19 de fevereiro, de 2026 | 07:05
Acordo Mercosul-UE deve reduzir preços no Brasil e não ameaça indústria nacional, avalia especialista
Divulgação
A economia regional é fortemente atrelada à indústria metalomecânica, cuja produção é predominantemente direcionada ao mercado interno
Por Matheus Valadares - Repórter Diário do Aço
A economia regional é fortemente atrelada à indústria metalomecânica, cuja produção é predominantemente direcionada ao mercado internoApós 26 anos de negociações, representantes do Mercosul e da União Europeia assinaram, em 17 de janeiro, no Paraguai, o acordo de livre comércio que pode criar a maior área de integração econômica do mundo, envolvendo cerca de 720 milhões de pessoas e um mercado estimado em US$ 22 trilhões.
A previsão do governo federal é que o acordo entre em vigor no segundo semestre, após aprovação do Parlamento Europeu e dos congressos nacionais dos países do Mercosul.
Para o geógrafo e estatístico William Passos, coordenador do Observatório das Metropolizações Vale do Aço, o acordo não representa risco à indústria nacional e deve gerar redução de preços ao consumidor brasileiro.
O pesquisador aponta que os principais produtos exportados pelo Brasil para a União Europeia são itens de atividades extrativas e agropecuárias, como petróleo cru, óleos combustíveis, café não torrado, carne bovina fresca e subprodutos do ferro e do aço ainda em formato semiacabado.
Como a Europa não compra produtos da indústria brasileira, acredito que não haverá riscos para a indústria nacional diante da concorrência europeia”, afirmou em entrevista exclusiva ao Diário do Aço.
Redução de preços
Por outro lado, a tendência é de impacto direto no bolso do consumidor. O acordo prevê a eliminação de tarifas de 93% dos produtos vendidos pelos países da União Europeia ao Mercosul.
No caso brasileiro, as principais importações europeias incluem medicamentos e produtos farmacêuticos, inclusive veterinários, partes e acessórios de veículos automotores, motores e componentes, além de instrumentos e aparelhos de medição, verificação e controle.
Há 99% de certeza de que haverá redução de preços para o consumidor brasileiro”, projeta o geógrafo, ao explicar que tarifas funcionam como um imposto sobre produtos comercializados entre países. No caso desses produtos, o consumidor brasileiro e, naturalmente, também do Vale do Aço, sentirá impacto direto no bolso, no sentido da redução do preço”.
Ele compara o cenário ao impacto do aumento de tarifas promovido pelos Estados Unidos no ano passado. Naquele caso, o efeito foi de elevação de preços. Agora, a lógica é inversa: com tarifas zeradas, os produtos ficam mais baratos”, relatou.
Pequenas e médias empresas
De acordo com o coordenador estatístico, o impacto do acordo não estará necessariamente ligado ao porte da empresa, mas ao tipo de atividade exercida.
O efeito será mais significativo para setores que compram ou vendem produtos para um ou mais dos 27 países da União Europeia. Assim, pequenas e médias empresas podem ser beneficiadas, desde que estejam inseridas em cadeias com relações comerciais internacionais.
Guardadas as devidas proporções, no caso das empresas brasileiras, será algo mais ou menos semelhante ao impacto do tarifaço dos Estados Unidos no ano passado. Só que, naquele caso, o impacto foi no sentido da elevação dos preços, porque as tarifas subiram. Nesse caso em questão, as tarifas serão eliminadas. Como tarifas, na prática, funcionam como uma espécie de imposto para produtos comercializados entre países de continentes diferentes, quando essas tarifas são eliminadas, consequentemente, os preços dos produtos acabam baixando”, explicou.
O próprio texto do acordo prevê um capítulo específico para pequenas e médias empresas, com medidas de facilitação aduaneira e redução de burocracia para exportadores de menor porte.
Emprego na região
No caso do Vale do Aço, a expectativa é de estabilidade no emprego formal. A economia regional é fortemente atrelada à indústria metalomecânica, cuja produção é predominantemente direcionada ao mercado interno.
Pode-se dizer, com segurança, que não haverá impacto na geração de emprego com carteira assinada em função do início do funcionamento do acordo”, avalia Passos.
Ele ressalta que os cinco países do Mercosul (Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai) passam a ter acesso ampliado a um bloco formado por 27 nações europeias, entre elas Alemanha, França, Itália, Espanha e Portugal.
A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) estima que o tratado pode ampliar as exportações brasileiras em cerca de US$ 7 bilhões, além de estimular a diversificação das vendas externas e a integração do país às cadeias globais de valor.
Confira os principais pontos do acordo
1. Eliminação de tarifas alfandegárias
Redução gradual de tarifas sobre a maior parte dos bens e serviços;
Mercosul: zerará tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos;
União Europeia: eliminará tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos.
2. Ganhos imediatos para a indústria
Tarifa zero desde o início para diversos produtos industriais.
Setores beneficiados:
Máquinas e equipamentos;
Automóveis e autopeças;
Produtos químicos;
Aeronaves e equipamentos de transporte.
3. Acesso ampliado ao mercado europeu
Preferência em mercado de alto poder aquisitivo;
PIB estimado em US$ 22 trilhões;
Comércio mais previsível e com menos barreiras técnicas.
4. Cotas para produtos agrícolas sensíveis
Carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol terão cotas;
Acima das cotas, haverá tarifa;
Cotas crescem gradualmente;
Mecanismo busca evitar impactos abruptos sobre agricultores europeus;
Na UE: cotas equivalem a 3% dos bens ou 5% do valor importado do Brasil;
No Brasil: chegam a 9% dos bens ou 8% do valor.
5. Salvaguardas agrícolas
A UE poderá reintroduzir tarifas temporariamente se:
Importações superarem limites definidos;
Preços ficarem muito abaixo do mercado europeu;
Atingirem cadeias consideradas sensíveis.
6. Compromissos ambientais obrigatórios
Produtos não poderão estar ligados a desmatamento ilegal;
Cláusulas ambientais são vinculantes;
Possibilidade de suspensão em caso de violação do Acordo de Paris.
7. Regras sanitárias mantidas
UE mantém padrões sanitários e fitossanitários rigorosos;
Produtos seguirão exigências de segurança alimentar.
8. Comércio de serviços e investimentos
Redução de discriminação regulatória a investidores;
Avanços em serviços financeiros, telecomunicações, transporte e serviços empresariais.
9. Compras públicas
Empresas do Mercosul poderão disputar licitações na UE;
Regras mais transparentes.
10. Propriedade intelectual
Reconhecimento de cerca de 350 indicações geográficas europeias;
Regras claras sobre marcas, patentes e direitos autorais.
11. Pequenas e médias empresas (PMEs)
Capítulo específico;
Facilitação aduaneira e acesso à informação;
Redução de custos e burocracia.
12. Impacto para o Brasil
Potencial de aumento das exportações;
Maior integração a cadeias globais;
Possível atração de investimentos no médio e longo prazo.
13. Próximos passos
Aprovação pelo Parlamento Europeu;
Ratificação nos Congressos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai;
Entrada em vigor após conclusão dos trâmites legislativos.
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Gildázio Garcia Vitor
19 de fevereiro, 2026 | 08:46A Venezuela, que aderiu ao Mercosul em 2012, ainda integra o bloco, apesar de estar suspensa desde 2017.”