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13 de abril, de 2026 | 18:00

Buena Dicha *

Nena De Castro *


Nos antigamentes, as pessoas andavam pelos caminhos desses brasis afora, buscando chegar a algum lugar. Só gente de posses, ou seja, os fazendeiros possuíam cavalos. Desse modo, caminhavam até chegar a uma vila ou a uma casa grande, onde morava o senhor das terras, tendo ainda barracos miseráveis a uma certa distância, onde viviam os agregados. Os escravos viviam nas senzalas. Pois então, quem chegava em qualquer casa, batia palmas e dizia:

- Ó de casa!
- Ó de fora! - respondiam os moradores.
-É de paz! - dizia quem chegava para pedir pousada. O patrão aparecia então para conversar com o viajante, saber quem era, de onde vinha, para onde ia e o que queria; se o dono não estivesse, vinha a esposa, acompanhada por um filho, escravo ou agregado e tomava as providências necessárias. Não se negava abrigo a ninguém, nem comida. E claro, nada era cobrado, era considerada como obrigação cristã acudir aos que passavam senão teriam que dormir no mato e havia muitos animais perigosos em toda a região, incluindo onças ferozes.

E foi assim, que na boquinha da noite, quando chovia a cântaros e o vento forte assoviava por entre as pedras e árvores, que o desconhecido apareceu na Fazenda Retiro. Quase por milagre que perceberam que alguém gemia lá fora. O dono da fazenda, Tonico Sousa, abriu uma janela no instante em que um raio clareou o terreiro e viu um homem caído. Ele e o capataz Honório saíram lá fora e praticamente arrastaram o desconhecido para dentro de casa. Era um homem moreno, alto, vestia sobre a roupa a capa escura de cavaleiro, mas estava a pé.

Segurava nas mãos uma bolsa velha de couro e estava sem sentidos, de nada dando fé. O dono da casa percebeu que o visitante ardia em febre e trocaram sua roupa, acomodando-o num colchão de palha. Então, a bela Chiquita foi chamada pelo pai para cuidar do desconhecido, que delirava. A moça, de pele clara, cabelos negros e olhos cor de mel, sabia como cuidar de pessoas enfermas, com os chás que uma preta velha lhe ensinara.

Passou a noite cuidando do doente, trocando os panos que lhe colocara na testa e fez com que engolisse colheradas de remédio preparado com ervas. Após três dias o forasteiro melhorou e pode então contar quem era e a que vinha.
Chamava-se Simão Lupércio e estava a caminho de um povoado que ficava a quatro léguas, para resolver uma questão de terras de sua família. O cavalo se assustara com uma cobra na noite anterior, dera um pinote, ele caíra da sela e o animal fugira. Começou a caminhar pela estrada, com o pé torcido, tomou chuva, mas continuara a andar até quase se arrastar e assim chegou à fazenda.

Chiquita ouvia a conversa do rapaz com o pai, fingindo desinteresse, mas seu coração palpitava: Anos atrás uma cigana lera sua mão e tinha-lhe dito que alguém chegaria em noite de tempestade para ser o amor e o sol de sua vida. E nada mais digo!

* Escritora e Encantadora de Histórias

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Comentários

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Gildázio Garcia Vitor

13 de abril, 2026 | 19:31

“Agora foi o título da sua crônica que me levou para o meu "lugar". O meu Pai, meu "Maluco Favorito", gênio de hospício, que não tinha a quarta série das roças, mas uma boa Biblioteca, e que foi embora muito antes do combinado, teve um livro sobre ciganos, da década de 1930, cujo título era "Buena-dicha", boa sorte, boa sina.
Obrigado!”

Gildázio Garcia Vitor

13 de abril, 2026 | 18:59

“Excelente! Gosto muito desses causos, me levam para a minha infância nas roças de Orizânia.
Querida Bugra Velha, no final do mês será lançada uma biografia do Guimarães Rosa, escrita por um Jornalista capixaba, resultado de vinte anos de pesquisa. Parece que é coisa muito boa p”

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