20 de março, de 2026 | 07:10
Colorimetria e processamento perceptivo do audiovisual à experiência sensorial na coquetelaria
Abner Benevenuto Araújo Paixão * André Lima Gonçalves **
Uma das primeiras referências culturais que muitos brasileiros tiveram sobre o significado das cores foi o livro Flicts, de Ziraldo. Embora seja uma obra voltada ao público infantil, ela apresenta uma ideia que posteriormente aparece em diversas áreas da comunicação visual: as cores não são apenas fenômenos físicos associados ao espectro da luz. Elas também participam da forma como percebemos, organizamos e interpretamos o mundo visual.Esse princípio tornou-se central em áreas como fotografia, cinema e produção de vídeo. Nessas linguagens, a colorimetria funciona como um componente técnico da construção da imagem. Elementos como temperatura de cor, saturação, contraste cromático e paleta dominante interferem diretamente na leitura visual de uma cena. A organização cromática não atua apenas como recurso estético; ela influencia a forma como o observador processa a informação visual e reage emocionalmente a ela.
Na fotografia, contrastes cromáticos podem direcionar a atenção dentro do enquadramento e estabelecer hierarquias visuais claras. Tons quentes tendem a aproximar elementos do observador, enquanto tonalidades frias frequentemente criam sensação de distanciamento. Essa organização visual atua como um mecanismo de estímulo perceptivo capaz de provocar respostas emocionais específicas no espectador.
No cinema e no vídeo, esse processo se amplia por meio da direção de fotografia e das técnicas de correção e gradação de cor (color correction e color grading). Obras como Oppenheimer, dirigida por Christopher Nolan, utilizam contrastes entre sequências em preto-e-branco e imagens coloridas para estabelecer diferentes camadas narrativas e temporais. Já produções como Blade Runner 2049, dirigida por Denis Villeneuve, utilizam paletas cromáticas dominantes - azuis, laranjas e amarelos densos - para criar atmosferas específicas dentro da narrativa. Em outro exemplo, The Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson, apresenta uma paleta cuidadosamente planejada em tons pastel, na qual a organização das cores funciona como elemento estrutural da composição visual.
Nesses casos, a cor atua como um elemento estruturante da experiência visual. Ela não apenas compõe a estética da obra, mas funciona como um estímulo que orienta a percepção e contribui para provocar respostas emocionais no público.
Essa relação entre cor e resposta sensorial também aparece em outros campos, como a coquetelaria. No bar, a experiência do consumidor começa pela percepção visual do coquetel. Antes da avaliação aromática ou gustativa, existe uma leitura visual do líquido apresentado no copo. A cor funciona como um estímulo inicial que cria expectativas sobre intensidade, frescor, doçura ou amargor.
Determinadas tonalidades acabam sendo associadas, de forma recorrente, a perfis gustativos específicos. O vermelho característico do Negroni tende a sinalizar estrutura e amargor. O rosado do Cosmopolitan costuma ser interpretado como indicativo de frescor e acidez moderada. Já o azul intenso do Blue Lagoon produz impacto visual imediato e frequentemente desperta expectativa de refrescância.
"A cor funciona como um estímulo inicial que cria
expectativas sobre intensidade, frescor, doçura ou amargor"
Do ponto de vista técnico, essas cores resultam da combinação de ingredientes, licores, infusões e frutas, além de fatores físicos como transparência do destilado, diluição, tipo de gelo e iluminação do ambiente. Todos esses elementos interferem na maneira como a tonalidade do coquetel é percebida.
Por esse motivo, a cor pode ser compreendida como um estímulo visual capaz de provocar respostas emocionais e sensoriais antes mesmo da degustação. Assim como ocorre na fotografia, no cinema e no vídeo, a colorimetria na coquetelaria não atua apenas como elemento decorativo. Ela funciona como um fator perceptivo que organiza a experiência visual e influencia a forma como o consumidor interpreta aquilo que está prestes a provar.
* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos, atuando na criação e execução de coquetéis e na valorização da cultura da coquetelaria.
** Profissional do audiovisual com atuação em filmmaking e produção de vídeo e áudio, com foco técnico em captação, narrativa visual e estética cinematográfica.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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