21 de maio, de 2026 | 07:10
Desenrola Brasil e o dilema das regras econômicas
Guilherme Pianezzer *
O Desenrola Brasil trouxe resultados expressivos, pois mais de 15 milhões de brasileiros renegociaram cerca de R$ 53 bilhões em dívidas, com descontos médios que chegaram a 85% ou 90% em determinados casos, segundo dados oficiais do Ministério da Fazenda.
Do ponto de vista social, é difícil negar o impacto positivo imediato. Milhões de pessoas voltaram a ter acesso ao crédito, reorganizaram sua vida financeira e recuperaram parte da capacidade de consumo. Em um país onde o endividamento das famílias atingiu níveis historicamente elevados, a iniciativa funcionou como uma espécie de descompressão econômica” para uma parte importante da população.
Mas há um ponto que merece atenção. Toda economia funciona sobre expectativas. Pessoas, bancos, empresas tomam decisões observando não apenas a situação atual, mas aquilo que acreditam que acontecerá no futuro. E é exatamente aí que surge o principal dilema do programa.
Quando o Estado cria grandes mecanismos de renegociação com descontos massivos, uma mensagem implícita passa a circular na economia: talvez atrasar pagamentos não seja tão desastroso quanto parecia. Não se trata de afirmar que os brasileiros sejam maus pagadores”. A maior parte da inadimplência nasce de desemprego, inflação, juros elevados e perda de renda. O problema é outro: o efeito que políticas recorrentes podem produzir sobre o comportamento futuro da sociedade.
Pessoas, bancos, empresas tomam decisões observando
não apenas a situação atual, mas aquilo que acreditam
que acontecerá no futuro”
Na Teoria dos Jogos, chamamos isso de mudança estratégica em jogos repetidos. Quando os agentes aprendem que determinadas consequências podem ser amenizadas posteriormente, elas ajustam suas decisões futuras. Em linguagem simples: o sistema inteiro aprende.
Os números recentes mostram como esse debate é mais complexo do que parece. Após o encerramento do primeiro Desenrola, o estoque de inadimplência voltou a crescer rapidamente. Com base em informações do Banco Central, desde o fim do programa, a inadimplência das pessoas físicas aumentou R$ 61 bilhões valor superior aos R$ 53 bilhões renegociados inicialmente.
Isso não significa que o programa fracassou. Significa que renegociar dívidas não resolve, sozinho, os fatores estruturais do endividamento brasileiro como: juros altos, crédito caro, baixa educação financeira e renda comprimida.
Existe ainda outro efeito pouco discutido: a percepção de justiça. Milhões de brasileiros fizeram sacrifícios profundos para manter suas contas em dia. Cortaram consumo, venderam patrimônio e reorganizaram suas vidas para não entrar em inadimplência. Quando observam descontos de até 90% para dívidas antigas, muitos sentem que o sistema premia o atraso e penaliza o esforço de quem pagou corretamente.
Talvez o maior erro seja transformar o debate em uma
disputa moral simplista entre ajudar pobres” e defender bancos”
E economias dependem fortemente dessa percepção coletiva de equilíbrio. Crédito não funciona apenas com dinheiro; funciona com confiança. Bancos calculam risco observando comportamento futuro esperado. Se o mercado passa a acreditar que grandes renegociações se tornarão frequentes, parte desse risco tende a ser incorporado nos juros cobrados de toda a sociedade.
Talvez o maior erro seja transformar o debate em uma disputa moral simplista entre ajudar pobres” e defender bancos”. A verdadeira discussão é sobre como construir políticas que ofereçam recuperação financeira sem destruir os incentivos que sustentam a cooperação econômica de longo prazo.
* Professor de Matemática Financeira, doutor em Métodos Numéricos pela UFPR e professor-tutor dos cursos de Exatas do Centro Universitário Internacional Uninter. É autor de mais de 10 livros nas áreas de matemática, estatística, economia e educação financeira. Atualmente é estudante do curso de ciências econômicas na mesma instituição.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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