03 de fevereiro, de 2026 | 07:00
Dificuldade de leitura e escrita: o que ninguém te contou sobre a audição na infância
Debora Barros *
Muito se fala sobre dificuldades de leitura e escrita na fase escolar, mas pouco se discute sobre uma de suas origens mais silenciosas e negligenciadas: o desenvolvimento incompleto das habilidades auditivas na primeira infância. Em muitos casos, a criança apresenta exames auditivos normais, ouve bem”, mas não consegue processar adequadamente os sons da fala. O impacto desse déficit aparece mais tarde, quando a alfabetização não acontece como esperado.A audição vai muito além da simples captação sonora. Para que a linguagem se desenvolva plenamente, o cérebro precisa aprender a organizar, discriminar e sequenciar os sons da fala. Esse conjunto de habilidades é conhecido como processamento auditivo central. Quando esse sistema funciona de forma eficiente, a criança consegue perceber diferenças sutis entre os fonemas, compreender a fala em ambientes ruidosos e sustentar a base necessária para a leitura e a escrita.
O desenvolvimento dessas habilidades não ocorre de forma automática. Ele depende de experiências auditivas consistentes nos primeiros anos de vida, especialmente até os cinco anos de idade período considerado crítico para a maturação das vias auditivas centrais. Qualquer interrupção ou empobrecimento dessa estimulação pode comprometer esse processo.
Na prática clínica, observa-se com frequência crianças que tiveram episódios recorrentes de otite média, alterações respiratórias persistentes ou obstruções nasais crônicas nos primeiros anos de vida. Essas condições reduzem a qualidade da estimulação sonora justamente no momento em que o cérebro está aprendendo a interpretar os sons com significado. Mesmo após a resolução médica desses quadros, o processamento auditivo central pode permanecer imaturo.
Cuidar da audição na primeira infância não é
apenas uma questão de saúde, mas também de educação”
Essa imaturidade costuma se manifestar de forma mais evidente na fase escolar, quando as exigências linguísticas aumentam. São crianças que leem lentamente, trocam letras na escrita, apresentam dificuldade de compreensão textual e precisam de um esforço excessivo para acompanhar atividades baseadas em linguagem oral. Não raramente, acabam sendo rotuladas como desatentas, desinteressadas ou com dificuldades de aprendizagem sem causa aparente.
O Transtorno do Processamento Auditivo Central não impede a aprendizagem, mas torna o processo mais custoso, menos automático e emocionalmente desgastante. Além dos prejuízos acadêmicos, surgem frustração, baixa autoestima e desmotivação escolar, fatores que podem comprometer toda a trajetória educacional da criança.
Diante desse cenário, torna-se fundamental ampliar o olhar sobre as dificuldades de leitura e escrita. Avaliar apenas a audição periférica não é suficiente. É necessário compreender como o cérebro está processando os sons da fala. A identificação precoce de alterações no processamento auditivo central possibilita intervenções fonoaudiológicas específicas, baseadas em treinamento auditivo, capazes de estimular a plasticidade neural e promover ganhos reais no desempenho linguístico e escolar.
Cuidar da audição na primeira infância não é apenas uma questão de saúde, mas também de educação. Quando ajudamos a criança a aprender a ouvir de forma eficiente, estamos, na prática, ajudando-a a aprender a ler, escrever e se comunicar com mais autonomia ao longo da vida.
* Clínica Ouvir e Falar
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