20 de maio, de 2026 | 07:30

Como nossos pais, não: muito pior

Antonio Nahas Junior *


Minha geração foi brindada com cantores e compositores maravilhosos, como Elis Regina e Belchior. Elis interpretou a música "Como nossos pais", de Belchior, que trata do conflito entre gerações, das esperanças e visões das novas gerações sobre o futuro que se abre.

"Por isto cuidado meu bem. Há perigo na esquina. Eles venceram e o sinal está fechado para nós, que somos jovens..."

E o compositor fala da sua frustração ao ver que, mesmo com muita luta, repetem o que fizeram seus pais: "Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo, tudo... Tudo o que fizemos, nós ainda somos os mesmos. E vivemos... Ainda somos os mesmos... e VIVEMOS COMO NOSSOS PAIS..."

Pois bem. Mas os filhos de Jair Bolsonaro não podem dizer isto: estão mostrando que são ainda muito piores que seu pai, algo que ninguém julgava ser possível.

O papai, mesmo com seu posicionamento político favorável à tortura e à ditadura - e, talvez, por isso mesmo —, elegeu-se Presidente da República. Façanha admirável, mesmo que tenha conseguido isto após Lula ter sido impedido de concorrer. E mais: encaminhou seus quatro filhos para o mundo político: Flávio Bolsonaro ao Senado; Eduardo Bolsonaro à Câmara Federal; Carlos Bolsonaro a vereador no Rio de Janeiro e o caçula, Jair Renan, a vereador em Camboriú, Santa Catarina.

Não é pouco para um pai. Tentou, ao que parece, perpetuar na atividade política não exatamente seus ideais, mas apenas sua família: criar uma dinastia.

Já seus filhos, pelo que vimos revelado nos últimos áudios, revelaram-se personalidades preocupadas exclusivamente com seus interesses pessoais: conseguir dinheiro seja de que modo for e seja de quem for. São aproveitadores inescrupulosos.


“Atos como este são próprios de pessoas que adentram na política
para enriquecer e para se aproveitar dos privilégios e contatos gerados”


Os áudios do mais velho, Flávio, para Daniel Vorcaro, conseguem surpreender quem ouve pelo absurdo, vulgaridade e absoluta falta de noção da imensidão dos valores e da situação vivida pelo seu parceiro, a quem chama de irmão. Primeiramente, o valor que estava sendo negociado: 134 milhões de reais! É muito dinheiro. Muito. E o tal Flávio trata esta quantia como se fosse algo corriqueiro, rotineiro... E, depois de terem sido pagos 61 milhões de reais, ainda relata que há muitos, muitos pagamentos atrasados... em Hollywood, revelando seu encanto e olhar provinciano sobre os EUA. E nós, pobres mortais, acostumados a lutar pelo pão de cada dia, perguntamos: quem investe 61 milhões de reais num filme? Por que faria isto, se não fosse uma negociação envolvendo muitos outros interesses? É muita grana voando, trocando de mãos. E quem tem dinheiro assim para atender a desejos e solicitações tão caras?

Pior: em agosto de 2025, Vorcaro estava todo enrolado. Sua gestão desastrosa no Master já chamava a atenção do Banco Central, especialmente pela compra daquele banco pelo BRB, de Brasília.

E o senador da República, já tendo recebido seus 61 milhões, não se importa com nada disso. Parece inteiramente alheio ao que ocorria. Só pensava no seu bolso. Não há nenhuma palavra de preocupação ou solidariedade — nem com a possível origem dos recursos que já tinha recebido. Para ele, tudo estava uma maravilha.

Simplesmente queria mais e mais e mais dinheiro. E critica seu parceiro/irmão pelas parcelas que não vinham. E dá para especularmos: se o senador eleito pelo povo fez isto, utilizando seu cargo e prestígio para arrancar de um conhecido meliante 61 milhões de reais, tratando tudo isto com a maior naturalidade, como algo corriqueiro e rotineiro, sem se preocupar com as consequências, o que mais ele aprontou? Arrancou mais quanto? De quem? Para fazer o quê? E o que fez em troca? Afinal, qual a natureza do seu mandato e da sua atividade política? Ganhar dinheiro seja de que jeito for? E se fosse Presidente da República, o que iria aprontar?

E depois vimos o destino dos valores: em parte, era para financiar a estadia do seu irmão, Eduardo, nos Estados Unidos... Ressalte-se que Eduardo Bolsonaro era deputado federal. Ao invés de cumprir seu mandato e atender seus eleitores, preferiu ir morar nos Estados Unidos, financiado por Vorcaro. Mesmo com seu pai preso, precisando de articulações políticas para reduzir sua pena, abandonou seu mandato. Que filho mais dedicado...

Atos como este não são de direita, de esquerda ou de centro. São próprios de pessoas que adentram na política para enriquecer e para se aproveitar dos privilégios e contatos gerados. Visam apenas beneficiar a si mesmas.

Os discursos, os repentes, as ironias, os factoides, os momentos de glória na imprensa são apenas uma aparência: a construção de uma imagem pública para enganar seus eleitores. Seus interesses e seu comportamento revelam outra coisa. Personagens assim causam repúdio e desprezo à política por parte do eleitor, e geram desprezo e rejeição ao Congresso, aos partidos, aos deputados.

Pior que eles, só Daniel Vorcaro, que enrolou seu pai com suas malandragens e o levou à cadeia.

* Economista, empresário. Morador de Ipatinga.


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