04 de março, de 2026 | 08:15
Ipatinguense de 26 anos integra forças da Ucrânia na guerra contra a Rússia
Enviada ao Diário do Aço
Matheus Eustáqui, 26 anos, natural de Ipatinga, atua nas forças ucranianas desde novembro de 2025
Por Cícero Henrique
Matheus Eustáqui, 26 anos, natural de Ipatinga, atua nas forças ucranianas desde novembro de 2025Natural de Ipatinga, o jovem Matheus Eustáquio, de 26 anos, está servindo nas forças ucranianas no conflito contra a Rússia há 5 meses. Em entrevista exclusiva ao Diário do Aço, ele relatou as motivações pessoais e ideológicas que o levaram a integrar o Exército da Ucrânia.
Segundo Matheus, sua decisão foi tomada a partir de valores morais e políticos. Decidir lutar pela Ucrânia é uma das escolhas mais profundas e complexas que alguém pode fazer. Não é um único motivo, mas uma combinação de valores morais, políticos e pessoais. Eu acredito que um país tem o direito próprio e absoluto de decidir seu futuro sem interferência externa”, afirmou.
O jovem ipatinguense também deixou claro seu descontentamento com a falta de humanidade no front. Ver famílias sendo expulsas das suas casas, escolas sendo atacadas, crianças e idosos sendo mortos injustamente foram fatores que me fizeram lutar pela Ucrânia”, declarou.
Matheus também explicou que a barreira do idioma não dificultou sua adaptação. Ele se comunica em inglês e espanhol, línguas faladas pela maioria dos integrantes das forças de combate.
Enviada ao Diário do Aço
Matheus (Centro) com outros soldados dentro de um bunker ucraniano sob ataque do exército russo
Matheus (Centro) com outros soldados dentro de um bunker ucraniano sob ataque do exército russoVisão sobre o conflito
Para Matheus, a Ucrânia exerce hoje um papel estratégico na geopolítica europeia. Ela está fazendo o papel de barreira geopolítica. Está pagando o mais alto preço para que o conflito não se expanda para o restante do continente. Tornou-se a linha de frente da Otan e da União Europeia”, avaliou.
O conflito entre Rússia e Ucrânia começou em fevereiro de 2022, após a invasão russa ao território ucraniano, e já provocou milhares de mortes, além de milhões de deslocados internos e refugiados.
Presença de brasileiros
Matheus afirmou que há presença significativa de brasileiros nas fileiras ucranianas. Toda semana chegam muitos brasileiros, de vários estados e idades, principalmente entre 18 e 35 anos”, contou.
Segundo o ipatinguense, parte dos voluntários chega sem conhecimento prévio sobre batalhões ou regiões de atuação. Alguns vêm iludidos e só percebem o que é a guerra quando chegam aqui. Outros vêm para tirar fotos e fazer vídeos e, quando são chamados para missão, fogem, o que é considerado deserção”, relatou.
Treinamento e primeira missão
Sem experiência prévia de combate no Brasil, Matheus explicou que o processo de recrutamento pode ser feito pela internet. Você se inscreve pelo site e aguarda o contato de um recrutador. No meu caso, eu já tinha amigos aqui, inclusive meu irmão, então não precisei passar por esse processo”, disse.
O treinamento, conforme relatou, dura de três a quatro semanas, podendo ser estendido conforme a capacitação do voluntário. Depois do treinamento, você aguarda ser chamado para a missão. No meu caso, dois dias após concluir o treinamento, fui para minha primeira missão”, afirmou.
Matheus informou que durante o treinamento o voluntário recebe 500 dólares. Após esse período, passa a receber cerca de 50 mil grívnias mensais, valor que, segundo ele, equivale a aproximadamente R$ 6 mil. Em zona de combate, há pagamento adicional por dia de missão, podendo chegar a cerca de 190 mil grívnias mensais, o que corresponderia a aproximadamente R$ 23 mil.
Motivações, família e impacto psicológico
Questionado sobre o que o motivou, Matheus destacou que decidiu lutar por ideologia e pela oportunidade de adquirir experiência militar. O jovem contou que sua família, inicialmente, não apoiou a decisão. No começo não apoiaram muito, mas depois começaram a aceitar. Meu pai vive no Brasil e eu morava em Portugal, onde minha mãe também vive”, relatou.
Relatório recente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais aponta que o número total de baixas ucranianas, entre mortos, feridos e desaparecidos, é estimado entre 500 mil e 600 mil. Do lado russo, o total pode chegar a 1,2 milhão de baixas.
Diante desse cenário, o jovem ipatinguense foi direto. Medo de morrer todo mundo tem, mas com o tempo seu corpo e sua mente se conformam. Prefiro viver intensamente, fazendo o que realmente desejo, em vez de viver preso na bolha que a maioria das pessoas vive”, afirmou.
Matheus também reconheceu o impacto emocional do conflito. A guerra é tristeza e dor, às vezes solidão. Perder amigos e pessoas próximas faz enxergar o mundo de forma diferente, mas é preciso continuar em frente”, disse.
Enviada ao Diário do Aço
Brasileiro explica que militares vindos de outros lugares falam inglês e espanhol e isso facilita a comunicação
Brasileiro explica que militares vindos de outros lugares falam inglês e espanhol e isso facilita a comunicação Possibilidade de paz
Para Matheus, o desfecho ideal seria a devolução dos territórios ocupados e a reconstrução do país. O ideal seria a Rússia devolver todas as terras invadidas e ajudar a reconstruir o que destruiu, mas sabemos que é algo difícil de acontecer”, avaliou.
O brasileiro acrescentou que, embora todos desejem um acordo de paz, muitos consideram improvável no curto prazo. Uns ainda têm esperança que tudo volte ao normal. Outros já se acostumaram com a rotina imposta pela guerra”, afirmou.
Matheus segue em território ucraniano e afirma estar convicto da escolha que fez, apesar dos riscos e das incertezas do conflito, mas que está nos seus planos voltar para o Brasil em breve.
Um conflito que já dura quatro anos
A guerra entre Rússia e Ucrânia teve início em 2022, quando o governo russo iniciou uma ofensiva militar em larga escala contra o território ucraniano, com a intenção de anexa-lo à Rússia. A ação envolveu ataques simultâneos por terra, ar e mar, atingindo diversas cidades e infraestruturas estratégicas.
Em relação às mortes em combate, o levantamento indica que a Rússia registrou entre 275 mil e 325 mil soldados mortos, enquanto a Ucrânia teria entre 100 mil e 140 mil mortes confirmadas. Ainda conforme o estudo do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, a proporção de baixas em combate seria de aproximadamente dois para um ou dois e meio para um, com vantagem numérica para a Ucrânia.
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