18 de março, de 2026 | 07:00
Vorcaro na Lagoinha
Antonio Nahas Junior *
Acompanhar o noticiário nos dias de hoje tornou-se uma tarefa difícil e dolorosa. Pelo mundo afora, Trump continua sua guerra contra o Irã, apoiando os interesses locais e particulares de Israel. Quem esperava uma guerra rápida enganou-se. Lá se vão três semanas, e o conflito assume contornos de guerra prolongada. Nada indica que o Irã vá ceder rapidamente ou que o regime dos aiatolás venha a ser derrubado. O país se uniu perante a adversidade. E, pior ainda, Trump revogou suas sanções contra a Rússia, decorrentes da invasão da Ucrânia. Deram-se as mãos.
Legitimaram entre si suas ações contra outros países. É como se o mundo se tornasse deles, já que a Europa e a China mantêm-se relativamente distantes do belicismo crescente que vem marcando o século XXI. Para o Brasil, vem a possibilidade de aumentar a inflação. A SELIC não deve cair como era esperado, e os juros altos continuarão a sufocar a economia brasileira.
Mas as coisas aqui também não andam nada fáceis. Cada dia aparece mais alguém envolvido nas tramoias de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Este indivíduo era um esbanjador desatinado, com gastos astronômicos em futilidades, que só poderiam ser feitos por quem tivesse roubado e que quisesse mostrar poder e dinheiro para continuar roubando. Quem se arrisca a comprar avião para seu uso por quase R$ 500 milhões; promover casamentos que chegaram a custar R$ 200 milhões; pagar R$ 100 milhões por camarim no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro? Só mesmo quem queria impressionar ministros; parlamentares; juízes; líderes religiosos; diretores de fundos de previdência; executivos de empresas e sabe-se mais quem caiu na sua rede.
Sua teia de influências cobre todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí. Alcança todas as esferas do poder, seja o Executivo, o Legislativo e até mesmo o Judiciário, nas suas mais altas cortes: STF e STJ.
E a cândida desculpa de que quem prestava seus serviços eram parentes dos juízes, e não os próprios ministros, não pode ser levada em conta. Isto não os livra de terem cometido ou pactuado com o ilícito.
E, hoje em dia, num país polarizado como o nosso,
os dois polos políticos procuram responsabilizar um
ao outro pela ascensão daquele marginal”
O que mais chama a atenção é como um aventureiro desqualificado como Daniel Vorcaro conseguiu tanta influência para roubar a todos e agir por tanto tempo sem ser incomodado. Este marginal está no setor bancário há dez anos, desde 2016, entrando neste mercado ao adquirir um banco falido chamado Máxima. Suas táticas sempre foram as mesmas, conforme apurou a Operação Compliance Zero: fraudava balanços; emitia títulos falsos; simulava ter mais dinheiro que possuía.
E a vil moeda era sua principal arma. Simpático, comunicativo, bem trajado, vocabulário sempre comedido; andando de aviões, promovendo festas, generoso, comprou todos e todo mundo.
Utilizou R$ 10 bilhões de reais em propinas, festas e presentes para levar sua influência às altas esferas governamentais.
E, o pior: mesmo com tantas fraudes, tantas estripulias, acabou falido. Tentou um último golpe: vender sua fraude ao Banco Regional de Brasília, mas o Banco Central impediu. Numa avaliação contábil encontrou sinais do que viria a ser um rombo de 17 bilhões de reais...
Uma vergonha imensa para um país como o Brasil, que já havia sido varrido por escândalos extremos. Quem não se lembra da Operação Lava Jato, ocorrida na década passada? Seus resultados foram extremos: levou à prisão do ex-presidente Lula; ao impeachment de Dilma Rousseff; à cassação de mandatos de políticos influentes; à falência de grandes empresas nacionais de engenharia, como a OAS.
Logo após, tivemos a eleição de Bolsonaro, ocupando o vazio político deixado por aquela operação, seguido da tentativa de golpe de Estado perpetrada por seu grupo.
Em poucos anos, tivemos dois presidentes presos e um impeachment. Tudo isto levou ao enfraquecimento do Poder Executivo e ao fortalecimento do Legislativo e do Judiciário.
Tudo isto parecia indicar que o país tivesse aprendido a lição e passasse a trilhar novos caminhos, onde os mecanismos de controle do setor público tivessem se fortalecido.
Mas Daniel Vorcaro mostrou o contrário. O país é frágil; as instituições são cheias de lacunas que permitem aos seus membros agirem de forma ilegal à vontade, sem serem incomodados.
Para mim foi um choque notar como Vorcaro chegou com tranquilidade ao STF; como conseguiu se acercar dos ministros e envolver pessoas que considerava sérias; experientes; dedicadas ao seu trabalho.
E, hoje em dia, num país polarizado como o nosso, os dois polos políticos procuram responsabilizar um ao outro pela ascensão daquele marginal.
Como diria um grande amigo, ao contrário do Irã, o Brasil não precisa ser atacado por ninguém para ser destruído. Nós fazemos isto sozinhos. Se Trump soubesse que o país era tão frágil; tão permeável a práticas ilícitas, teria contratado Vorcaro para comprar o Brasil. Sem guerra e muito barato.”
E quanto a Vorcaro na Lagoinha, não seria para ele ir à Igreja Batista da Lagoinha, onde foi frequentador, mas para o Depósito de Presos da Lagoinha, onde ficam os bandidos pobres em Belo Horizonte: no calor, sem banho de sol, amontoados nas prisões, dormindo no chão, seminus. Ali é seu lugar.
* Economista, empresário. Diretor da NMC Integrativa.
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Gildázio Garcia Vitor
18 de março, 2026 | 08:47Camarada Toninho, parabéns pelo desabafo! "Tá bom! Tá bom! Mas não se irrite!
Para mim, tão ou mais marginais que o Vorcaro, que também deveriam ir para o "Depósito da Lagoinha ", são os políticos, juízes e líderes religiosos.”