21 de abril, de 2026 | 15:25

Professores destacam a construção de Tiradentes como herói nacional

Por Matheus Valadares
Nesta terça-feira, 21 de abril, é celebrado o feriado nacional em homenagem a Tiradentes. A data remete à Inconfidência Mineira, movimento ocorrido em 1789, e também abre espaço para reflexões sobre memória, identidade e construção de símbolos no Brasil.

Para o professor de História Adolfo Thomaz Martins da Costa, o próprio termo Inconfidência Mineira pode ser questionado. “Inconfidência significa traição. O termo mais adequado seria conjuração, que remete à conspiração, a um grupo articulando ideias e ações”, explicou.
Arquivo pessoal
Adolfo Thomaz, professor de História, destaca os mitos em volta da Inconfidência Mineira e pontua outros aspectos sobre o evento históricoAdolfo Thomaz, professor de História, destaca os mitos em volta da Inconfidência Mineira e pontua outros aspectos sobre o evento histórico

Segundo ele, o movimento ocorreu em um contexto de crise econômica na mineração, com queda na produção de ouro e manutenção da alta carga tributária por parte de Portugal. “Existia a ameaça da derrama, que era a cobrança forçada de impostos atrasados, o que gerava insatisfação entre setores da elite local”.

Além da questão econômica, o professor destaca a influência das ideias iluministas, que circulavam na época e defendiam princípios como liberdade, separação dos poderes e críticas ao absolutismo.

Apesar de ter ocorrido no mesmo ano da Revolução Francesa, Adolfo ressalta que esse evento não influenciou diretamente os mineiros. “O movimento que inspirou a conjuração foi a independência dos Estados Unidos, em 1776, que serviu de referência para esses grupos que buscavam autonomia política”, afirmou.

Construção da memória


Se por um lado a História ajuda a entender o contexto do movimento, por outro, a Sociologia amplia o olhar sobre como esses acontecimentos são lembrados ao longo do tempo.
Arquivo Pessoal
Para o sociólogo Mattheus Rosa, datas como o Dia de Tiradentes funcionam como mecanismos de atualização da memóriaPara o sociólogo Mattheus Rosa, datas como o Dia de Tiradentes funcionam como mecanismos de atualização da memória

Para o professor de Sociologia Mattheus Rosa, o 21 de abril representa mais do que um marco histórico. “Essa data institui um ritual cívico que organiza o tempo social e reforça valores considerados centrais para a coletividade”, pontuou em entrevista ao Diário do Aço.

Rosa acrescenta que essas datas funcionam como mecanismos de atualização da memória. “A sociedade reafirma e também reinterpreta seus símbolos. A identidade nacional não é fixa, ela é constantemente reconstruída por meio dessas práticas”, afirmou.

Papel das instituições


Mattheus destaca que a construção dessa memória envolve diferentes agentes sociais. “A mídia, a escola e o Estado desempenham papéis fundamentais. A mídia simplifica e dramatiza eventos, consolidando narrativas. Já a escola deve ir além da reprodução e promover a problematização dessas memórias”, detalhou.

Ele acrescenta que o Estado também atua diretamente nesse processo. “Ao oficializar datas e símbolos, ele define o que deve ser celebrado. A memória coletiva reflete disputas de poder entre grupos que buscam legitimar suas versões da História”, afirmou.

Essa visão dialoga com a análise do professor de História, que ressata a importância de abordar o tema de forma crítica nas escolas. “Não se trata apenas de decorar datas. Os estudantes precisam entender que a História é feita de disputas e diferentes interpretações. Muitas vezes é a História oficial que prevalece, mas nem sempre é verdadeira. Estudar esse movimento e suas interpretações fortalece a cidadania e desenvolve o pensamento crítico sobre o passado e o presente”, asseverou Adolfo.

Limites do movimento


Embora a Inconfidência Mineira seja frequentemente associada à luta por liberdade, o movimento tinha limitações. “Era liderado por uma elite e não defendia plenamente a participação popular nem o fim da escravidão”, destacou Adolfo.

