28 de janeiro, de 2026 | 06:00
O mundo contemporâneo conseguiria viver sem mapas?
Pedro Montebello*
O mapa - termo que deriva do latim mappa, que significa "toalha de mesa" ou "lenço" é uma das mais antigas linguagens produzidas pela humanidade. O que hoje nos parece banal, algo que estamos habituados a visualizar em um clique no Google Maps ou em um aplicativo de locomoção, percorreu um longo caminho histórico. Estudiosos da cartografia supõem, inclusive, que a linguagem dos mapas pode ser anterior à própria escrita. Afinal, antes de registrar ideias subjetivas, o ser humano precisou registrar o "onde" objetivo.Durante os milênios de nomadismo até a definitiva sedentarização na Revolução Neolítica, orientar-se no espaço era uma questão de sobrevivência, comodidade e, invariavelmente, de poder. Dos primeiros registros, em argila, na Babilônia, até a precisão cirúrgica dos satélites e drones contemporâneos, a cartografia deixou de ser um desenho estático para se tornar uma camada viva da nossa realidade. O fato é que hoje não vivemos sem os mapas, pois, em algum momento do cotidiano, recorremos a essa linguagem, muitas vezes de forma inconsciente.
Ao olhar para um mapa vemos também as cicatrizes
das guerras, as fronteiras da diplomacia e as rotas do comércio”
Alguém consegue imaginar a dinâmica das cidades atuais sem os aplicativos de locomoção? Seria possível planejar uma viagem ou mesmo o trajeto para um novo emprego, sem valer-se desse recurso? A resposta é direta: não. Nossa vida tornou-se dependente dessa interface espacial. No entanto, a pressa do dia a dia frequentemente nos rouba a percepção de que essa tecnologia é o ápice de uma construção coletiva milenar. Ter essa consciência histórica é o que nos permite deixar de ser apenas usuários passivos, para nos tornarmos cidadãos conscientes do espaço que habitamos.
Tive a oportunidade, recentemente, de visitar a República Tcheca, a Áustria e a Eslováquia. Ali, minha experiência foi inteiramente moldada pelos mapas. Assim, seja na forma tradicional do papel dobrado ou na interface do smartphone, o mapa não foi apenas um guia de trajetos, mas uma chave de leitura. Ele permitiu a otimização dos passeios, o estudo profundo dos lugares e, acima de tudo, uma ampliação da consciência histórico-geográfica. Ao olhar para um determinado mapa, não vemos apenas ruas, vemos também as cicatrizes das guerras, as fronteiras da diplomacia, as rotas do comércio e, sobretudo, as representações de um espaço em um determinado tempo. O mapa apresenta o hoje”, mas também faz um retrato da História.
Para além das questões práticas do "ir e vir", os mapas servem para algo mais profundo: eles nos situam. Situar-se é diferente de apenas localizar-se. Localizar-se é saber a coordenada geográfica e situar-se é compreender o seu papel no mundo. O mapa é o espelho no qual a humanidade projeta suas ambições e sua visão de existência. Se, no passado, os mapas serviam para delimitar impérios, hoje eles podem e devem servir para democratizar o acesso à cidade e ao conhecimento.
O mapa apresenta o hoje, mas também faz
um retrato da História”
Portanto, o mapa não é apenas uma representação bidimensional do espaço, mas uma ferramenta de liberdade, algo que apresenta um horizonte de possibilidades. Quando aprendemos a ler um mapa, aprendemos a ler as intenções de quem o projetou e, consequentemente, ganhamos autonomia para traçar nossos próprios caminhos.
Afinal, o mundo contemporâneo conseguiria viver sem mapas? Eu não saberia afirmar, mas acredito que, em um mundo perdido no sentido de caótico, imediatista e ávido por rapidez ? como o que vemos hoje, o mapa seria o primeiro recurso para nos encontrarmos e, literalmente nos demorarmos” a interpretá-los e a nos deixar guiar.
* Professor de História graduado na Universidade Federal de Ouro
Preto (UFOP) e Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Geografia
Tratamento da Informação Espacial da Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais (PUC Minas).
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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