11 de março, de 2026 | 07:03
Evitando o desastre
Antonio Nahas *
Os documentos produzidos pelo Serviço Geológico do Brasil, juntamente a CPRM sobre os setores de risco climático existentes nas cidades brasileiras são uma preciosidade. Foram sistematizados com esmero e o capricho de quem tem consciência da importância do trabalho que faz. Apenas em Minas Gerais, foram elaborados relatórios para 218 municípios, identificando cada uma das áreas de risco existentes, analisando as situações encontradas e propondo soluções.Chama-se Ação Emergencial para reconhecimento de áreas de alto e muito alto risco a movimentos de massa, enchente e inundação. Seu objetivo é bem claro: visa a redução geral das perdas humanas e materiais. E, para elabora-lo, o Governo teve a iluminação de firmar convênios em todo o país, integrando os Secretários municipais.
Em Ipatinga o mapeamento de risco foi realizado entre 04 de junho e 14 de julho de 2014, após reunião inicial com o Secretário de Segurança e Convivência Cidadã. As avaliações de campo foram guiadas e acompanhadas pelos fiscais vistoriadores da Prefeitura.
A segunda etapa foi campo: visitas em áreas com histórico de desastres naturais ou naquelas onde já foram identificadas situações de risco.
Após as vistorias, foram definidas e descritas com detalhes as áreas de risco alto e muito alto, com base nos dados de campo e análise de fotos aéreas de satélites. Foram gerados documentos específicos para cada um dos locais: formulário, com a indicação dos riscos; relatório detalhado, acompanhado de fotografia para cada um dos locais e, ao fim, um mapa detalhado identificando todas as intervenções a serem feitas.
Cada uma dessas áreas foi denominada setor de risco, e para cada um deles foi confeccionada uma prancha. A prancha é identificada por um código, possuindo uma breve descrição do setor, a tipologia do movimento de massa ou identificação de enchente ou inundação e o número aproximado de moradias e habitantes no interior do polígono.
Em Minas Gerais foram elaborados relatórios
para 218 municípios, identificando cada áreas de risco”
Em Ipatinga foram identificados nada menos que 99 setores de risco. Mais que Juiz de Fora. Foram encontradas situações de risco, no distrito de Barra Alegre e bairros Limoeiro, Córrego Novo, Vila Formosa, Vila Militar, Bethania, Morro do Cruzeiro, Vila Celeste, Morro São Francisco, Canaã, Canaazinho, Tiradentes, Esperança, Nova Esperança, Bom Jardim, Caravelas, Jardim Panorama, Cidade Nobre, Veneza e Iguaçu.
E a peça final do relatório chama-se Setores de Risco, onde existem diversas fotos dos locais; identificação com setas coloridas dos movimentos possíveis de massa de terra; fendas; numero de construções que podem ser afetadas; moradores existentes e sugestões de intervenção.
Como é o relatório - Abusando da paciência do leitor, transcrevo abaixo trechos do relatório sobre uma das áreas encontradas no Barra Alegre, na rua Geraldo Ricardino de Souza.
"Cinco setores de risco foram identificados e delimitados no bairro Barra Alegre. Nesses setores foram identificadas situações de risco de deslizamento e rolamento de blocos. As encostas apresentam alta declividade. Há blocos de rocha em vários trechos e já houve registro de atingimento de moradia por rolamento de bloco. Há muitas casas precárias instaladas sob cortes verticais que instabilizam os taludes, além de construções sobre aterros lançados instáveis. São comuns as fossas e lançamento de águas servidas diretamente nas encostas, potencializando deslizamentos. Foram identificadas casas em linhas de talvegues que podem ser atingidas por enxurradas. Vários deslizamentos, com atingimento de moradias foram verificados nesse bairro. Há casas que deveriam ser desocupadas e demolidas, bananeiras e muito lançamento de águas servidas na encosta. Observa-se também muito aterro lançado, entulho e lixo.
Tipologia do Processo: Erosão, deslizamento do aterro. Grau de Risco: Muito Alto Quantidade de imóveis em risco: 20. Quantidade de pessoas em risco: 80", conclui
Após este diagnostico, vem a sugestão das ações:
- Obras de melhorias na infraestrutura urbanística, como implantação de sistema eficiente de drenagens de águas pluviais; realizar campanhas de educação ambiental com intuito de diminuir ou mesmo evitar o lançamento de lixo e entulho nas ruas, passeios, terrenos baldios e principalmente nas encostas;
- Implantação de políticas de controle urbano para evitar construções e intervenções inadequadas em áreas de encostas íngremes, linhas de talvegue, sob cortes verticais, em áreas com blocos rochosos instável e sobre aterros não consolidados;
- Implantação de obras de contenção adequadas, projetadas e executadas por técnicos habilitados, após avaliação geotécnica;
- Remoção definitiva de famílias e demolição de moradias sob risco muito alto imediato, com proibição de reocupação da área
- Implantação de pluviômetros e sistemas de alerta de chuvas anômalas, para que os moradores possam ser removidos temporariamente dos locais de risco.
Visita à rua - Fui conhecer a rua Geraldo Ricardino. Fiquei muito surpreso o aclive que encontrei. Ela fica na crista de um morro. Após uma subida íngreme, numa rua estreita, chega-se até lá, para encontrar diversas residências, algumas bem construídas. Lá em cima vi os aterros citados, casas penduradas nos morros. A rua é bem estreita, mas é pavimentada e há iluminação pública. Não há drenagem das águas pluviais. Minha opinião, como leigo, pois não sou engenheiro é que nada, nada mudou, após dez anos de alerta.
Juiz de Fora não pode ser esquecida. É um alerta para todas as cidades brasileiras. Em vez de lamentar mortes após a tragédia, prevenir e remediar é a solução. Investir em zonas de risco é fazer Justiça Climática: quem menos contribuiu para aumentar as emissões de carbono não pode pagar o preço da transição energética. Veja o site onde as informações de Ipatinga e outros municípios podem ser acessadas: rigeo.sgb.gov.br
* Economista, empresário. Diretor da NMC Integrativa.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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