2025 tivemos 11 mortes, mais de 50 famílias desabrigadas, mais de 100 imóveis interditados parcial ou totalmente. Além disso, a Defesa Civil de Ipatinga recebeu mais de 3 mil chamados para a vistoria”, relembrou.

“As construções irregulares são, na maioria das vezes, o principal fator para o deslizamento e outros problemas geotécnicos. Os imóveis, construídos de forma irregular, vão aumentar o peso sobre o solo, principalmente em solo fraco e saturado. Os cortes, que são mal feitos, normalmente não respeitam inclinação correta, às vezes há aterros mal compactados, casas construídas em encostas, muitas das vezes elas [casas] também lançam água sobre o solo, que causa erosão. Além disso tudo, tem outro ponto que é muito comum, que é a remoção da vegetação. Tudo isso aumenta a infiltração da água, aumentando a pressão e consequentemente causando deslizamentos”, concluiu Estela Novaes.

A recomendação é que a população acompanhe os alertas meteorológicos e siga as orientações das autoridades, principalmente em dias consecutivos de chuva, quando o risco de deslizamentos aumenta de forma significativa.


Publicado anteriormente:
Dez pessoas perderam a vida nos deslizamentos de terra em Ipatinga dia 12/1

Ipatinga relembra um ano da tragédia da chuva com ações de prevenção, vistorias técnicas e acolhimento às famílias

Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]

Comentários

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

Envie seu Comentário