Segundo ele, há equívocos comuns na forma como o episódio é lembrado. “É um mito pensar que foi um movimento popular ou que buscava libertar todo o Brasil. Era um projeto regional, voltado para Minas Gerais”.

O professor acrescenta que, caso tivesse sido bem-sucedido, o movimento poderia ter resultado na formação de uma República independente na região, e não necessariamente em um país unificado.

Tiradentes como símbolo


A centralidade de Tiradentes na memória nacional também é resultado de um processo histórico. “A imagem dele como herói foi construída cerca de cem anos depois, com a Proclamação da República, quando houve interesse em criar símbolos que representassem o novo regime”, assegurou o professor de História.

De acordo com Adolfo, essa construção incluiu elementos simbólicos marcantes. “A imagem com barba e cabelos longos, semelhante à figura de Jesus, foi uma forma de criar uma representação messiânica e mobilizar o imaginário popular”.

Mattheus Rosa reforça essa leitura ao destacar que a memória não é um reflexo fiel do passado. “Ela é uma construção ativa do presente, organizada a partir de interesses e disputas sociais”.

Ele cita o sociólogo Maurice Halbwachs ao explicar que a memória é coletiva e constantemente reconstruída. “O caso de Tiradentes mostra como um personagem histórico pode ser transformado em mito, simplificado para representar valores nacionais”, destacou.

Identidade e pertencimento


A consolidação de Tiradentes como herói nacional também está ligada à formação da identidade brasileira. “As nações dependem desses símbolos para transformar a ideia abstrata de nação em algo emocionalmente reconhecível”, explicou Mattheus, ao mencionar a teoria das “comunidades imaginadas”.

Ele também chama atenção para os limites desse processo. “Todo documento de cultura é também um documento de barbárie, pois carrega exclusões. A construção de símbolos pode fortalecer o pertencimento, mas também ocultar outras narrativas”, alegou.

Importância para a sociedade atual



Mattheus destaca que revisitar essas narrativas é essencial para uma sociedade mais consciente. “Questionar o que é lembrado e o que é silenciado permite compreender que a história não é neutra, mas resultado de escolhas e disputas”, concluiu.

Mitos sobre a Inconfidência Mineira



Um dos equívocos mais comuns sobre a Inconfidência Mineira é a ideia de que o movimento foi popular e tinha como objetivo libertar todo o Brasil do domínio português. De acordo com o professor de História Adolfo Thomaz, essa interpretação não corresponde aos fatos. Ele destaca que o grupo não defendia mudanças estruturais mais profundas, como o fim da escravidão. “Também não havia um projeto de igualdade social como entendemos hoje. Era um movimento com limites claros, dentro do contexto da época”.

Quem foi Tiradentes


Joaquim José da Silva Xavier nasceu em 1746, em Minas Gerais, e foi um dos participantes da Inconfidência Mineira, movimento que pretendia tornar a capitania independente de Portugal.

Durante a vida, exerceu diferentes atividades, como tropeiro, comerciante, minerador e militar. O apelido “Tiradentes” surgiu por atuar na extração de dentes, prática comum antes da profissionalização da odontologia no Brasil.

Entre os envolvidos na conjuração, foi o único condenado à morte. Os demais tiveram suas penas convertidas em degredo (exílio). Tiradentes foi enforcado em 21 de abril de 1792, acusado de traição à Coroa portuguesa.

Com o passar do tempo, especialmente após a Proclamação da República, sua imagem foi ressignificada e ele passou a ser reconhecido como herói nacional. A data de sua morte foi instituída como feriado em sua homenagem.
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Comentários

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Mineiro Patriota

22 de abril, 2026 | 23:54

“Pena que este movimento não deu certo, hoje minas seria um país forte e pujante, talvez o sudeste estaria fora deste Brasil atual, livre destes anos e anos de desgoverno da esquerda (PT, PSDB e companhia) que só explorou a classe média e empresários além de iludir os pobres para continuarem a votar nestes partidos odiosos.”

