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26 de fevereiro, de 2026 | 08:49

Uma das lojas mais antigas de Coronel Fabriciano, A Vantajosa vai fechar as portas

Há 63 anos no Centro da cidade, o estabelecimento focado na venda de roupas femininas e masculinas abre as portas pela última vez no sábado

Silvia Miranda
Por Silvia Miranda

Coronel Fabriciano vai se despedindo de suas antigas lojas, que aos poucos vão dando lugar a novos empreendimentos. Nesta semana, depois de 63 anos de funcionamento e fazendo parte da rotina de gerações de famílias, A Vantajosa, considerada uma das mais tradicionais e antigas lojas da cidade, fecha suas portas. Além da saudade e da nostalgia, o estabelecimento focado em vestuário feminino e masculino ficará marcado por uma história de trabalho e amor pela cidade onde foi fundado.

Sem grandes indústrias siderúrgicas como seus vizinhos Timóteo e Ipatinga, o município de Coronel Fabriciano sempre foi reconhecido pelo comércio tradicional, com lojas familiares fortalecendo a economia nos anos seguintes à emancipação de seus dois distritos ricos. Há pouco mais de 60 anos, a cidade via o movimento “ferver”, reflexo da industrialização do Vale do Aço e do início das operações da Usiminas.
Cícero Henrique
O casal Dione e José Stelzer comandou a loja ao longo de seis décadasO casal Dione e José Stelzer comandou a loja ao longo de seis décadas

Aos 87 anos, José Stelzer, proprietário da loja, continua atrás do balcão, muito lúcido, atento e fiel à rotina que manteve por mais de seis décadas. Entre atendimentos e lembranças, recorda como saiu de Juiz de Fora e veio parar em Coronel Fabriciano. A cidade, que à época lhe pareceu feia e pouco promissora, foi vista pela primeira vez da janela do trem - visão que, anos depois, se transformaria no lugar onde fincaria raízes definitivas. A viagem tinha como destino o município de Colatina (ES), onde assumiria sua transferência como gerente das Casas Pernambucanas.

Aos 23 anos, o comerciante era recém-casado com Dione Stelzer, de 16 anos, que já estava nos últimos dias de gravidez do filho primogênito da família. José Stelzer conta que, ao avistar uma loja da rede em Fabriciano, na passagem pela antiga Praça da Estação, logo comentou com a esposa: “Já pensou se eu for transferido para esta cidade?”. A possibilidade foi rapidamente rejeitada por ambos. Porém, foi exatamente essa a notícia recebida pelo casal dias depois.

Considerada terra-mãe da Região Metropolitana do Vale do Aço, o município estava em intenso crescimento. Sua infraestrutura, no entanto, ainda era precária, e conseguir uma casa para alugar era algo difícil e muito caro. “Não achava casa, nem mesmo um barraco para morar. Eu procurava em Melo Viana e também não achava. Estavam começando a abrir as ruas Jacaraípe e Copacabana, e lá todas estavam com valas abertas, cheias de água. Até jacaré tinha em Melo Viana”, relembra.

A primeira loja


Após passar alguns dias no antigo Hotel Maracanã, no Centro, o casal conseguiu uma casa nas proximidades da rua Felipe Albeny, também na região central. O pagamento do aluguel só foi possível mediante um empréstimo. Tempos depois, já instalado na cidade e trabalhando à frente das Pernambucanas, Stelzer recebeu o comunicado de transferência para a Bolívia. A mudança para outro país tornou-se inviável, pois sua esposa estava grávida da filha caçula. Foi quando tomou a decisão de pedir demissão do emprego de 10 anos, sem receber direitos trabalhistas, e se consolidar de vez em Fabriciano.

“Eu comprei uma lojinha pequenininha, de duas portinhas, na avenida Pedro Nolasco. Tinha que arrumar um avalista e eu não tinha, era pouco conhecido. Quem foi minha tábua de salvação foi o Narciso, da Casa Guerra. Assim consegui fazer a compra. Lembro bem que o estoque todo da loja deu 3.740 cruzeiros. No primeiro mês, coloquei uma faixa escrita: ‘A Vantajosa. Tudo para homens e mulheres’. Eu mesmo fiz a faixa. No primeiro mês, vendi tanto que deu para pagar tudo e ainda sobrou dinheiro. Cheguei para minha mulher e disse: ‘Nós não vamos para lugar nenhum. É aqui que eu vou ficar, é aqui que eu vou fincar minha espada’. E assim fiquei por mais de 60 anos”, conta emocionado.

