13 de abril, de 2026 | 14:22
Mudanças climáticas podem reduzir área para apicultura na Bacia do Rio Doce, aponta estudo da UFMG
Divulgação
Pesquisadores apontam que perda de habitat para abelhas deve se intensificar até 2050, afetando a economia local e a polinização de cultivos agrícolas
Pesquisadores apontam que perda de habitat para abelhas deve se intensificar até 2050, afetando a economia local e a polinização de cultivos agrícolasUma cooperação científica entre a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e o Centro de Conhecimento em Biodiversidade revelou que mudanças climáticas futuras podem levar a uma redução de 38% na área climaticamente adequada para a abelha Apis mellifera na Bacia hidrográfica do Rio Doce.
O estudo, intitulado Projected Climate‐Suitable Area for Apis mellifera (Apidae) and Its Spatial Overlap With a Mining Tailings Footprint in South‐East Brazil, analisou o impacto do aquecimento global em paralelo às áreas afetadas pelo rejeito de mineração do rompimento da barragem da Samarco, ocorrido em 2015. As informações foram divulgadas pela UFMG.
Cenários para 2050
A pesquisa, assinada por Flávio Mariano Machado Mota, Débora Lima-Santos, Walisson Kenedy-Siqueira, Kamilla Ingred Castelan Vieira e Geraldo Wilson Fernandes, utilizou modelos preditivos para projetar a distribuição da abelha sob cenários climáticos otimistas e pessimistas até 2050. Como a A. mellifera é a espécie manejada mais difundida globalmente e essencial para a economia regional, o mapeamento busca apoiar a adaptação de produtores locais e da agricultura dependente da polinização.
Os resultados mostram que a proporção de área adequada para a espécie passará de 50% no cenário atual para 31% no futuro. A tendência aponta que a porção oeste e parte do centro da bacia devem se tornar quase totalmente inadequadas para a abelha. Apesar da plasticidade e da ampla distribuição da A. mellifera, nossos modelos projetam uma perda substancial de área”, explica Flávio Mota, autor principal do estudo. Segundo ele, essa contração está associada à sazonalidade das chuvas e à variação de temperatura, o que pode interromper a polinização de cultivos e exigir a realocação de apiários.
O fator "lama de rejeito"
O estudo também identificou que, curiosamente, dentro da área diretamente coberta pela lama de rejeito da mineradora Samarco, localizada sobretudo no leste da bacia, o modelo projeta um declínio muito menor: apenas 8% de redução. O dado indica uma estabilidade comparativamente maior nesse subconjunto restrito e altamente alterado da paisagem.
"Essa estabilidade climática no leste da bacia para uma espécie manejada, exótica e generalista como a A. mellifera deve ser tratada com muita cautela", alertam os pesquisadores. Eles explicam que a dominância de espécies exóticas pode prejudicar as abelhas nativas. Além disso, a estabilidade climática não representa recuperação ecológica, visto que os rejeitos continuam afetando a química do solo e a diversidade da vegetação.
O estudo conclui que este contraste é um resultado geográfico, onde a área de influência se encontra em relação às áreas de estabilidade projetada, e não evidência de que a lama favoreça a adequabilidade climática. A sobreposição espacial, no entanto, ajuda a priorizar o monitoramento socioeconômico da apicultura na região.
As descobertas reforçam a necessidade de ações cuidadosas de manejo. Além da recuperação da vegetação ripária, as estratégias de restauração devem promover polinizadores nativos, fornecendo recursos florais, aumentando locais de nidificação e reduzindo o uso de pesticidas. O objetivo é fortalecer os serviços de polinização e evitar que abelhas exóticas se tornem excessivamente dominantes em habitats sensíveis.
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