26 de janeiro, de 2026 | 18:00
De tristeza, covardia, vingança ...
Nena de Castro *
Olá! Quando Chico Buarque escreveu em Roda Viva que tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu” era para um dia como hoje, quando apesar do sol radiante, eu sinto minhalma presa à mais densa escuridão... Não, não me refiro àquela caminhada ridícula, nem ao raio que os partiu, nem aos podres meandros políticos que nos assombram, ao Pinto Calçudo que quer dominar o mundo... Li a notícia no sábado e fiquei em estado de morte e amargura, estarrecida e cheia de pena. Foi em Fortaleza (CE) que Margarete Oliveira Santos, hoje, 58 anos, 1,58, forte pelas lutas para ganhar a vida, trabalhava como coveira há 28 anos. Sem alteração, venceu os preconceitos e ganhou respeito. Séria, de poucas palavras, viúva, morando em um barraco humilde, levava a vida na luta. Sua única alegria, a filha Amanda, de 22 anos que estudava Veterinária na Universidade Federal do Ceará, onde tinha bolsa integral por mérito acadêmico. Com o que ganhava, a mãe sustentava a casa e pagava os livros e materiais necessários, transporte e alimentação.
Viviam na casinha simples que tinham, dois quartos, salinha minúscula, cozinha pequena, banheiro cujo chuveiro vivia encrencando, algumas goteiras. Mas a casa era delas adquirida com quinze anos de economia. Amanda namorava há dois anos um rapaz chamado Rafael, que era mecânico, simples, mas honesto e trabalhador e a tratava com carinho e respeito. Até que no dia 15 de janeiro de 2024, a filha demorava para chegar em casa. A mãe, inquieta, tentou o celular que não foi atendido, ligou para as colegas que lhe disseram que a moça saíra com o namorado na hora normal. Inquieta, foi à delegacia e lhe disseram que devia esperar.
Porém no dia seguinte, chegaram policiais à sua casa e lhe disseram que fosse ao IML fazer o reconhecimento do corpo da filha e do namorado, tinham achado os documentos ela foi. Viu a filha com o rosto todo arrebentado, com sinais de tortura; tinha sido estuprada, asfixiada e levado tiros. O namorado estava uma massa sangrenta, corpo todo quebrado antes do fuzilamento. Vou resumir pra vocês: o irmão de Rafael devia dinheiro a uma gangue de traficantes do Comando Vermelho. Não pagou e sumiu. Os bandidos resolveram então matar o irmão e como ele estava com Amanda, ela também foi silenciada. Com torpeza e covardia. Dona Margarete resolveu que os assassinos iriam morrer. Descobriu seus nomes, onde iam e foi eliminando um a um. O chefe foi o primeiro. Ela foi onde ele bebia e falou que ele corria perigo, pois o grupo rival planejava matá-lo. Ficou de dar detalhes no cemitério, porque ninguém ia lá à noite. O chefe foi.
Ela lhe deu uma garrafa de cerveja e tomou outra. Só que a dele continha anestesia para animais, que ela furtara de uma clínica. O cara tonteou, ela o arrastou e colocou-o num caixão, acorrentou-o e começou a jogar terra. Ele acordou, pediu misericórdia, ofereceu dinheiro. Ela disse que estava vingando a filha. Enterrou-o numa sepultura que seria usada no outro dia, tendo o cuidado de deixar tudo normal. E assim fez com todos os outros, 9 ao todo. Só foi descoberta porque foram exumar um corpo por questões de herança e descobriram que outro defunto estava enterrado ali debaixo. Ela foi presa, julgada e condenada a 135 anos que o juiz reduziu para 25, pela idade, primariedade, contexto emocional extremo causado por falha do sistema judicial. Foi recebida na prisão como heroína pelas outras detentas. E até onde sei está viva, cumprindo a pena. Afeee! Atire a primeira pedra quem quiser, por que eu estou entalada com esse caso! E nada mais digo!
* Escritora e Contadora de Histórias.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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