28 de maio, de 2026 | 07:00

O Brasil real incomoda quem nunca precisou sobreviver nele

Miguel dos Santos *

Está faltando mão de obra. Mas não porque as pessoas ficaram “preguiçosas”, nem porque preferem viver de Bolsa Família, como gostam de repetir certos especialistas de rede social, empresários acomodados e comentaristas que nunca passaram um mês dependendo de salário mínimo para pagar aluguel, comida e transporte. Essa narrativa é uma falácia conveniente. E das mais cruéis.

O que mudou no Brasil não foi a disposição para o trabalho. O que mudou foi o mercado. Durante décadas, milhões de trabalhadores ficaram presos a empregos formais engessados, mal remunerados, humilhantes e sem qualquer qualidade de vida. Agora, parte dessas pessoas descobriu outras formas de ganhar dinheiro sem precisar aceitar qualquer vaga apenas para sobreviver.

Muitos migraram para aplicativos de entrega e transporte de passageiros porque encontraram algo que o emprego tradicional frequentemente nega: autonomia. A possibilidade de escolher horários, organizar a própria rotina, definir a carga de trabalho, conciliar diferentes atividades e até decidir quando descansar sem precisar implorar autorização a chefe.

Não faltam trabalhadores. O que sobra hoje são alternativas. E, diante da escolha entre um emprego convencional que paga pouco, exige muito e trata o trabalhador como peça descartável, e uma atividade mais flexível, é óbvio que muita gente vai preferir a segunda opção. Isso não é preguiça. É racionalidade. Sem contar que muitas empresas mantêm um time unido, evitando a rotatividade, que causa danos ao processo produtivo, oferecendo salários melhores, benefícios e segurança.

Mas existe um grupo que insiste em transformar pobreza em defeito moral. E aí entramos no capítulo da demonização do Bolsa Família.

O Bolsa Família talvez seja uma das políticas públicas mais mal interpretadas da história recente do Brasil. Existe uma ignorância deliberada em torno do programa, alimentada por preconceito de classe e por uma visão desumana da pobreza.

Primeiro: o dinheiro do benefício não desaparece. Ele circula imediatamente na economia local. Vai para o mercadinho do bairro, para a farmácia, para o gás, para o material escolar, para a padaria. Esse recurso movimenta comércio, gera consumo e ajuda pequenas economias locais a sobreviverem.

Segundo: a velha tese de que “o pobre se acomoda” simplesmente não se sustenta nos dados.

Durante anos repetiram essa ideia como se fosse verdade absoluta. Mas a realidade desmente o discurso.


“O Bolsa Família não existe para substituir trabalho.
Existe para garantir o mínimo enquanto a vida tenta se reorganizar”



Um estudo da Fundação Getúlio Vargas mostrou que, em dez anos, mais de 60% dos beneficiários deixaram o Bolsa Família. Entre jovens que eram adolescentes quando suas famílias recebiam o benefício, esse percentual supera 70%.
Ou seja: os filhos do Bolsa Família, em grande parte, não permanecem dependentes do programa. Isso não é fracasso. Isso é exatamente o objetivo de uma política pública séria: impedir que a pobreza vire herança.

O Bolsa Família não existe para substituir trabalho. Existe para garantir o mínimo enquanto a vida tenta se reorganizar. Existe para manter criança na escola, garantir vacinação, assegurar pré-natal e evitar que mães precisem escolher entre comprar comida ou mandar o filho estudar.

O debate honesto nunca deveria ser “por que o beneficiário não trabalha?”. O debate correto é outro: por que tanta gente trabalha tanto e continua pobre?

Milhões de brasileiros acordam cedo, enfrentam ônibus lotado, atravessam cidades, aceitam informalidade, fazem bicos, cuidam dos filhos e ainda assim não conseguem sair da miséria.


“O Bolsa Família existe para manter criança na escola,
garantir vacinação, assegurar pré-natal e evitar que
mães precisem escolher entre comprar comida ou
mandar o filho estudar”


E então aparece alguém apontando para um benefício de R$ 600 como se aquilo fosse privilégio. R$ 600!. Você sabe quanto custa uma cesta básica hoje?

A retórica contra o Bolsa Família parte de uma desonestidade intelectual brutal. Como se alguém escolhesse viver com o mínimo. Como se fome fosse projeto de vida. Como se vulnerabilidade fosse conforto.

O benefício não é prêmio por pobreza. É ponte. E ponte não é lugar de moradia. É lugar de passagem.

Criticar o Bolsa Família como se ele produzisse acomodação é ignorar evidências, ignorar desigualdades e, principalmente, ignorar o Brasil real - aquele que muita gente só conhece pela janela fechada do carro ou pelos gráficos frios de uma planilha.

E, por falar em planilha, o Bolsa Família conta com um orçamento previsto de R$ 158 bilhões por ano. É muito, mas não chega perto do investimento anual do Governo Federal no agronegócio brasileiro por meio do Plano Safra que em 2026 custará R$ 516,2 bilhões. Ademais, o custo dos incentivos fiscais no Brasil, na forma de renúncia de arrecadação pelo governo, ultrapassa R$ 804 bilhões ao ano.

Por fim, o Brasil não precisa de menos proteção social. Precisa de mais escola de qualidade, mais creche, mais qualificação profissional, mais emprego decente e menos preconceito fantasiado de opinião econômica.
Porque quando uma política pública impede que uma geração repita a miséria da anterior, ela não está criando dependência. Está criando futuro.

* Economista. Formado pela Universidade Federal de Viçosa, servidor do Estado de Minas Gerais.

Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]

Comentários

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

Envie seu Comentário