03 de março, de 2026 | 07:00
O mundo refém de monstros
Carlos Alberto Costa *
Jamais seria um apoiador do governo do Irã, mas também não posso deixar de observar que, se os Estados Unidos de fato defendessem a vida das mulheres de lá, não teriam bombardeado uma escola primária e tirado a vida de mais de 100 meninas em pleno Ramadã (o mês mais sagrado do calendário islâmico, período de jejum). Se defendessem qualquer tipo de liberdade, não seriam parceiros da Arábia Saudita. Se defendessem, de fato, a vida de jovens, não seriam financiadores do genocídio contra o povo palestino. E, se você nasceu no Brasil, na Argentina ou no Chile, não é novidade que os Estados Unidos mintam sempre que dizem querer levar liberdade a outros países - muito menos ao Oriente Médio.
Ser contra o ataque dos Estados Unidos ao Irã não significa, em hipótese alguma, aplaudir ditaduras. Vejo que essa associação automática é intelectualmente limitada. É possível condenar o autoritarismo iraniano e, ao mesmo tempo, rejeitar uma escalada militar que afronta o direito internacional e amplia riscos globais para todos nós.
Está claro que essa ação ocorreu de olho no petróleo. Os Estados Unidos também já atacaram o Afeganistão e a Líbia e não levaram liberdade alguma. Pelo contrário, deixaram mais miséria e destruição. Os Estados Unidos têm cerca de 250 anos e, durante grande parte desse período, estiveram envolvidos em alguma guerra, geralmente movida por poder, ganância, domínio territorial e, mais recentemente, por petróleo, dada sua enorme demanda por energia.
E qual será a consequência desse ataque? Absolutamente ninguém sabe, porque ninguém tem uma bola de cristal. Mas uma coisa é certa: o Brasil possui uma reserva de petróleo riquíssima, as maiores reservas de água doce do mundo, a maior biodiversidade do planeta e muitas terras raras. Apoiar a intervenção em outro país é algo muito perigoso, porque hoje pode ser com eles e amanhã conosco. E, quando a bomba cai, ela não pergunta se você votou em Bolsonaro ou em Lula, se você é de esquerda ou de direita. Ela destrói a sua casa com toda a sua família lá dentro.
É possível condenar o autoritarismo iraniano e,
ao mesmo tempo, rejeitar uma escalada militar
que amplia riscos para todos nós”
E exemplos não faltam. Quantas vezes intervenções foram vendidas como defesa da democracia, enquanto interesses estratégicos e econômicos operavam em silêncio nos bastidores? Iraque, 2003: todos se lembram de que a narrativa era a existência de armas de destruição em massa. E elas não existiam. Chile, 1973: sob a eterna justificativa de combater o fantasma do comunismo, articulou-se a desestabilização e a queda de um governo democraticamente eleito. O discurso era salvar a liberdade. O resultado foi uma ditadura com torturas, desaparecimentos e assassinatos que permanecem na memória dos chilenos até hoje.
Ontem, a narrativa era a luta contra o bicho-papão” do comunismo - ainda é, em alguns grotões. Agora, a narrativa são as armas de destruição em massa, a proliferação nuclear e assim por diante. Na prática, o padrão se repete: cria-se uma ameaça absoluta, sustentada pelo medo, para legitimar o uso da força absoluta. Sem querer defender regimes autoritários, é importante lembrar que a guerra raramente produz justiça. Pelo contrário, produz ressentimento, radicalização e novas violências.
Essa guerra gera um risco sistêmico. O estreito de Ormuz é um eixo vital da energia do mundo. Uma escalada ali não atinge apenas dois países: prejudica a economia e impacta pessoas em escala global. Estamos reféns de monstros.
* Professor aposentado
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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