21 de março, de 2026 | 15:00

Músicos profissionais efetivos de Minas dependem de “bicos” para sobreviver

Eliminaram a mensageira das más notícias, mas os problemas continuam. Pode-se resumir desta forma a situação da Orquestra Sinfônica e do Coral Lírico de Minas Gerais, após a demissão de Lígia Amadio do cargo de diretora musical e regente titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.
Elizabete Guimarães/ALMG
Situação foi revelada em audiência pública na ALMG para debater a demissão da maestra Lígia AmadioSituação foi revelada em audiência pública na ALMG para debater a demissão da maestra Lígia Amadio
A demissão ocorreu no início de janeiro deste ano, cerca de 40 dias após a maestra denunciar, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a precarização das condições de trabalho e a defasagem salarial dos músicos da orquestra mineira. Na última quarta-feira (18), a Comissão de Cultura da ALMG realizou audiência pública para avaliar as consequências da demissão, ou seja, a permanência ou o agravamento dos problemas denunciados pela regente.

Antes de ser demitida, Lígia Amadio revelou na Assembleia que um músico iniciante da Orquestra Sinfônica recebe R$ 1.618,72 por mês. O presidente do Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado de Minas Gerais, Antônio Viola, disse que o problema continua. “Se houvesse um concurso hoje, o salário inicial seria próximo a um salário mínimo”, afirmou o sindicalista. O cantor Paulo Henrique Campos Silva, do Coral Lírico, comparou os salários dos músicos mineiros com profissionais de outros estados. Em São Paulo, segundo ele, a remuneração supera R$ 12 mil.

Presidente da Comissão de Cultura, o deputado Professor Cleiton (PV) afirmou que, entre 2019 e 2025, a variação do IPCA foi de 54,15%, mas o governo concedeu apenas 14,15% de recomposição salarial. A diferença resultou em perda de mais de 30% para todas as carreiras de servidores. Por outro lado, no mesmo período, o Estado concedeu R$ 120 bilhões em renúncias fiscais. “É uma decisão política de sucatear o espaço da cultura”, criticou.

Maestra foi demitida
O sindicalista Antônio Viola contou que, após revelar a verdade desconfortável, Lígia Amadio foi interpelada no dia seguinte por suas declarações e demitida logo no início de 2026. De acordo com Viola, a atitude do governo mineiro despertou manifestações em vários países onde ela é conhecida ou já atuou, como Espanha, Alemanha e Argentina.

O 1º trompetista assistente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Claudiomarcus Floriano, afirmou que Lígia Amadio está atuando no México. “Nos meus 25 anos de casa, nenhum maestro se posicionou em favor da orquestra como ela fez”, revelou. Ele disse ter feito uma cirurgia ocular, mas não pode tirar licença porque perderia o adicional por apresentações. “Temos colegas em tratamento de câncer que tiveram que comparecer. Uma colega de perna quebrada foi levada de cadeira de rodas ao palco”, declarou.

A falta de concursos levou a orquestra e o coral a dependerem de contratações para manter o funcionamento. No entanto, sejam efetivos ou contratados, os músicos dependem de “bicos” para completar o orçamento. “Temos que tocar em um bloco de carnaval, fazer quatro ou cinco casamentos, ou ter um segundo emprego que, às vezes, nem tem a ver com música, porque o salário não dá conta. Não fecha no fim do mês para ninguém”, completou Claudiomarcus.

Parlamentares criticam
Autora do requerimento para realização da reunião, a deputada Lohanna (PV) cobrou a realização de concurso e melhoria de salários e revelou considerar que a precariedade da situação não é um acidente. “Essa não é uma questão pontual ou isolada, mas é o método do governo Zema para tratar a cultura”, criticou.

O deputado Leleco Pimentel (PT) disse que, dos 83 músicos necessários para manter a Orquestra Sinfônica, somente 33 são efetivos atualmente, um déficit de 60%. Durante a audiência, ele pediu que fosse observado um minuto de silêncio em homenagem a Lígia Amadio. “Devemos um pedido de desculpas a esta mulher guerreira, competente, profundamente sensível e que assumiu a causa dos músicos”, declarou.

Professor Cleiton lembrou que o governo Zema tentou vender a Sala Minas Gerais, onde se apresenta a Orquestra Filarmônica, e também colocou o Palácio das Artes na lista dos imóveis a serem vendidos no Propag, o plano de renegociação da dívida dos estados com a União. Isso só não aconteceu, segundo ele, por intervenção dos deputados estaduais. “Para Zema, vocês são um problema para o Estado. Vocês são gasto e não investimento”, criticou.

A chefe de gabinete da Fundação Clóvis Salgado, Kátia Marília Silveira Carneiro, admitiu as dificuldades relatadas durante a audiência pública, mas afirmou que a entidade depende da arrecadação de recursos para funcionar. Segundo ela, limitações legais, como a Lei de Responsabilidade Fiscal, também impedem a ampliação de gastos com pessoal e realização de concursos públicos. (Com informações da assessoria de imprensa da ALMG)



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