01 de março, de 2026 | 07:00
Hamnet: Ser ou não ser, eis a questão
Paulo da Rocha Dias *
Por causa das indicações ao Oscar, a imprensa brasileira tem se ocupado muito com o filme Hamnet A vida depois de Hamlet”. Isto chegou ao ponto de levar uma jornalista a afirmar em uma publicação de abrangência nacional ser o melhor filme que já vi em toda a minha vida”.O filme de Chloé Zhao e sua equipe, o livro homônimo de Maggie OFarell no qual o filme se baseou muito fielmente e a peça Hamlet”, de Shakespeare, que inspirou o livro e, consequentemente, o filme são, os três, uma profunda reflexão sobre o luto e a dor provocada pela morte. E o filme e o livro valem a pena não somente por isso, mas também por nos levar a reler a tragédia Hamlet, obra-prima de William Shakespeare. O resto são hipóteses que, embora muito plausíveis, não podem ser documentalmente comprovadas.
Hamlet se depara o tempo todo com a possibilidade da vida, da morte e do morrer. E, numa das páginas mais belas da dramaturgia ocidental, expõe o problema mais sério do ser humano: a possibilidade de saltar da ponte da vida, de morrer, de suicidar. O solilóquio da cena I do Ato III da peça é exatamente uma avaliação se a vida vale ou não a pena ser vivida: viver ou morrer eis a questão... Morrer, dormir - nada mais - e com um sono dizer que acabamos com a dor e os mil choques naturais a que a carne está sujeita”. Mas você não morre, você é duro, José!” Porque morrer, sair desse vale de lágrimas, não é tão fácil assim.
É de duvidar que exista um pai que, mesmo sendo rei,
ao aproximar-se do corpo sem vida do filhinho não trema”
Agora, quando se trata de um filhinho de onze anos empurrado precoce e prematuramente para fora da ponte da vida, a situação é completamente outra. Hamnet teria morrido com peste bubônica. A perda do filho foi agravada por ser ele o único filho e ainda mais agravada com a impossibilidade do pai em chegar a tempo de encontrar o filho vivo. Nessas circunstâncias, é de duvidar que exista um pai que, mesmo sendo rei, ao aproximar-se do corpo sem vida do filhinho não trema, não suba para a sala que está no andar de cima e caia em pranto. É de duvidar que não diga entre soluços: Meu filho Hamnet! meu filho! meu filho Hamnet! Porque não morri eu em teu lugar? Hamnet, meu filho! Meu filho!...”
O filme indica ser muito provável que isto tenha acontecido com William Shakespeare. Ele deve ter vivido intenso luto durante os quatro anos que seguiram à morte de seu filho. O filme vai além ao tentar dizer que esse luto só foi sublimado pela criação da peça Hamlet”.
Mas cada um que assistir ao filme irá ver nele a sua própria imagem e seus próprios dramas e tragédias. Cada vida - a de Agnes, William, Susan, Judith e Hamnet, a sua, a minha é composta de muitos dias, contados dia após dia. Caminhamos através de nós mesmos, encontrando o fantasma de nosso pai falecido, corsários, gigantes, velhos, jovens, esposas, viúvas, cunhados, mas sempre encontrando a nós mesmos”.
Há quem se vê na história de Agnes (ou Anne Hathway). Uma espécie de mulher fera, amiga da floresta e dos falcões cujo maior milagre eram seus talentos incomuns. O toque de sua mão era algo sobrenatural. Os simples comentavam gerar uma sensação estonteante e extenuante como uma pancada de chuva. Sua bondade e pureza de coração, herdadas da mãe, despertavam a admiração de todos: Tinha, comentava a viúva do boticário, mais bondade no dedo mindinho do que essa gente tem no corpo inteiro”. Seu esposo, William - tentando se estabelecer no teatro londrino - raramente a pôde amar, pois a distância e os afazeres artísticos aumentavam o desejo dele, mas afastavam a pele dela.
Outros se veem no antigo tutor de Latim de Stratford-upon-Avon. Essa personagem, que é o próprio dramaturgo, talvez representa o núcleo central da história. De fato, tudo no filme gira em torno da vida de Shakespeare, de seu casamento com Agnes e da desgraça que teria servido de inspiração para sua obra de maior grandeza.
Outros se veem, naturalmente, no filho que dá título às três obras em grafias intercambiáveis. Se esse filme fosse classificável como um filme de tese ou filme-ensaio, a tese central seria a de que a duradoura e indescritível dor provocada pela morte do filho de onze anos está certamente no cerne da tragédia Hamlet e influenciou profundamente seu processo de criação. O filme é tudo isto e muito mais. Realmente, muito agradável de ver.
* Jornalista, escritor, professor aposentado da UFMT.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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