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06 de fevereiro, de 2026 | 07:00

O lado quente da coquetelaria: quando o gelo não tem função e o coquetel é sustentado pelo fogo

Abner Benevenuto Araújo Paixão *

Existe um território na coquetelaria que passa quase despercebido - não por falta de relevância, mas por estar fora do campo habitual de estudo. Em meio à obsessão contemporânea pelos cubos translúcidos, pelo brilho do gelo torneado e pelas discussões sobre diluição perfeita, alguns coquetéis clássicos subvertem toda essa lógica. São coquetéis construídos pelo calor, não pelo frio. Coquetéis que não dependem do gelo simplesmente porque nasceram com outros propósitos: aquecer, reconfortar, unir.

O Irish Coffee talvez seja o mais emblemático. Criado em 1943 por Joe Sheridan no aeroporto de Foynes, ele surgiu para aquecer passageiros exaustos após uma noite de tempestade. A composição - 40 ml de whiskey irlandês, 120 ml de café quente, 10 ml de açúcar e creme por cima — não aceita gelo porque sua função original era devolver humanidade aos viajantes congelados. Ele não refresca; ele acolhe.

O Mulled Wine, por sua vez, remonta ao período romano. Os legionários aqueciam vinho com ervas para suportar o frio extremo nas fronteiras do Império. Hoje, a receita permanece reconhecível: 150 ml de vinho tinto, especiarias, açúcar ou mel e, às vezes, 20 ml de brandy. Não há cubos nem diluição. Há vapor, convivência e tradição.

Outro clássico que habita esse universo é o Hot Toddy, surgido como tônico nas ilhas britânicas. Sua mistura - 40 ml de whiskey, 100 ml de água quente, 10 ml de mel e limão - já foi remédio caseiro e companhia para longas noites geladas. O calor, aqui, é parte essencial da experiência.

No Brasil, temos um protagonista igualmente simbólico: o Quentão. Nascido no meio rural do Sul e incorporado às festas juninas em todo o país, ele combina 100 ml de cachaça, açúcar caramelizado, casca de laranja, especiarias e gengibre aquecido até borbulhar. Seu caráter não está só no sabor, mas no gesto de esquentar o corpo em torno de uma fogueira, cercado de música, risos e comunidade.

É comum supor que a coquetelaria sem gelo se limite a curiosidades sazonais, mas esse é um equívoco persistente. Esses coquetéis revelam outra lógica técnica: o calor altera textura, intensifica aromas, transforma a percepção alcoólica e exige um controle distinto do que se aplica ao gelo. E, apesar de parecer simples, esse lado quente da coquetelaria frequentemente escapa até a profissionais experientes — não por falta de capacidade, mas porque ele raramente é estudado com a mesma dedicação dada aos coquetéis frios.


“O calor altera textura, intensifica aromas,
transforma a percepção alcoólica e exige
um controle distinto do que se aplica ao gelo”


É importante reforçar: coquetéis sem gelo não têm relação direta com o debate sobre o excesso de gelo em preparos como caipirinhas mal executadas. São discussões totalmente diferentes. Nos coquetéis quentes, a ausência do gelo é premissa estrutural. Nos coquetéis tropicais, o problema é o uso inadequado do gelo, não sua existência.

A coquetelaria quente, portanto, não é um desvio — é um capítulo inteiro da história líquida do mundo. Um capítulo que exige conhecimento, sensibilidade e domínio da temperatura como ferramenta técnica. E embora seja menos explorado, ele amplia a compreensão de quem deseja enxergar a profissão para além dos cubos cristalinos.

No fim, esses coquetéis nos lembram que a coquetelaria é feita de contrastes: calor e frio, aconchego e frescor, tradição e reinvenção. E talvez a lição mais profunda esteja aqui: um coquetel não depende do gelo para ser clássico, mas depende da intenção.

A temperatura, assim como o sabor, também é narrativa. E quem aprende a ouvir o calor do copo descobre uma coquetelaria que não apenas esquenta — mas ilumina.

* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos

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