23 de fevereiro, de 2026 | 16:31
A música pungente da floresta...
Nena de Castro *
Lá em João Pessoa, capital da Paraíba, Ademar Vidal contava uma história tristemente linda: na capoeira de Mamanguape pastava uma notável população de veados. Viviam soltos e eram perseguidos pelos caçadores impenitentes. Muitos desses animais, enlouquecidos pela perseguição iam dar na praia. Pareciam bêbados de cansaço e desespero e acabavam abatidos pelos pescadores que desejavam variar a dieta de peixe com a carne saborosa. E assim a espécie dos galhudos” foi rareando.No entanto, muitos dos próprios caçadores não lhes comiam a carne, abandonando-a em pleno mato, após retirar-lhe a pele, só pelo prazer de exibi-lo - e mais nada. Ademar diz que não se fazia a caça assim de repente e sim em certos dias.
Dizem que esses animais nem sempre podiam ser pegos pelos cachorros ou pelas balas da espingarda. Isso por causa de quê, segundo atestam os antigos, nas capoeiras alguns veados chefes de bando costumavam reunir o seu povo” para um remoer mais demorado na tranquilidade. A convocação para tal encontro era feita por intermédio de uma música que toca a todos os corações.
Ninguém consegue ouvi-la sem ficar inteiramente dominado e vencido em seus maus propósitos. Pois a Beleza amolece as energias empregadas para o mal. Então o caçador adia a perseguição, é supersticioso e teme contrariar as forças da natureza manifestadas tão magnificamente. As notas estranhas e deliciosas da melodia advertiam generosamente aos caçadores que ficassem longe, pois o ataque lhes traria consequências desagradáveis, com surpresas constantes e prejudiciais. Então o caçador preferia esperar, para não ir de encontro aos deuses ocultos que dirigem os movimentos nas florestas e tabuleiros. Mateiros mais afoitos se arrastavam cautelosamente até o local, atraídos pela música permeada de encantos. Os animais mais velhos, no centro do local, exibiam 23 chifres ocos e perfurados como flautas.
"Os seres ditos humanos arrasam com as florestas e animais,
sem pensar no porvir e no que será das futuras gerações"
O vento nordeste soprava com uma suavidade infinda e arrancava dos chifres os sons mais sentidos de uma orquestra completa que tocava para amenizar a vida de uma raça perseguida. Depois vem a dispersão. Cada qual para seu canto, ouvidos atentos para se livrar da sanha criminosa de seus perseguidores. O caçador sai para matar sem levar na alma a menor sombra de preocupação. Afinal, perseguir e matar é tão bom, tão excitante... E assim os seres ditos humanos arrasam com as florestas e animais, sem pensar no porvir e no que será das futuras gerações.
Cuidado! - sussurram as árvores para os pássaros e animais: como poetou Chico Buarque em Passaredo”, O HOMEM VEM AÍ! E nada mais digo a não ser que o espetáculo MARIANA CATIBIRIBANA, COM MINHA LINDA PERSONAGEM, SERÁ APRESENTADO NA PROGRAMAÇÃO DO FESTIVAL DE VERÃO no dia 8 de março às 16 horas, no CENTRO CULTURAL USIMINAS! Leve suas crianças para verem a performance de Chrika de Oliveira e Mestre Geleia, o homem que faz o atabaque falar! Au revoir.
*Escritora e Encantadora de Histórias
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