06 de maio, de 2026 | 19:20
Usiminas anuncia novos investimentos em Ipatinga e projeta reação do mercado após medidas contra importações
Siderúrgica aposta em eficiência para manter competitividade e volta a frisar a importância da defesa comercial para enfrentar avanço do aço chinês
Cícero Henrique
Apesar das perspectivas positivas em alguns segmentos industriais, Chara disse que o cenário para os próximos meses exige cautela
Por Matheus Valadares
Apesar das perspectivas positivas em alguns segmentos industriais, Chara disse que o cenário para os próximos meses exige cautelaA Usiminas projeta investir R$ 1,6 bilhão em 2026, sendo R$ 971 milhões destinados à planta de Ipatinga, em um cenário de expectativa moderada para o mercado siderúrgico brasileiro diante das medidas antidumping e das tensões geopolíticas internacionais. A avaliação foi apresentada na tarde desta quarta-feira (6) pelo presidente da companhia, Marcelo Chara, durante entrevista coletiva concedida à imprensa no Centro de Memória Usiminas, no bairro Castelo.
Segundo Chara, a expectativa da empresa é que os reflexos das medidas de defesa comercial adotadas pelo governo federal contra o aço importado sejam percebidos de forma mais efetiva apenas a partir do segundo semestre. Atualmente, o Brasil aplica taxa antidumping de 10,8% para determinados produtos, enquanto os Estados Unidos, por exemplo, adotam sobretaxa de 50% sobre o aço importado.
O presidente também chamou atenção para o cenário global marcado por conflitos e instabilidade econômica. Segundo ele, as tensões envolvendo Estados Unidos, Irã, Rússia e Ucrânia já impactam diretamente a inflação mundial, o custo do petróleo e a logística internacional, afetando diversos setores industriais.
O impacto dos energéticos, o incremento de custos de petróleo, frete, as perspectivas de inflação que o mundo todo tinha aumentaram conforme a evolução de toda esta dinâmica. E isso é algo que impacta a todos os países, incluindo o Brasil. Por isso eu diria que, não obstante, vemos que há setores da economia que vão sofrer mais que outros, mas vemos setores em que há uma perspectiva de desenvolvimento”, afirmou Chara.
Dados apresentados pela empresa, com base em projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), apontam aumento da expectativa da inflação mundial de 3,9% para 5,4% em 2026, além de elevação de 3,5% para 3,9% em 2027.
Há, ainda, o impacto do aumento do preço do petróleo, que afeta o mercado global. Isso implica em ajustes, seja para aumentar preços, manter a rentabilidade, otimizar processos ou gerenciar custos operacionais. Procuramos, portanto, manter a competitividade, e o mesmo se aplica a todos os produtos e serviços. Cada item que o consumidor adquire refletirá esses custos, seja em um produto específico ou em outros”, acrescentou.
Concorrência desleal permanece
Outro ponto abordado foi o avanço das importações de aço chinês. Conforme Chara, a indústria chinesa opera há cerca de quatro anos com preços subsidiados, o que permite exportações sem margem de lucro. Segundo ele, fora da Ásia e do Oriente Médio, o Brasil é o país que mais recebe aço produzido na China.
No início deste ano, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços anunciou uma sobretaxa de 25% para nove produtos siderúrgicos importados. Além disso, em julho vence o atual sistema de quota-tarifa para outros 16 produtos do setor. O mecanismo foi ampliado em 2025 por mais 12 meses, e a expectativa é que um movimento semelhante seja feito novamente.
Essa medida, nos próximos dias, tem que ser definida, e nós confiamos que vai ter uma revisão correta, equilibrada, que vai permitir complementar a medida”, declarou.

Investimentos em Ipatinga
Para aumentar a competitividade, reduzir custos operacionais e melhorar a eficiência ambiental, a Usiminas anunciou uma série de projetos industriais para Ipatinga. Entre os principais investimentos estão o reparo a quente da Bateria 3 da Coqueria 2, orçado em R$ 973 milhões, e a nova planta de moagem e injeção de PCI, com aporte de R$ 597 milhões.
Também estão previstos a reconstrução parcial da Bateria 4 da Coqueria 2, com investimento de R$ 1,7 bilhão, e a construção de um novo gasômetro, avaliado em R$ 249 milhões.
Estamos terminando o projeto de PCI, de injeção de carbono nos altos fornos. Isso significa reduzir o coque importado. Isso é redução de custos. Por outra parte, isso implica menor quantidade de frete contratado, menor quantidade de caminhões para movimentos, menor quantidade de serviços, e eficiência energética, mas eficiência em todos os serviços também”, apontou Chara.
Também estamos incorporando ferramentas de gestão que nos permitem melhorar a produtividade e reduzir a quantidade de custos nos trabalhos de manutenção. Fizemos um trabalho profundo em incorporação de tecnologia com ferramentas de medição e otimização para contratar menos pessoas e executar os mesmos trabalhos com menor custo. Ou seja, aqui estamos mudando o perfil de carga metálica dos fornos. Estamos usando maior quantidade de carga sólida e sucata, que é mais barata na produção. Temos um conjunto de medidas de melhoria de custos porque não podemos confiar nas ações. A defesa é uma parte. Não temos que correr mais rápido, ser mais eficientes, mais eficazes, mais produtivos e de menor custo. É uma luta constante”, afirmou.

Produção e empregos
Sobre a possibilidade de ampliação da produção, Chara afirmou que o mercado segue pressionado pelas importações, o que limita o crescimento imediato da escala produtiva.
Por exemplo, investimos para aumentar a eficiência e a produtividade, e, embora tenhamos potencial para dobrar nossa produção, nosso objetivo é otimizar a operação produtiva. E, como resultado, obteremos ganhos”, declarou.
Ele acrescentou que a empresa não prevê aumento expressivo do quadro de funcionários permanentes, embora os investimentos devam demandar mão de obra ao longo das obras previstas para os próximos anos.
Por fim, Chara disse que o cenário para os próximos meses exige cautela, apesar das perspectivas positivas em alguns segmentos industriais.
O desenvolvimento de alguns setores em particular, como o setor de automotriz e outros, nos permite ver, somando a medidas que o governo adotou de defesa comercial, correta, baseado em fundamentos técnicos, sólidos, robustos, para evitar a importação de produtos subsidiados, eu vejo uma perspectiva moderada de otimismo para os próximos meses. Digo moderada de otimismo porque a prudência é fundamental, o cuidado de caixa é muito importante, a obsessão por custos, capital de trabalho é vital para ter uma situação financeira saudável, para enfrentar qualquer tipo de disrupção que pudermos ter em frente a estes acontecimentos mundiais”, concluiu.
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