14 de maio, de 2026 | 07:20
O espelho da desordem: a guerra de Trump e o caos brasileiro
Samuel Hanan*
O mundo assiste, atônito ou entusiasmado, à consolidação de uma nova era política em Washington. O retorno de Donald Trump à Casa Branca não foi apenas uma vitória eleitoral; foi a declaração de uma "guerra" aberta contra o establishment, as burocracias globais e o que ele define como as amarras que impedem a soberania econômica. Contudo, ao cruzarmos a linha do Equador, percebemos que o Brasil não apenas observa esse fenômeno, mas mergulha em seu próprio caos político uma desordem que, ao contrário da americana, carece de um norte estratégico e sobra em populismo de conveniência.Podemos pensar na contraposição de uma guerra de propósito versus o caos da inércia. Nos Estados Unidos, a "guerra" de Trump é programática. Pode-se discordar visceralmente de seus métodos ou de seu protecionismo, mas há uma clareza de intenções: a redução drástica do peso do Estado, o fortalecimento da indústria doméstica e o uso da geopolítica como ferramenta de pressão comercial direta. É uma ofensiva que visa quebrar estruturas para reconstruir o que ele entende por hegemonia.
No Brasil, vivemos o oposto. O nosso "caos" não é um meio para um fim, mas um fim em si mesmo. O que vemos hoje em Brasília é o triunfo do imediatismo sobre o planejamento. Enquanto Trump declara guerra ao sistema para, em sua visão, "limpar o pântano", a classe política brasileira parece empenhada em decorar o pântano com "penduricalhos" orçamentários, emendas de relator e uma sanha arrecadatória que sufoca quem produz em nome de um assistencialismo que não emancipa, apenas mantém o status quo a falta de liberdade econômica, política e de expressão uma espécie de escravidão pela renda.
Como tenho defendido sistematicamente, a maior tragédia brasileira é a ausência de um plano vintenário. Enquanto a administração Trump utiliza a força política para redesenhar acordos globais, o Brasil se perde em discussões rasteiras sobre como furar o teto de gastos para acomodar promessas de campanha que a aritmética básica desmente, sendo que o caos brasileiro é alimentado diuturnamente por uma insegurança pública gritante onde as facções criminosas operam como estados paralelos, diante da leniência ou da incapacidade de gestão dos governos. De outro lado, temos uma insegurança jurídica, em um ambiente onde as regras do jogo mudam conforme o humor das cortes superiores, afastando o investimento estrangeiro que agora, com mais força, olha para o mercado americano fortalecido por incentivos fiscais, sendo que a irresponsabilidade fiscal traz em si a crença mágica de que o Estado pode gastar o que não arrecada sem gerar inflação e empobrecimento.
O resultado é uma lição que não queremos aprender, a política externa de Trump, marcada pela pressão sobre aliados e oponentes, provavelmente colocará o Brasil em um torniquete. Se não tivermos a casa arrumada, seremos atropelados. Não se trata de escolher um lado na guerra cultural americana, mas de entender que, em um mundo de "nações fortes", o Brasil insiste em ser uma nação à deriva. O caos político nacional, personificado pela polarização vazia de projetos e cheia de ódio, serve apenas como cortina de fumaça para a manutenção de privilégios de uma casta que ignora a realidade econômica. Enquanto Washington se prepara para uma reforma estrutural disruptiva gostemos ou não o Brasil se contenta com o continuísmo populista e irresponsável, mais do mesmo.
Qual a saída? O Brasil precisa de um novo estadista. Não um populista que mimetize o estilo de líderes estrangeiros, mas alguém com coragem para enfrentar o nosso sistema de privilégios, para impor a austeridade como caminho obrigatório para a Ordem e o Progresso, e para dar ao país um plano de metas transparente. A "guerra" lá fora é de afirmação. O nosso caos aqui dentro é de negação. Negamos a economia, negamos a ética e, por fim, negamos o futuro dos brasileiros. Está na hora de o Brasil parar de olhar para as brigas alheias e começar a vencer a sua própria guerra: a guerra contra a incompetência administrativa, a gastança irresponsável, o descalabro fiscal e a complacência com o crime organizado e a escalada da violência. Isso não pode continuar, temos direito a mais e melhor.
*Engenheiro com especialização em macroeconomia e finanças. Foi vice-governador do Amazonas e é autor de obras sobre o desenvolvimento brasileiro. Autor dos livros Brasil, um país à deriva” e Caminhos para um país sem rumo”.
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