Uma cidade acolhedora


Natural do município de Santa Teresa, no Espírito Santo, José Stelzer conta, de forma emocionada, como se orgulha de ter escolhido ficar em Coronel Fabriciano — decisão fortemente influenciada pela hospitalidade e simpatia dos fabricianenses. “Chegamos aqui em uma época muito difícil, mas o povo foi muito amigo, nos recebeu com muito calor humano, o que não tinha naquela época em Ipatinga e Timóteo. Era casa de mãe mesmo. E Deus me deu aqui tudo o que eu queria, foi uma maravilha”, afirma.

Silvia Miranda
O proprietário José Stelzer, de 87 anos, mostrou à reportagem do Diário do Aço fotos antigas e contou a trajetória de sua loja ''A Vantajosa''O proprietário José Stelzer, de 87 anos, mostrou à reportagem do Diário do Aço fotos antigas e contou a trajetória de sua loja ''A Vantajosa''


O novo ponto


O início da Vantajosa foi na avenida Pedro Nolasco, com apenas duas portas. Pouco tempo depois, o espaço foi ampliado para cinco, com a incorporação do ponto ao lado — onde hoje funciona uma loja de roupas esportivas do filho de José Stelzer. Anos mais tarde, comprou um lote na rua Coronel Silvino Pereira, dividido em 24 prestações, e ali construiu o próprio ponto comercial, onde a loja passou a funcionar a partir da década de 1980. Stelzer ainda chegou a abrir uma unidade na avenida Magalhães Pinto, no Melo Viana. “Fabriciano era um formigueiro, era muita gente circulando aqui. Trabalhávamos muito. A loja funcionava até tarde aos sábados e também aos domingos. Cheguei a ter 22 funcionários”, destaca.

Uma das testemunhas dos anos dourados da loja é o amigo e ex-contador Nilton Guimarães de Lima, mais conhecido como Natal, que prestou serviços de contabilidade por muitos anos à Vantajosa. “A persistência e o esforço constante de Stelzer foram um dos destaques desta loja, tornando-a uma das mais antigas ainda em atividade em Fabriciano. É uma pena que agora vá encerrar, mas acredito que tudo deve chegar ao fim e que é necessário um descanso”, afirma.

A decisão de encerrar o trabalho



Parte fundamental dessa trajetória é a esposa Dione Stelzer, companheira de vida há 64 anos e presença constante na rotina da loja. “Eu nunca estive sozinho. Sempre recebi o apoio da minha mulher, ela foi meu porto seguro aqui também. Por isso deu tão certo”, enaltece.

Aos 80 anos, Dione continua acompanhando de perto o dia a dia do comércio e se emociona ao falar do carinho dos clientes ao longo dessas seis décadas. “Eu não imaginava que a nossa loja era tão querida. Nas últimas semanas foram muitas pessoas passando por aqui, lamentando o fechamento, dizendo que vinham quando crianças com os pais e agora trazem os filhos e os netos para comprar conosco. Isso é muito gratificante”.

Apesar das crises e dificuldades enfrentadas ao longo dos anos, ela explica que a decisão de encerrar as atividades não está ligada a problemas financeiros ou de saúde. “Não é por doença, não é por dívida. Chegou a hora de parar, de descansar. Queríamos continuar, temos muito amor por esta loja, mas hoje é difícil encontrar funcionários e não temos alguém para assumir a gestão”, diz.

“Por mim, ficaria aqui até morrer”, afirma lojista



Ainda emocionado e com os olhos marejados, Stelzer admite que o coração pesa. “Tenho andado com o coração apertado, não tenho dormido direito. Dá um nó na garganta falar que a loja vai fechar. Por mim, eu ficaria aqui até morrer”.

Depois de resistir a propostas anteriores e atravessar décadas de mudanças, o comerciante reconhece que chegou o momento de descansar. Mas deixa claro que sua história com o município não termina com o fechamento das portas, pois pretende continuar morando na cidade. “Agradeço de coração ao povo de Fabriciano, de Ipatinga, de Timóteo, que esteve conosco durante todo este tempo. Se estamos aqui até hoje, foi graças ao apoio dos nossos clientes e amigos”, conclui.

A loja A Vantajosa funciona até o próximo sábado (28). Em seguida, o ponto será entregue para um novo empreendimento, ainda não revelado, por questões de confidencialidade exigidas na negociação.


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Comentários

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Luiz Dias da Costa

26 de fevereiro, 2026 | 09:37

“buenos días vantajosa eu cunado menino trabalhei ai na loja Vantajosa ,com o SR JOSE STELZER, NESTA EPOCA EU TINHA 15 ANOS ,agora eu conheci a historia linda a historia dele ai no vale do aco,hoje eu ja adulto e orando fora do brasil ja a 46 anos encontrei que o destio busca a gente.”

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