Antonio

22 de abril, 2026 | 12:22

“a religião também surgiu assim.”

Gildázio Garcia Vitor

22 de abril, 2026 | 08:18

“Parabéns e obrigado pelo comentário, Sr. Marcos Anacleto!
Para a excremento-direita bolsonarista -olha um pleonasmo aí gente!-, só plagiando o Camarada Lenin: "Idiotismo e imbecilismo: doença infantil do bolsonarismo".

Eu, e muitos colegas, fizemos História por sermos de Esquerda, e não o contrário. Apesar que alguns se tornaram de esquerda ao cursar História, Sociologia e Geografia.”

Marcos Anacleto

22 de abril, 2026 | 07:15

“Tião Arranha, a maioria dos professores é de esquerda porque ser Professor de História os obriga a estudar muito. E qualquer estudo mostra o rumo do inferno que toma a direita. Vai lá em Buenos Aires ver o que o seu ídolo cucaracha Melei está fazendo com o povo e a economia argentina. Em Santiago do Chile já estão arrependidos de eleger outro lambe botas do laranjão do norte. E comparar Tiradentes com Bolsonaro mostra o quanto você é desonesto intelectualmente.”

B2@

22 de abril, 2026 | 02:02

“Brasil sempre construindo "mitos". Gosto da história, mas, assim como a inconfidência mineira, a abolição da escravatura da forma romantizada, é uma farsa. Muitas outras, também o são. Acredito que até a própria Bíblia como é interpretada pela maioria dos fiéis sem contestação, também. Este comentário meu, em nada questiona a existência de Deus. Apenas remete a seguinte frase: "sei que nada sei". Em nosso caso, sempre enganados. A quem interessa? Não há heróis!!!”

Tião Aranha

21 de abril, 2026 | 21:35

“O moralismo ético de dom Pedro II, com todo merecimento, é deve ser inaltecido como exemplo de homem a ser seguido pelos políticos atuais. Tiradentes não, a gente nem sabe direito se ele existiu. Se Tiradentes fosse vivo hoje ele seria bolsonarista, pois estaria contra esse Sistema injusto e corrupto que aí está. Toda História tem seu lado verdadeiro e seu lado falso. Só não entendo o porquê da maioria dos professores de História serem da Esquerda. Rs.”

Samuel Mendes

21 de abril, 2026 | 12:20

“Matéria de suma importância e conhecimento cultural, desmistificando mitos e esclarecendo fatos que foram ocultos com o passar das décadas, eu como ex aluno e amigo de Mattheus fico lisonjeado ao poder ver o seu nome em uma matéria tão rica, não podendo deixar de parabenizar o professor Adolfo também por um excelente trabalho e citações!”

Patrícia Rodrigues Lima Rabelo

21 de abril, 2026 | 09:39

“Parabenizo os professores e colegas de trabalho, Adolfo e Mattheus, pela brilhante participação nesta matéria.
?É fundamental exercer um olhar crítico sobre como a fabricação mítica de heróis é utilizada para silenciar as complexidades dos movimentos sociais ou para converter a comoção e o imaginário popular em massa de manobra, como ocorreu na Conjuração Mineira. Ao aproximar a imagem de Joaquim José da Silva Xavier à de uma figura crística (com barbas e cabelos longos que ele, como militar e prisioneiro da Coroa, jamais ostentaria), o Estado brasileiro não buscou apenas um símbolo de sacrifício para legitimar o novo regime; buscou também popularizar uma revolta que era, em essência, liderada por uma elite econômica com interesses muito particulares e, frequentemente, alheios às dores da população escravizada.
Temos visto que a história se repete em vários contextos da contemporaneidade.
Agradeço pelas valiosas contribuições históricas e sociológicas oferecidas pelos colegas e pela excelente condução da matéria.

?Por mais professores e reportagens assim!”

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