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05 de abril, de 2026 | 00:25

Semana Santa em Minas é deferente

Antonio Nahas Junior *

Pedro Nava, grande escritor mineiro, autor de romances históricos maravilhosos, como Baú de Ossos, Balão Cativo, Beira-Mar, Galo das Trevas, entre outros, descreve os mineiros, suas histórias, seus fantasmas, suas igrejas, seus personagens, traçando um painel único e maravilhoso sobre a identidade dos mineiros. E, no meio das suas memórias maravilhosas, fala das particularidades da Semana Santa em Minas Gerais.

Minas entrou para a história do Brasil ao fim do século XVII, quando o bandeirante paulista Fernão Dias veio para cá, a mando da Coroa portuguesa, procurar ouro e pedras preciosas. Junto a ele, vieram Borba Gato e tantos outros paulistas, que por aqui acharam ouro em abundancia.

E no inicio do século XVIII para cá vieram levas de imigrantes de Portugal e de outros estados do Brasil. Vinham endividados, trazendo uma bateia para procurar ouro nos riachos e escravos, em busca das chamadas Datas, que eram áreas concedidas pela Coroa para exploração do ouro. Aqui chegando, se estabeleciam, precisando de comida, alojamento, ferradura para os cavalos. Ocuparam uma imensa região, edificando as primeiras vilas. E, no centro delas, as Igrejas, que eram o centro da vida social dos imigrantes, reproduzindo a cultura portuguesa. Ali eram celebradas as missas, feitos os enterros, os casamentos e realizadas as reuniões das Câmaras municipais.

Mas a Coroa Portuguesa acabou por proibir a entrada das ordens religiosas nas regiões auríferas, para impedir o contrabando e as sublevações. Por isto, predominaram em Minas as Irmandades, que são organizações religiosas leigas, que passaram a substituir o clero oficial, celebrando todos os ritos religiosos - missas, casamentos, óbitos -, e até mesmo a construir Igrejas nas cidades mineradoras que surgiam rapidamente. Basta dizer que todo o santuário de Congonhas, construído por Aleijadinho no inicio do século XIX e que hoje é Patrimônio da Humanidade, foi todo ele financiado pela Ordem Terceira do Senhor Bom Jesus do Matosinhos, organizada pelo português Feliciano Mendes, como gratidão por ter recebido graça divina.

Mas vamos deixar Pedro Nava falar um pouco. Abaixo trechos do seu Baú de Ossos, do capítulo II - Caminho Novo, quando ele descreve nossa religiosidade e nossa Semana Santa " ... minha mãe deitou suas raízes principalmente naquela zona que está para Minas e para o Brasil, como a Toscana para a Itália. Essa Etrúria nacional, sua parte mais alta, fica contida num círculo que passa seus arcos por Queluz, Bandeirantes, Claudio Manoel, Fonseca, Bom Jesus do Amparo, União de Caeté, Lagoa Santa, Confins, Ribeirão das Neves, o meio das léguas entre Juatuba e a Contagem , a Crucilândia, para fechar outra vez em Queluz".."...diga-se de passagem, a Toscana Italiana é considerada uma das regiões mais lindas da Itália, com arte, história, religião, paisagem, tudo muito bem combinado.

E mais à frente: "Porque Somos Católicos, Apostólicos, Marianos e a encíclica por que nos guiamos não é a de Roma e sim a sacratíssima Folhinha Eclesiástica da Arquidiocese de Mariana, que tem cem anos e, mesmo quando anuncia neve para o nosso tropical dezembro, prevalece contra o observatório porque nela o meteoro é regulado pela benção do Excelentíssimo Senhor Arcebispo ..."
"Ali estão também as festas de nossa preferência. Não os Reis, o Carnaval, a Aleluia, o São João, o Todos os Santos, o Natal, o São Silvestre - mas as Cinzas, a Quaresma, a Procissão do Encontro, o Ofício de Trevas, o da Paixão e o Finados, que esbraseia Minas com cadeias acesas nos campos, nas igrejas, nos montes e vales, nos cemitérios e nas cruzes cruzes cruzes cruzes dos caminhos que assinalam os lugares onde caíram os tocaiados. As gestas dos nossos oragos preferidos. São Francisco dos estigmas sangrentos. Nossa Senhora das Dores. Jesus. Não o das criancinhas, o do Templo com os doutores, o da adúltera, o do Sermão da Montanha, o das Bodas de Canaã, o da Transfiguração, nem o da Ressurreição - mas o da Agonia no Horto, o da Flagelação, o da Coroa de Espinhos, o do Escárnio, o da Cana Verde, o das Quedas, o da Crucificação, o da Descida da Cruz, o Senhor Morto".

E fala das nossas Igrejas".... São Francisco do Rio das Mortes e São Francisco de Ouro Preto. Carmo de Vila Rica e Carmo de Sabará. Matriz de Mariana e Matiz de Tiradentes. Conceição de Antonio Dias, São João do Morro Grande , Senhor Bom Jesus do Matosinhos de Congonhas do Campo.".

E termina: "Ao crepúsculo, escorre sangue de suas arcadas, de seus altares, de seus zimbórios, de suas escadas. Sangue dos mártires, sangue dos confessores, Sangue de Jesus. Sangrias de Ataíde e de todos os mestres mineiros".
Após muitas outras referencias, Pedro Nava termina assim o parágrafo. "Essa é minha terra. Também ela me tem e a ela pertenço sem possibilidade de alforria. Do seu solo, eu como. Da sua água, bebo. Por ela serei comido. Esta é simplesmente a terra de nascimento, vida e morte do mineiro."


Estas são algumas pílulas da monumental obra deste maravilhoso escritor, recolhidas para mostrar sua visão da nossa religiosidade, marcada pela inspiração oferecida pela semana santa.

Fala de nós, da nossa alma, de valores, crenças, comportamentos, hábitos, transmitidos ao longo de muitas gerações, que foram sendo construídos paulatinamente pela nossa história. Agora desejo a todos uma Feliz Páscoa, com tudo que isto possa significa para cada um de nós.

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