08 de fevereiro, de 2026 | 07:00

Além da fantasia: precisamos do Carnaval para ser quem somos?

Luciana Palhares *

Como todos os eventos coletivos, o Carnaval revolve o caldo do inconsciente coletivo. Numa festa em que a ordem é soltar o controle, ultrapassar limites e se permitir excessos, compensamos as restrições do dia a dia. As regras sociais, as hierarquias, os “tenho que”, os rótulos se relaxam, e o eu sólido dos cargos e dos papéis cotidianos cede espaço a uma multidão líquida, à vivência de arquétipos que, nos dias comuns, não nos permitimos acessar. Não é à toa que nos fantasiamos, que usamos máscaras.

O grande vazio existencial da vida contemporânea pode ser temporariamente suspenso pela multidão de corpos soltando tudo, deixando o pensamento descansar enquanto o instinto conduz esses escassos dias. Se todos os dias pudéssemos ser quem somos, talvez não existisse a necessidade do Carnaval.

Eu mesma já mergulhei na multidão. Vivi uma infância e adolescência muito isoladas, e foi a curiosidade que me levou. Em poucos anos, percebi que aquela festa de excessos não era movida por gosto, mas por desgosto. Com um eu ainda não bem definido, eu me deixava levar. Não sabia quem era — e, quando não sabemos quem somos, qualquer lugar parece servir.

Observei fenômeno semelhante nos meus vínculos afetivos. Eu queria atenção e estava tão faminta que aceitava qualquer uma, sem distinção. Talvez essa seja, afinal, a lógica dos afetos líquidos: “Tenho fome, quero algo, qualquer algo para preencher o vazio. Pode ser pouco, de curta duração, pode nem ser o que eu verdadeiramente desejo, mas é algo”.


"Excesso, máscaras e a busca por
identidade na vida contemporânea"


Durante muito tempo, vivi em função do olhar masculino. Meu valor parecia diretamente conectado à validação externa. Antes mesmo de conseguir nomear isso, o que senti foi uma infelicidade profunda, um vazio inexplicável, um buraco escuro. Eu fazia escolhas sem entender por quê, não via sentido nas experiências que vivia, não estava vivendo para mim. Aos 23 anos, cheguei à terapia dizendo: “Sei que há algo errado, mas não sei o que é. Preciso de ajuda”.
Com a terapeuta como guia, aprendi a entrar em diálogo comigo mesma. Aprendi a me escutar, a me entender, a me conhecer e, finalmente, a me ver. Voltar para si, para mim, é isso: ter mapas internos, conhecer os próprios trajetos emocionais e de pensamento, existir independentemente dos olhares externos.

Na minha casa, fui treinada a ser útil. A colocar as necessidades dos outros em primeiro lugar, a me calar, a não pedir nada, a perder até mesmo o impulso de desejar algo para mim. Aprendi que meus sentimentos não importavam, que eu devia me virar sozinha, que pedir ajuda não era uma opção. Aprendi a ser a solucionadora, a pacificadora, a faz-tudo — e, assim, atraía problemas, conflitos e fardos que não eram meus. Eu não existia fora dos papéis que desempenhava. Esse molde se repetiu em todas as minhas relações.

Não é coincidência que muitos de nós mergulhemos na folia buscando desesperadamente sentir que estamos vivos através do excesso. O excesso anestesia, suspende o vazio por alguns dias, cria a ilusão de pertencimento. Mas ele não sustenta.

Depois de alguns anos de noites desenfreadas, me vi completamente vazia. Anos depois, refletindo, entendi: eu estava buscando amor e aceitando sexo. Queria ser vista e amada por quem sou verdadeiramente, mas aceitava ser usada como um pedaço de carne. Faminta emocionalmente, eu aceitava migalhas como se fossem banquetes.

“O vazio existencial da vida contemporânea pode
ser temporariamente suspenso pela multidão de
corpos soltando tudo”


Foi nesse ponto que percebi que, se eu não me amasse, me tornaria mendiga da vida. Sem a sensação de ser amada, eu não via sentido em estar viva. Decidi, então, aprender o amor-próprio como forma de sobrevivência. Amar, para mim, é ver. Ver sem juízo de valor. Ver sombra e luz. Ver e escolher ver de novo. Quando nos vemos, nos amamos.

Esse processo de retorno para mim mesma acabou encontrando forma na escrita. Para entender uma história de amor nasceu da necessidade de decifrar minhas próprias vivências. Escolhi uma escrita fragmentada — cartas, ensaios autobiográficos, pequenos textos — porque é assim que as emoções se apresentam: quebradas, instáveis, fluidas. A autoficção, para mim, sempre foi um mecanismo natural, uma ferramenta de sobrevivência psíquica.

A Luciana que escreveu esse livro já não existe mais. Hoje sou outra. Transformada pelo processo de me expor, de deixar cair as máscaras, de afirmar minha existência depois de anos escondida. Publicar foi um gesto de reconciliação com quem fui e de afirmação de quem me tornei.

Podemos viver em eterno Carnaval? Muita gente vive. Eu não dou conta. Gosto de silêncio, de cerveja gelada e de um banheiro limpo disponível. Gosto de profundidade, de intimidade real. Gosto de ser quem sou no dia a dia. Não preciso do Carnaval para me viver. Estou em paz com a diaba e a freira que me habitam.

* Escritora, atriz, performer, cantora, taróloga, consteladora familiar, radiestesista e modelo vivo. Publicou “Pequenas Verdades e Outras Histórias” (2022) e agora, “Para Entender Uma História De Amor” (2025)

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